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A Sociedade no formigueiro – Edward O. Wilson

março 11, 2013

Considerado o maior biólogo vivo, Edward O. Wilson, criador da sociobiologia, explica porque os homens possuem instinto natural para viver em grupo.

Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard

Formar grupos, extraindo conforto visceral e orgulho da associação familiar, e defender o grupo com entusiasmo contra grupos rivais — esses comportamentos estão entre os universais absolutos da natureza humana e, portanto, da cultura. Uma vez criado um grupo com um propósito definido, porém, suas fronteiras são maleáveis. Famílias costumam ser incluídas como subgrupos, embora se dividam com frequência pela fidelidade a outros grupos. O mesmo ocorre com aliados, recrutados, convertidos, membros honorários e traidores de grupos rivais que mudaram de lado. Uma identidade e certo grau de poder são concedidos a cada membro do grupo. Em retorno, qualquer prestigio e riqueza que este possa adquirir concedem identidade e poder a seus colegas.

Os grupos modernos são psicologicamente equivalentes às tribos da história antiga e da Pré-História. Como tais, descendem diretamente dos bandos de pré-humanos primitivos. O instinto que os mantém coesos é o produto biológico da seleção de grupo.

As pessoas precisam de uma tribo. Ela proporciona um nome, além de um sentido próprio e social num mundo caótico. Torna o ambiente menos desorientador e perigoso. O mundo social de cada ser humano moderno não é uma tribo única, e sim um sistema de tribos entrelaçadas, em meio às quais costuma ser difícil encontrar uma só bússola. As pessoas saboreiam a convivência com amigos afins e anseiam por estar com as melhores companhias: um regimento de fuzileiros navais, talvez, uma faculdade de elite, um comitê executivo de uma empresa, uma seita religiosa, uma república estudantil, um clube campestre, em suma, qualquer coletividade que possa levar a melhor na comparação com grupos concorrentes da mesma categoria.

Atualmente, as pessoas ao redor do mundo, cautelosas em relação às guerras e temendo suas consequências, têm se voltado cada vez mais para seu equivalente moral nos times esportivos.

Sua ânsia pela participação num grupo e pela superioridade dele pode ser satisfeita com a vitória de seus guerreiros nos embates em campos de batalha ritualizados. Como os cidadãos animados e bem-vestidos de Washington, que vieram testemunhar a Primeira Batalha de Bull Run durante a Guerra Civil, eles anteveem a experiência com prazer. Os torcedores ficam empolgados vendo os uniformes, símbolos e apetrechos de batalha de seu time, as taças de campeonatos e bandeiras, as garotas de torcida dançando em trajes sumários. Alguns dos torcedores trajam fantasias estranhas e pintam o rosto em homenagem a seu time, participam de comemorações após as vitórias. Muitos, especialmente os mais jovens, libertam-se de qualquer censura para aderir ao espírito de batalha e ao alegre caos que se segue a ela. Quando os Boston Celtics derrotaram os Los Angeles Lakers no campeonato da Associação Nacional de Basquete dos Estados Unidos, numa noite de junho de 1984, o time estava em êxtase, e seu grito de guerra foi: “Celts Supremos!”. O psicólogo social Roger Brown, que testemunhou as comemorações posteriores, comentou:

Não foram apenas os jogadores que se sentiram supremos, mas todos os seus torcedores. O North End ficou empolgado. Os torcedores irromperam do Madison Square Garden e dos bares próximos, dançando o break no ar, charutos acesos, braços elevados, vozes gritando. A capota de um carro foi abaixada, umas 30 pessoas alegremente se empilharam a bordo, e o motorista — um torcedor — sorriu feliz. Uma carreata circulou buzinando pelos arredores. Não me pareceu que aqueles torcedores estivessem apenas expressando simpatia ou empatia por seu time. Pessoalmente estavam nas nuvens. Naquela noite, a autoestima de cada torcedor foi suprema. Uma identidade social fez um grande bem a várias identidades pessoais.

Brown então acrescentou um detalhe importante:

A identificação com um time esportivo tem em si algo da arbitrariedade dos grupos mínimos. Para ser um torcedor dos Celtics, você não precisa ter nascido em Boston, nem mesmo morar lá, e o mesmo acontece com os membros do time. Como indivíduos, ou diante de membros de outros grupos, tanto os torcedores como os jogadores poderiam ser bem hostis. Mas, como participantes dos Celtics, todos comemoraram juntos.

Experimentos conduzidos durante vários anos por psicólogos sociais revelaram a rapidez e a decisão com que as pessoas se dividem em grupos e depois discriminam a favor do grupo a que pertencem. Mesmo quando os pesquisadores criaram os grupos arbitrariamente e depois os rotularam para que os membros pudessem se identificar, e mesmo quando as interações prescritas foram triviais, o preconceito logo dominou. Quer os grupos jogassem por alguns trocados ou se identificassem de forma grupai, como preferindo certo pintor abstrato em relação a outro, os participantes sempre classificavam os de fora do grupo como inferiores aos membros do grupo. Julgavam seus “oponentes” menos agradáveis, menos justos, menos confiáveis, menos competentes. Os preconceitos se manifestavam mesmo quando as cobaias eram informadas de que os membros do grupo e os forasteiros tinham sido escolhidos arbitrariamente. Numa dessas séries de testes, pediu-se que as cobaias dividissem pilhas de fichas de jogo entre membros anônimos dos dois grupos, e a mesma reação aconteceu. Um forte favoritismo se manifestou sistematicamente em relação àqueles rotulados simplesmente como membros do grupo, mesmo sem nenhum outro incentivo e nenhum contato anterior.

Em seu poder e universalidade, a tendência a formar grupos e depois favorecer seus membros tem a marca do instinto. Seria possível alegar que o viés a favor do grupo é condicionado pelo aprendizado prematuro de se associar aos membros da família e pelo incentivo a brincar com as crianças da vizinhança. Mas, mesmo que tal experiência desempenhe um papel, seria um exemplo do que os psicólogos denominam aprendizado preparado, a propensão inata a aprender algo de forma rápida e decisiva. Se a propensão ao viés a favor do grupo satisfaz todos esses critérios, é provável que seja herdada e, nesse caso, é de supor que tenha surgido por meio da evolução por seleção natural. Outros exemplos convincentes de aprendizado preparado no repertório humano incluem a linguagem, a rejeição ao incesto e a aquisição de fobias.

Se o comportamento pró-grupo for de fato um instinto expresso pelo aprendizado preparado e herdado, deveríamos encontrar seus sinais mesmo em crianças muito novas. E exatamente esse fenômeno foi descoberto por psicólogos cognitivos. Bebês recém-nascidos são mais sensíveis aos primeiros sons que ouvem, ao rosto da mãe e aos sons de sua língua nativa. Mais tarde, dão preferência às pessoas que ouviram antes de falar sua língua nativa. As crianças em idade pré-escolar tendem a selecionar como amigos falantes de sua língua nativa. As preferências começam antes que compreendam o significado da fala e se manifestam mesmo quando diferentes sotaques são plenamente entendidos.

O impulso elementar de participar com profundo prazer de grupos se traduz facilmente, num nível mais alto, em tribalismo. As pessoas tendem ao etnocentrismo. Constitui um fato incômodo que, mesmo quando podem escolher sem culpa, os indivíduos preferem a companhia de outros da mesma raça, nação, clã e religião. Confiam mais neles, relaxam mais com eles nos negócios e eventos sociais, e é comum que os prefiram como parceiros de casamento. Ficam com raiva mais rapidamente quando descobrem que alguém de fora do grupo está se comportando injustamente ou recebendo recompensas indevidas. E mostram-se hostis com qualquer forasteiro que invada o território ou recursos de seu grupo. A literatura e a história estão repletas de relatos do que acontece nos casos extremos, como na seguinte passagem de Juízes 12:5-6, do Antigo Testamento:

E tomaram os gileaditas aos efraimitas os vaus do Jordão. E, quando algum dos fugitivos de Efraim dizia: “Deixai-me passar”,  então os homens de Gileade lhe perguntavam: “És tu efraimita?”. E dizendo ele: “Não” então lhe diziam: “Dize, pois, Chibolete”: Porém ele dizia: “Sibolete”, porque não o podia pronunciar bem. Então o agarravam e degolavam nos vaus do Jordão. Caíram de Efraim naquele tempo 42 mil.

Quando, em experimentos, americanos negros e brancos viram de relance fotos da outra raça, suas amígdalas, o centro cerebral do medo e da raiva, foram ativadas de forma tão rápida e sutil que os centros conscientes do cérebro não perceberam a reação. A cobaia, na verdade, não conseguiu se controlar. Quando, por outro lado, contextos apropriados foram acrescentados digamos, o negro que se aproximava era um médico; e o branco, seu paciente —, dois outros locais do cérebro integrados com os centros de aprendizado superior, o córtex cingulado e o córtex preferencial dorsolateral, entraram em ação, silenciando os estímulos por meio da amígdala.

Desse modo, diferentes partes do cérebro evoluíram por seleção de grupo e criaram o sentimento de grupo. Elas mediam a propensão estrutural inata a subestimar membros de outros grupos ou se opunham a ela para dominar seus efeitos autônomos imediatos. Existe pouca ou nenhuma culpa no prazer quando se assiste a eventos esportivos violentos ou a filmes de guerra, desde que a amígdala governe a ação e a história se desenrole até a destruição satisfatória do inimigo.

Texto extraído do livro “A c0nquista social da Terra” (Companhia das Letras)

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Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

outubro 18, 2012

Nos tempos digitais nossos rastros são virtuais, suscetíveis ao puro e simples desaparecimento sem deixar pistas ou memórias. Isso certamente será um desafio para os historiadores do futuro, que precisarão vasculhar por restos de bytes ou por mídias digitais obsoletas e sem uso. Esse problema me veio fortemente à mente após a leitura de um ótimo texto do suplemento dominical Aurora, que o Diario de Pernambuco publica. O texto impresso foi então digitalizado para ser replicado aqui, o que é uma comprovação daquilo que ele aborda.

Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

Felipe Fernandes – Para o suplemento Aurora, do Diario de Pernambuco de 14 de outubro de 2012

As fitas cassetes estão fora da caixa de origem: distribuídas em pilhas de tamanhos semelhantes sobre o piso de tacos. No dia anterior, Sarnarone Lima, 43 anos, escutava algumas delas naquele mesmo quarto. Uma amiga de sua mulher acabara de lhe devolver o aparelho de som, um gravador antigo. Ele nem se lembrava mais do empréstimo, achava que tinha perdido. Aproveitou o reencontro inesperado para ouvir os arquivos. São mais de cem entrevistas gravadas para o trabalho de conclusão de curso na universidade, que acabou originando seu primeiro livro, Zé (Editora Mazza, 1998).

Diante da quantidade de objetos espalhados pelo quarto, as fitas não chamam a atenção. O escritor e jornalista conta que, mesmo quando arruma, o cômodo volta à desordem original em pouco tempo. Numa dobra da parede, guarda cadernos usados como diários em estantes de ferro. A quantidade de Volumes atinge á casa das centenas. Não lembra quando começou a escrevê-los. Sabe apenas que a cada caderno finalizado, começa outro .e guarda ó anterior.. AS vezes escolhe um e se debruça durante a tarde inteira, viajando na lembrança.

Se antes da popularização do computador memória humana podia ser representada por uma torre com salas de arquivos parecidas com o quarto de Samarone, hoje ela é medida em bytes. Vasculhando com os olhos o ambiente onde o jornalista guarda Seus cadernos, é possível registrar quatro máquinas de escrever e nenhum computador. “Sou da civilização do papel”, confirma. Isso não significa que ele não bote os pés no mundo digital. Simplesmente não gosta. Usa quando necessário. Para postar textos nos seus blogs (estuario.com.br e quemerospoemas.blogspot.com.br), por exemplo. Ou na hora de redigir um livro. “Se bem que agora estou escrevendo um livro à mão mesmo”.

Entre as principais críticas ao computador e afins, Samarone cita a imaterialidade do que é produzido (ele gosta do toque, de manusear seus escritos) e a insegurança quanto à preservação do material. “Tudo pode desaparecer muito facilmente. Basta um dique e as coisas deixam de existir”. Confia mais na palavra impressa, na fotografia revelada, na pasta de arquivo e nas prateleiras da estante. O pé atrás se justifica, diz Daniela Osvald, professora de novas tecnologias da comunicação na Faculdade Cásper Líbero: “A maior parte das informações circula hoje no meio digital, através da internet. Inclusive a comunicação interpessoal. E as pessoas esquecem que as máquinas são finitas e suas capacidades de armazenamento também”. Diante do tamanho da produção de dados proporcionada pela web, ela pergunta: “O quanto de máquina vai ser necessário para armazenar 50 anos de uso da internet?”.

A reflexão nos faz pensar na fragilidade dos arquivos virtuais e na possibilidade dessa fragilidade representar um problema para a futura análise histórica de nosso tempo. Daniela lembra, por exemplo, de quando a faculdade onde trabalha reformulou o próprio site. “Migramos de servidor e não havia como compatibilizar os arquivos antigos. Por conta disso, cerca de sete anos de produção dos alunos do curso de jornalismo foram perdidos”.

Diariamente, Samarone Lima lê mais de três jornais. Costuma recortar as matérias que estão ligadas às suas áreas de interesse, como a ditadura militar ou Cuba, temas de alguns de seus quatro livros. Antes, costumava guardar as matérias em pastas, separadas por ordem alfabética. Até que descobriu que colá-las nas páginas de um caderno é mais eficiente porque facilita a leitura. “E é mais prazeroso, passo horas recortando e colando”, confessa. Uma pilha de folhas pautadas com artigos colados se acumula ao pé da bancada. Só neste ano, já foram dois cadernos inteiros. Em contraste com a seriedade dos assuntos, as capas são coloridas e infantis: um grupo de porquinhos jogando futebol americano em um, um casal de crianças tocando instrumentos musicais no outro. “Acabei criando um grande arquivo sobre os temas que pesquiso. Quando preciso de qualquer coisa é só abrir os cadernos. Pode ser mais simples que pesquisar no Google”.

Como engavetar websites

Um estudo feito pela universidade norte- americana Old Dominion, da Virgínia, mostrou que um ano depois de sua primeira publicação na internet 11% dos links compartilhados no Twitter já não estão mais disponíveis. Depois desse período, a cada dia 0,02% dos sites desaparecem. Guiada pelos pesquisadores Hany Salah Eldeen e Michael Nelson, o levantamento analisou mais de onze mil links publicados no microblog sobre seis assuntos de grande repercussão nos últimos três anos. Chegou à conclusão de que 25% dos Sites postados em 2009 sobre a revolução no Egito, os protestos no Irã, o surto da gripe H1N1 e a morte de Michael Jackson, por exemplo, já estão fora do ar.

Desenvolvida pelo engenheiro de computação norte-americano Brewster Kahle, a biblioteca digital Internet Archive, com sede na Califórnia (EUA), tem arquivado websites desde 1996 com o intuito de promover “o acesso universal ao conhecimento”, como explicitam na própria homepage. A organização não governamental faz snapshots de sites do mundo inteiro, que ficam disponíveis para consulta através do serviço chamado de Wayback Machine. Armazena, ainda, imagens e livros digitais livres de direitos autorais. Instituições que desejam ter seus acervos preservados podem tornar-se parceiras da organização através do projeto Archive it, que armazena sites para empresas. Atualmente, o Internet Archive guarda 2 petabytes de dados, o que equivale a cerca de dois milhões e cem mil gigabytes. Para quem quiser criar seu próprio arquivo, existem softwares de leituras offline que podem armazenar o website no seu disco rígido, gerando um espelho do endereço desejado. A prática de armazenar páginas da internet, entretanto, é pouco difundida. “As pessoas acham que o que está na internet vai durar para sempre”, observa Daniela.

Compartilhar é viver – Ou recordar é hábito ultrapassado

Em caixas da última prateleira está escrito “Negativos”. Samarone Lima conta que eles foram contrabandeados da casa da família, em Fortaleza. Desde que os pais se separaram, os negativos ficaram esquecidos num quarto qualquer da casa da mãe. Aos poucos, ele foi trazendo os registros para seu apartamento. De tão desprezados, ninguém reclamou sua falta. “Essa é uma possibilidade que as mídias digitais não permitem: você encontrar num canto qualquer uma caixa com diversas imagens de sua família. Hoje tem até casais que se divorciam e deletam as fotos juntos”, comenta Samarone. Antes da câmera digital, ainda que houvessem fotografias queimadas ou rasgadas, sempre sobrava uma ou outra esquecida no fundo da gaveta. Com a alternativa de “enviar todos os arquivos para a lixeira”, fica difícil sobrar um.

“À medida que uma fotografia vai ganhando longevidade, ela vai se tornando documento”, explica Rubens Fernandes Junior, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado. Sempre que possível, ele compra fotografias antigas (às vezes álbuns inteiros) de pessoas desconhecidas. Além de curador e crítico de fotografia, é pesquisador das relações humanas através da imagem. Seu diagnóstico sobre a maneira com que a sociedade contemporânea lida com a preservação de arquivos é preocupante. “Estamos caminhando para desconstrução da memória”, anuncia.

O maior problema, segundo ele, está no cerne da relação estabelecida com a imagem. “Não se fotografa mais para guardar, apenas pra compartilhar. Guardar implica em materialidade, durabilidade. Já compartilhar implica em algo efêmero: aparece e some num dique”. O importante não é preservar, mas colocar a imagem nas redes sociais. Os problemas, segundo Rubens, vão aparecer a longo e médio prazo. A compatibilidade de arquivos é uma das &meças dos acervos digitais. “Não vamos guardar e manter ativas traquitanas ultrapassadas apenas para garantir o acesso às imagens. O que nos garante, então, que os arquivos produzidos hoje serão compatíveis com as máquinas do futuro?”. Se pensarmos que a imagem é uma das principais bases de comunicação da sociedade contemporânea, o cenário fica ainda mais assustador. “É uma grande contradição. Vivemos numa-profusão de imagens. No entanto, basta acontecer um problema, um boom, e tudo se perde num instante”.

Minhas cartas, seus e-mails

John Lennon faria 72 anos na semana passada. Para marcar a data, o biógrafo oficial dos Beatles, Hunter Davies, idealizou As cartas de John Lennon (Planeta do Brasil, 2012), livro que apresenta uma compilação de todas as correspondências do ex-beatle. Sua relação com a família, com as mulheres, a intimidade do ídolo exposta em trocas de mensagens. Esse é um privilégio que passa longe dos fãs de artistas contemporâneos. “Primeiro a popularização do telefone já quebrou o registro dessa intimidade. Hoje, o e-mail e as redes sociais tornam ainda mais difícil a existência das cartas “íntimas”, diz Rubens Fernandes Junior. Na pequena caixa de madeira em cima da bancada, Samarone Lima guarda o que considera ser um de seus tesouros. Um carimbo para data, outro para o seu endereço e outro para classificar a correspondência. Até um dia desses ele costumava mandar cartas para os amigos. Geralmente, compartilhava artigos que lia e lembrava do destinatário. Até que desistiu dos Correios. “Ninguém me respondia com cartas. No máximo enviavam uma resposta por e-mail ou telefone”, reclama.

Ainda que fiquem registradas na internet, as mensagens trocadas por e-mail ou redes sociais estão sujeitas a uma senha — ao contrário das cartas, sempre disponíveis para aqueles que as encontrem. Por isso, sem acordo prévio, informações da conta pessoal são condicionadas à existência do autor. Em caso de morte, todo o conteúdo corre o risco de ficar inacessível — apesar de continuar ocupando espaço na web. Para evitar a perda do conteúdo, existem empresas especializadas em gerenciar a vida após a morte na web, que gravam as senhas das contas dos usuários e programam os destinos delas. As redes sociais também oferecem, cada uma a seu modo, opções para que o arquivo seja preservado. O Twitter, por exemplo, envia à família do morto uma cópia de todas as publicações dele — desde que o parentesco seja comprovado. “A partir da análise do que fomos conseguimos entender melhor quem somos. Por isso é importante manter os registros de intimidade, seja nas fotos ou nas mensagens”, explica Rubens.

A engenharia da memória

As informações presentes na rede estão sempre situadas num servidor. Vinícius Cardoso Garcia, coordenador da graduação em tecnologia da informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que os arquivos costumam ser replicados sete vezes para garantir um mínimo de segurança. Sendo assim, para cada giga disponível na rede, são necessários sete de espaço no servidor. “E cada réplica dessa é guardada num local diferente para garantir que ao menos uma esteja sempre preservada':

Para o Internet Archive, por exemplo, são necessários 86 servidores. O projeto é subsidiado por parte das instituições cujos acervos são armazenados. “O armazenamento de dados é bastante caro. Além do custo da tecnologia envolvida, é preciso dar conta também do espaço para instalação desses servidores, que geralmente são bem grandes, e as despesas referentes a refrigeração das máquinas”, afirma Vinícius, que dá aulas de engenharia de software.

Para baratear custos, as empresas costumam construir datacentros em lugares frios, como na Finlândia. “O Google instalou um desses próximo a uma cachoeira justamente por isso”, aponta o professor. Na medida em que os usuários consomem apenas o espaço necessário à sua demanda, compartilhando servidores, a computação em nuvem também surge como uma alternativa para atenuar o preço do armazenamento de dados. “É o uso racional da tecnologia. E o bom é que você não precisa se preocupar onde estão os arquivos, só se são acessíveis”, atesta Vinícius.

Na casa de Samarone Lima, o material armazenado preenche o cômodo inteiro. Das fitas cassetes no chão, do lado dos cadernos sobre a ditadura, às caixas de negativos que tocam o teto em cima da última prateleira. “Não quero nem pensar como vai ser se eu tiver que me mudar daqui, algum dia”. As vezes ele não consegue encontrar um artigo ou página que procura. Mas não faz tanta diferença, ele gosta de procurar. “Eu gosto disso. Por isso não faço questão do mundo digital. Nada contra o computador, mas nada supera uma ida à papelaria”.

Há uns três anos, o jornalista recebeu uma proposta: Marcos Galindo, professor da graduação em Ciências da Informação da UFPE, digitalizou todas as fitas cassetes de Samarone com as entrevistas feitas na década de 1990. Graças ao projeto, as cem entrevistas sobre a ditadura, que serviram de base para o livro sobre o militante José Carlos Novais da Mata Machado sobreviveram. “Quando fui escuta- Ias agora, acabei descobrindo que boa parte está estragada”.

Marcos coordena o projeto de pesquisa Preservação da memória digital: um panorama brasileiro. E garante que a memória da sociedade contemporânea não está tão ameaçada quanto alardeiam. “A matriz do sistema de informação, seja ele digital ou não, é a redundância. Ou seja, a realização de cópias é que garante a segurança do sistema. Com os arquivos digitais a gente perde em durabilidade, mas ganha em plasticidade e, com isso, uma capacidade quase infinita de reprodução”.

O grande problema que o pesquisador enxerga está na maneira como lidamos com as informações. “As pessoas não imaginam que os arquivos são perecíveis. Ninguém zela com o mesmo cuidado um livro e um arquivo digital”. Essa falta de cuidado deve ser corrigida com o tempo. “Até aprendermos lidar com esse novo tipo de memória é provável que existam alguns lapsos na nossa história. Estamos vivendo um período de transição”.

O desenvolvimento tecnológico, revela Marcos, está nós levando em direção a um cenário muito mais complicado. A nanotecnologia, a computação quântica e a capacidade de armazenar dados em átomos de carbono, anunciam a complexidade do que vem por aí. “Os problemas que a gente vive hoje são fichinhas. Temos que nos preparar para o que está por vir: uma alta capacidade de armazenamento, transmissão e processamento por um-custo menor”. Ele lembra de Platão, que usou a palavra pharmakon para—se referir, à linguagem. Como o filósofo grego, Marcos, não sabe dizer se a tecnologia para o armazenamento e produção de dados é o remédio ou o veneno da nossa sociedade.

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A HISTÓRIA ENSINADA ÀS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DOS COLÉGIOS MILITARES

julho 1, 2011

Publicado pela ANPUH

Em 13 de junho de 2010, a jornalista Ana Pinho trouxe à tona, em reportagem da Folha de São Paulo, mais um problema envolvendo política, memória e ensino de História: o livro didático adotado pelos Colégios Militares traz uma versão antidemocrática sobre a ditadura militar brasileira. O material que orienta o ensino de história de filhos de militares do exército e outros alunos admitidos por concurso é produzido pela Bibliex – Biblioteca do Exército – e vendido aos estudantes. Trata-se da obra “História do Brasil: Império e República”, de Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, que integra a Coleção Marechal Trompowsky. [1] A primeira edição é de 2001 e a que temos em mãos é a quarta, revisada, de 2005. Na obra, afirma-se que o 31 de Março de 1964 foi uma revolução democrática, reagindo às orquestrações do Partido Comunista, e também para moralizar a administração pública, e, portanto não se configuraria como um golpe contra um governo democraticamente eleito. O fechamento do regime é explicado como intransigência da oposição emedebista. As torturas e  assassinatos cometidos por setores das Forças Armadas no período não são mencionados.

A matéria suscitou posições contrárias ao uso da obra, publicadas no próprio jornal, tanto de leitores quanto de articulistas da Folha de São Paulo, como Hélio Schartzman e Melchiades Filho. O assunto foi debatido na lista de discussão do Grupo de Trabalho de Ensino de História da ANPUH. Em 05 de Agosto de 2010, a Associação Nacional de História (ANPUH) enviou carta ao Ministério da Educação, Ministério da Defesa e Casa Civil da Presidência da República, manifestando preocupação diante do fato de que o ensino de história nos Colégios Militares legitima o golpe de 1964, com evidente desconsideração das mais básicas evidências factuais e da historiografia que se constituiu sobre o período. A carta apelou também para o significado profundo do ensino e da aprendizagem nos moldes apresentados pelo material didático dos Colégios Militares:

“O ensino da História é partícipe direto da produção de subjetividades, da formação de consciências, de formas de ver e interpretar o mundo, ele participa diretamente da formação ética e política do sujeito e do cidadão, por isso é de suma importância a avaliação de que versões do passado estão sendo ensinadas. Que subjetividades, que tipo de consciência, que visões de mundo podem estar sendo formadas por uma versão da história que justifica e legitima um golpe contra as instituições ainda em nome de uma pretensa defesa da democracia e da civilização ocidental e cristã, que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência. Estes livros são no mínimo um duvidoso exemplo de comportamento ético.”

Por fim, de todas as cartas enviadas, apenas da do Ministério da Educação obteve resposta, por parte da Coordenação Geral de Materiais Didáticos, vinculada à Secretaria de Educação Básica do Ministério. Na correspondência, a coordenadora geral limita-se a citar o artigo 3º. da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que menciona os princípios gerais do ensino (entre eles, “liberdade de aprender, ensinar, pesquisa e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”; “pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas” e “respeito à liberdade e apreço à tolerância”) e o artigo 83, que regula o ensino militar, dando-lhe a autonomia de uma lei específica.

A resposta da COGEAM, se considerada em suas consequências, coloca em xeque a função de regulação do Estado, bem como de orientação temporal da historiografia. Se todos os discursos sobre a história forem igualmente válidos, então todo discurso sobre a história seria igualmente merecedor de crédito diante de seu grupo de interesse, e de tolerância do Estado, sem limites. E ignoraríamos o acúmulo e os avanços qualitativos do conhecimento histórico acadêmico, desenvolvido pelos profissionais de História. Entretanto, para além de qualquer exercício de relativismo histórico oportunista, os limites dos discursos sobre a História são postos pelo texto constitucional, a partir da definição dos crimes. Por exemplo, o MEC tem o dever agir contra uma escola ou conjunto de escolas que professe alguma superioridade ou inferioridade racial, uma vez que isso constitui a base para que alguém incorra no crime previsto no art. 5º., inciso XLII “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão.” E o que dizer de um conjunto de escolas que legitime, justifique ou se omita quanto ao que está disposto no mesmo artigo 5º, inciso XLIII, que considera crimes inafiançáveis e não anistiáveis a “prática da tortura”, ou ainda no inciso XLIV “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático.” ? É evidente que os valores democráticos que embasam a sociedade brasileira não são compatíveis com os valores que embasam a obra didática em discussão, e que expressam uma determinada linha de pensamento de parte da corporação militar quanto à história recente. [2]

Por sua vez, os limites postos pela responsabilidade social da pesquisa histórica estão nas afirmações que são possíveis sobre a história, considerado o estado atual do conhecimento. O estado atual do conhecimento histórico, por sua vez, tem sido uma das principais balizas com as quais o Estado brasileiro, por meio do Programa Nacional do Livro Didático, tem avaliado a qualidade do material que distribui para as escolas públicas nacionais. O que está em tela, portanto, é a coerência de princípios para os materiais didáticos de história que são avalizados pelo Estado para todos os alunos de escolas públicas, independente do subsistema ou órgão ao qual se vinculam.

A seleção dentro da LDB, feita pela coordenadora da COGEAM em sua resposta à entidade, quer lembrar à ANPUH determinados princípios, com isso sugerindo que os mesmos não estariam sendo observados no pedido feito pela entidade. Do mesmo modo que selecionou aqueles artigos, poderia ter selecionado o artigo 4º. e seu inciso IX, que reza que o dever do Estado com a educação pública será efetivado através da garantia de “padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem.”  É esse ponto que deve ser considerado, pois não se trata de uma questão de diferenças ideológicas que mereceriam tolerâncias, mas sim uma questão de defesa dos princípios fundamentais do Estado democrático de direito, como vimos acima, bem como de uma questão de garantia da qualidade do ensino.

Uma análise do volume de História do Brasil: Império e República

O melhor parâmetro de qualidade que dispomos para ser usado em uma avaliação de livro didático são os critérios do PNLD. Isso porque se trata de um programa que seleciona seus avaliadores entre os melhores pesquisadores e professores nos diversos campos da história e do ensino de história. Esse pessoal estuda e redefine continuamente uma ficha de itens que reflete o estado atual das demandas e exigências não só do campo da História, como da Educação e da própria sociedade, consolidada na legislação vigente.

O livro “História do Brasil: Império e República” seria aprovado no Programa Nacional do Livro Didático? A resposta é negativa. Em outros termos, os alunos dos Colégios Militares estão sendo privados do acesso à aprendizagem nos parâmetros contemporâneos de qualidade exigidos pelo Ministério da Educação dos livros didáticos das editoras privadas. A demonstração disso pode ser feita através da submissão do livro didático a alguns itens centrais da ficha de avaliação do PNLD, disponível na internet [3]. Evidentemente, essa análise é parcial porque se trabalha apenas com o livro do aluno e o caderno de exercícios (que é consumível, avesso às regras do PNLD), já que não tivemos acesso ainda ao manual do professor e ao primeiro volume da coleção, que trata da América Portuguesa.

Como não tivemos acesso ao manual do professor, não é possível avaliar o livro no que se refere a esse quesito. No sítio de internet da editora responsável, a Biblioteca do Exército, não há manual do professor à venda para esta obra, o que leva a crer que o mesmo é dispensado. Não há, portanto, nenhuma concepção pedagógica ou historiográfica que seja explicitada pelos autores. No entanto, é possível notar alguns traços orientadores. A forma predominante de relação proposta entre os alunos e o conhecimento histórico é a de memorização, uma vez que o conteúdo é exposto de modo declaratório e prescritivo. Isso é confirmado no caderno de atividades, em volume separado, constituído por exercícios em que, na maior parte das vezes, o conteúdo do manual deve ser repetido nas respostas dos alunos.

A vasta maioria dos exercícios é recolhida dos exames dos próprios colégios militares brasileiros. Essa opção cria uma situação de aprendizagem que é desfavorável ao pensamento crítico e ao raciocínio histórico, pois os fatos e processos são expostos na condição de verdades sintéticas e não questionáveis. O aluno não terá acesso à noção de que o conhecimento histórico é construído, dotado de historicidade, relacionado a um contexto, e assim por diante. As poucas fontes primárias que são compiladas para a obra não servem para demonstrar a característica histórica do próprio conhecimento histórico. Pelo contrário, funcionam como ilustrações não-problematizadas do texto básico, ou fontes de autoridade para o mesmo. É o caso das diversas citações lapidares de Caxias na parte referente ao Brasil imperial.

Adicionalmente, sobre a estrutura da obra, cumpre indicar que sua linha central é a descrição de acontecimentos da história política tradicional. Esta opção é tão marcada que os acontecimentos e processos que não são classificados na esfera política são tratados em partes separadas do texto, que abordam, também isoladamente, a cultura, a economia e as relações sociais. Assim isoladas as esferas da experiência humana, não se facilita a compreensão de que elas são inter-relacionadas e se influenciam mutuamente; os acontecimentos parecem brotar do acaso, e não da intricada relação entre economia, política, cultura e sociedade.

Uma concepção de conhecimento em que predomina a cronologia, a linearidade e os fatos de ordem política, com espaço limitado e subordinado para os outros campos da vida humana. Para essa configuração historiográfica, a categoria “tradicional” se aplica. No que se refere à atualização historiográfica, a obra se ressente da incorporação de bibliografia recente. Para termos uma ideia disso, basta dizer que as obras referenciadas na bibliografia têm uma idade média de 28 anos entre a edição consultada e 2005, que é o ano da edição do presente livro didático. Além disso, estão ausentes as obras que marcaram a historiografia brasileira nos últimos 20 anos, e que se pronunciam sobre os assuntos enfocados na obra.

Pedagogicamente, as concepções que se pode deduzir a partir do estudo do livro dos alunos indicam, em primeiro lugar, uma patente carência de problematização e reconstrução de saberes. O conjunto do livro do aluno e do caderno de atividades indica uma pobreza profunda de capacidades cognitivas envolvidas. A demanda cognitiva central é memorizar, acompanhada por identificar, relacionar e diferenciar, correlatas àquela. Demandas mais sofisticadas, como argumentar, comparar, criticar, analisar, sintetizar, não estão presentes de modo significativo.

A análise do item “Correção e atualização de conceitos, informações e procedimentos pertinentes ao campo da história” pode ser iniciada com uma discussão sobre a estratégia de tratamento dos conteúdos históricos. Como a concepção é de uma exposição linear e enciclopédica da sequência de conteúdos que compõe o modelo tradicional de história nacional, o problema que se colocou para os autores é de fazer caber tantos assuntos numa obra para alunos do Ensino Fundamental 2. A solução foi resumir ao máximo determinados temas, mas essa tática acaba levando a problemas de compreensão, pois faltam informações mínimas para atribuir significado ao que é narrado.  Pode-se perceber que a obra é prejudicada por uma tática de resumos para explicar fatos e processos de uma lista tradicional de conteúdos, com o que se perde a clareza em diversos pontos. Como exemplo de uma prática constante ao longo do livro, podemos citar a comparação entre o pós-independência no Brasil e nos demais países da América do Sul:

“Na América Latina, as circunstâncias impostas pelo processo histórico quiseram que os sonhos dos grandes libertadores – José Bonifácio de Andrada e Silva, San Martin e Simon Bolívar – se cumprissem segundo o modelo colonizador e a vocação história de suas metrópoles ibéricas, Portugal e Espanha. No entanto, os rumos tomados não confirmaram os anseios de Simon Bolívar, que viu o desmoronar de sua obra, quando o jugo imperial da Espanha foi substituído pelo mando dos “novos déspotas”, os caudilhos.” (p. 58, grifo no original)

Para compreender esse trecho, falta ao leitor saber:

a) quais foram as “circunstâncias impostas pelo processo histórico”

b) quais eram os “sonhos dos grandes libertadores” (que são colocados como equivalentes, apesar das diferenças expressivas, sobretudo entre José Bonifácio e os libertadores hispano-americanos)

c) qual era o “o modelo colonizador e a vocação história de suas metrópoles ibéricas” e como se articulavam com os ideais independentistas.

Na página 189, reconhece-se que a cassação do Partido Comunista Brasileiro em 1947 respondeu a um contexto de Guerra Fria, relativizando a alegação jurídica de que o partido teria sido extinto por ser autoritário. Entretanto, em nenhum outro momento o aluno é informado sobre o que vem a ser essa expressão.

Esta falta de clareza devido à economia excessiva de detalhes (que por sua vez se deve à opção de dar conta de um amplo panorama tradicional de acontecimentos) espalha-se pela obra, tornando inviável a compreensão dos processos históricos. Muitos, incompreensíveis, somam-se à massa de dados que cumpre ao aluno memorizar, sem atribuir significado ou interpretar, ações que ficam em plano secundário.

Além disso, são comuns as excessivas simplificações explicativas e a redução das causas a uma única, não raro de caráter eventual. É o que ocorre, por exemplo, na explicação da renúncia do regente Feijó: ela teria se dado porque o regente não conseguiu organizar um partido para apoiá-lo (p. 19).

Na obra verificam-se diversos juízos de valor, sem argumentação que os sustente ou espaço para visões contrárias. Por exemplo, na p. 19, abaixo de uma definição de pátria por Olavo Bilac (“a paridade dos gostos e costumes, comunidade de línguas, coesão de leis, identidade de condições físicas e morais, com participação nas mesmas lembranças e nas mesmas esperanças), há a frase solta dos autores: “Durante a Primeira República isso nem sempre ocorreu”. Como essa ressalva é feita apenas para a Primeira República, transmite-se a impressão de que em outros momentos aquela noção de pátria teria encontrado pleno acolhimento na realidade nacional.

Como não poderia deixar de ser, a explicação sobre o Golpe de 1964 e a ditadura militar é a maior expressão das características negativas da obra, e não por acaso o trecho que mais chamou a atenção de jornalistas e articulistas pelo seu conteúdo. Queremos demonstrar que o problema não está na opção política da obra, que deveria em tese ser tolerada, mas no fato de que essa opção política conduz a um ensino de história que não somente é de baixa qualidade, mas que beira as raias da desonestidade intelectual para manter uma versão conservadora dos acontecimentos. Omissão de informações, desconhecimento dos estudos acadêmicos aprofundados sobre o assunto, distorção de acontecimentos e processos e explicação por meio dos discursos políticos dos vencedores à época são consequências da estratégia estabelecida.

O primeiro elemento a ser considerado é o nome dado ao movimento, na página 199 Ao assumir a expressão “Revolução de 1964″, a obra adere ao discurso político da época, em vez de referir-se aos estudos históricos e sociológicos que são considerados hoje o estado atual do conhecimento científico sobre o assunto. Para esses estudos, o movimento de derrubada do presidente João Goulart e a instauração de um novo governo em 1964 não constituem uma revolução, mas um golpe de estado. Sob o subtítulo “Revolução de 1964″ ficam subsumidos os mandatos dos presidentes Jânio e Jango, estabelecendo uma estranha periodização em que os últimos governos do período democrático de 1945 a 1964 gravitam em torno do golpe.

A narrativa está envolvida em um tom que lembra teorias da conspiração. Exatamente no momento em que a esquerda começa a se fragmentar, os autores descrevem que ocorria uma orquestração revolucionária por obra do Partido Comunista. Entretanto, a linha do PCB nesses anos era de apoio crítico ao desenvolvimento econômico e a aliança com o que se chamava de “burguesia nacional”. Em parte por conta dessa opção, em 1961 o PCB perdeu militantes para a organização de esquerda “POLOP”, e em 1962 cindiu-se entre PCB e PCdoB. Deste modo é claro que a “orquestração comunista subversiva” corresponde ao discurso político da época, que precisava do fantasma comunista para justificar a quebra da ordem democrática, e não a uma análise fundamentada. Esse sujeito oculto chega a ser nominado como “comando subversivo”, na p. 200, como se existisse uma coordenação mutuamente aceita entre os diversos grupos de esquerda, o que não era real. Ao mesmo tempo, se oculta a estruturação do golpe por meio do complexo IPES/ IBAD, fartamente documentada e discutida, por exemplo, pela obra já clássica de Richard Dreifuss, “1964: a conquista do Estado”, que funcionava como um estruturador de classes sociais dominantes, interesses estrangeiros e lideranças militares em torno de um novo projeto econômico e social que pudesse superar o desenvolvimentismo e o crescimento do poder de negociação das classes trabalhadoras através de seus sindicatos e movimentos. Na mesma página, são claros os juízos de valor na seleção da ilustração única, que é da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e da descrição da mesma como “um espetáculo comovente”.

A parcialidade continua ao descrever a greve dos marinheiros como indisciplina militar, epíteto do qual foram poupados, por exemplo, as revoltas militares tenentistas da década de 1920. O mau hábito do resumo excessivo complica a descrição do período ao afirmar que “uma inusitada reunião política nas dependências do Automóvel Clube do Brasil” agredia nação e significava uma manifestação de indisciplina. Sem a informação de quem participou da reunião e de qual era seu assunto, ao aluno só cabe crer na descrição.

Descreve-se o golpe como o resultado da ação de lideranças democráticas, civis e militares, “grupos moderados e respeitadores da lei e da ordem”. Para além a dúvida sobre como um grupo de respeitadores da lei depõe um presidente legitimamente eleito e referendado também por um plebiscito, trata-se de uma descrição incompleta, pois não dá conta do conjunto de interesses e classes mobilizadas para o golpe, reduzindo-o a um movimento de poucos líderes militares apoiados de perto por alguns civis e de longe pela massa.

Também se descreve o regime de forma lacunar, tanto em suas motivações declaradas (combater a corrupção e a comunização e reorganizar a administração do país) quanto nas consequências efetivas de suas realizações. Por exemplo, o milagre econômico é explicado de modo desvinculado da carestia dos anos 70 e da crise econômica do início dos anos 80, embora sejam processos relacionados. A lacuna mais expressiva, entretanto, é o ciclo de violação dos direitos humanos, tortura, assassinato e desaparecimento de opositores políticos e seus familiares, realizados por setores das forças armadas e associados, ao arrepio inclusive das leis militares. Esse quadro, que seria impossível sem a suspensão de direitos em função do AI-5, é omitido. Omite-se que o recrudescimento da repressão militar chegou mesmo a ameaçar a autoridade do presidente Ernesto Geisel, que se viu na contingência de exonerar o Comandante do 2º Exército, general D’Ávila Mello por ter permitido as mortes de Manuel Fiel Filho e Vladimir Herzog, este nas dependências do exército em São Paulo. Também o tragicamente frustrado atentado terrorista do Riocentro, que estava sendo preparado por militares do exército, é omitido.

Com tantas omissões, fica impossível para o aluno entender que a Anistia também se referia ao perdão dos crimes cometidos por membros das forças armadas e seus associados na repressão aos opositores da ditadura. De um modo geral, todos os atos antidemocráticos da ditadura são explicados como reações à intransigência dos opositores, explicação que nem serve ao caso, pois transigência é possível num estado de relativa simetria entre as forças opostas, o que não está dado em uma ditadura.


[1] O livro é adotado no sistema de escolas militares sob responsabilidade do Exército Brasileiro, através de sua Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial. http://www.depa.ensino.eb.br/pag_projetocmbhistoria.htm.

[2] A ANPUH respondeu a esta carta da COGEAM lamentando e manifestando sua decepção com a postura de indiferença manifestada.

[3] Disponível em http://www.fnde.gov.br/index.php/ph-arquivos/category/12-guias-pnld-2011?download=40%3Apnld2011historia.

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A crise de 1929 e o Brasil

janeiro 3, 2009

Do café à industrialização

Como a crise de 1929 afetou o Brasil e favoreceu a adoção de um modelo econômico centrado na substituição de importações e na intervenção estatal

José Fucs – Revista Época, janeiro de 2009

Fazia quase dois anos que ocorrera o crash na Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929. Mas os estragos provocados pela crise ainda eram sentidos em todo o planeta – e também no Brasil. Em junho de 1931, uma nuvem de fumaça gigantesca, que vinha de uma enorme fogueira, pairava sobre a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, por onde escoava boa parte das exportações do café brasileiro. Acesa durante as festas juninas, a fogueira duraria até o fim do ano – mas tinha pouco a ver com a comemoração de São João. Ela fora iniciada para queimar os estoques de café, então responsável por 70% das exportações brasileiras, que se acumularam com a retração do mercado externo. Enquanto o fogo durou, consumiu milhões de sacas. O aroma do café torrado era tão forte que ultrapassava as fronteiras municipais. Era contido apenas pelas encostas da Serra do Mar, que se estende pela costa paulista. O café era queimado a mando do governo de Getúlio Vargas para tentar reduzir o impacto negativo da crise no Brasil, então responsável por 60% das vendas mundiais do produto. Vargas assumira o poder um ano antes, por meio de um movimento militar que se tornou conhecido como Revolução de 1930. A economia balançava. As exportações, que atingiram US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. Segundo a Bolsa de Café de Santos, a cotação da saca no mercado internacional – 200 mil-réis em agosto de 1929 – caíra quase 90%, para 21 mil-réis, em janeiro de 1930. Nas fazendas cafeicultoras, concentradas no interior paulista e no Paraná, muitos resolveram seguir o mesmo caminho e queimaram o café colhido.

Todos os elos envolvidos na cadeia de produção do café brasileiro – fazendeiros,comerciantes, banqueiros e trabalhadores rurais (a maior parte imigrantes) – foram atingidos pela crise. Muitos produtores foram à bancarrota. O desemprego no campo se multiplicou, estimulando um movimento migratório para as cidades, em especial para São Paulo. Como se veria depois, o que acontecia naquele momento era apenas o início de um profundo processo de mudanças que se prolongaria até o fim dos anos 30, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Essas transformações marcariam para sempre a economia nacional e internacional. Dos escombros da economia do café, surgiria um novo modelo econômico, que se manteria praticamente o mesmo até quase os dias de hoje. Em 2009, o crash de 29 completará 80 anos coincidentemente, no momento em que parece haver uma crise global de proporções comparáveis, com desaceleração na atividade econômica e alta no desemprego. Embora os contextos das duas crises sejam bem diferentes, a história da crise de 29, em particular seus desdobramentos no Brasil, pode trazer lições preciosas sobre as medidas que ainda fazem sentido – e as que não fazem – para reduzir o impacto do encolhimento global no país.

Naquela época, o Brasil passou por um grave problema cambial. De acordo com o historiador Caio Prado Júnior (1907-1990), autor de História econômica do Brasil, publicado pela primeira vez em 1945, a queda nas exportações, provocada pela crise, gerou um desequilíbrio na balança comercial brasileira. Sem uma indústria sólida, o Brasil exportava apenas café e outros produtos agrícolas, como algodão, cacau e borracha. Como não eram produtos essenciais para o consumidor – portanto, suas compras poderiam ser interrompidas a qualquer hora -, dizia-se que o país tinha uma “economia de sobremesa”. A moeda forte obtida com essas exportações servia para pagar as importações de boa parte dos produtos industrializados consumidos pelos brasileiros. O aprofundamento da crise, porém, provocou a redução da demanda externa e a queda dos preços internacionais do café. Com isso, o déficit comercial do país cresceu rapidamente.

A crise também causou a interrupção do fluxo regular de capital estrangeiro para o Brasil. O dinheiro externo alimentava a economia brasileira desde os tempos do Império, e seu ingresso se intensificara entre a Proclamação da República, em 1889, e a posse de Vargas, em 1930 – período da história conhecido como República Velha. A falta do dinheiro externo agravou ainda mais o déficit cambial brasileiro. A moeda nacional se desvalorizava rapidamente. O valor da libra esterlina, então a moeda mais usada no mundo, passou de 40 mil-réis, em 1929, para quase 60 mil-réis, em 1934. Com as exportações em queda e sem financiamento externo, o governo aumentou de forma brutal a emissão de moeda – e isso provocou alta da inflação.

Para preservar as poucas reservas em moeda forte que o Brasil tinha em caixa, o governo Vargas impôs um rígido controle sobre o câmbio e passou a administrar com rigor as remessas de lucro por empresas estrangeiras. Faltava moeda forte para pagar as importações, essenciais ao atendimento da demanda interna e ao desenvolvimento do país. Houve uma acentuada queda na compra de produtos do exterior, também desestimulada pela desvalorização da moeda brasileira. As importações, que registraram uma média de 5,4 milhões de toneladas de 1926 a 1930, caíram para 3,8 milhões entre 1931 e 1935, segundo Prado Júnior. Na tentativa desesperada de compensar os cafeicultores, o governo Vargas aumentou as compras dos excedentes de café durante praticamente toda a década de 30, segundo afirma o brasilianista Thomas Skidmore, no clássico Brasil: de Getúlio a Castelo, lançado em 1975. Para Skidmore, mesmo com os esforços do governo e a adoção de uma política de “socialização dos prejuízos” dos cafeicultores, era impossível deter o declínio das receitas cambiais brasileiras. (Só recentemente, pela primeira vez na História, o país conseguiu superar o problema crônico de falta de divisas, com a explosão das exportações brasileiras e o acúmulo de US$ 200 bilhões em reservas cambiais.) Nem a queima dos excedentes de café foi suficiente para amenizar o problema. Skidmore afirma que, apesar da queda nas importações, o déficit nas contas externas se aprofundou ainda mais e obrigou o Brasil a suspender os pagamentos da dívida externa em 1938 e 1939. Tal medida voltaria a ser adotada em 1987, meio século depois, nos tempos do Plano Cruzado, implementado no governo do presidente José Sarney. Apesar do impacto que a crise de 29 teve na economia brasileira, muitos acadêmicos acreditam que não foi ela o fator fundamental para deflagrar o movimento armado que depôs o presidente Washington Luiz, em 1930. O historiador Boris Fausto, autor de Revolução de30-a historiografia e a história, afirma que a crise teve “pouco efeito” nos primeiros meses daquele ano no Brasil. Segundo ele, os principais fatores que conduziram à Revolução de 30 tinham relação com a política interna. Principalmente com a ruptura do acordo do “café com leite”, uma espécie de pacto informal entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais para se revezar na Presidência. Na visão de Fausto, a crise foi provocada pela insistência de Washington Luiz em lançar um candidato paulista para sua.sucessão nas eleições de março de 1930.

Fausto diz que a derrota de Vargas, o candidato oposicionista apoiado por Minas Gerais, gerou descontentamento em setores da sociedade. Logo em seguida, com o assassinato de João Pessoa, o oposicionista que governava a Paraíba, o clima desfavorável se acentuou. Acusava-se o governo federal de ter patrocinado o crime por motivação política. Hoje, sabe-se que o assassinato de Pessoa foi um crime passional, que nada tinha a ver com política. Mas o episódio serviu como combustível para os “revolucionários” conduzirem Vargas ao poder. “O grande impacto da crise no país viria depois da Revolução de 30″, afirma Fausto.

A economia cafeeira já perdia forças desde antes da crise. Com a ampliação da área de plantio e a superprodução constante, os preços do café estavam em queda há anos. O governo tentava manter a roda girando com a compra dos excedentes – uma estratégia criticada asperamente pelos seguidores da política liberal do “laissez-faire” na economia. Para eles, a tentativa de manipular o preço do café teria efeito efêmero e seria contraproducente no longo prazo. O governo, no entanto, não dava ouvidos à oposição. “Era uma situação paradoxal: o Brasil exportava produtos primários e importava produtos manufaturados, como sugeriam os princípios do liberalismo econômico”, diz o brasilianista Skidmqre. “Mas tentava, também, aumentar ao máximo sua vantagem relativa por meio de controles de mercado e da intervenção estatal num setor vital da economia.”

Como se tudo isso não fosse suficiente, crescia a concorrência internacional – em particular da Colômbia – ao café brasileiro. Os principais países consumidores, como Estados Unidos, Franca, Itália, Holanda e Alemanha, que compravam 80% da produção brasileira, passaram a diversificar seus fornecedores. Havia a percepção de que, no Brasil, misturavam-se ao café todos os tipos de impurezas, como pedras, terra e gravetos, para aumentar o peso das sacas. Também se acusavam os produtores nacionais de incluir café de baixa qualidade nas sacas para aumentar o lucro. Quando a crise internacional chegou ao Brasil, ela representou apenas o golpe final para que o sistema econômico da República Velha, centrado na monocultura do café, entrasse em colapso.

A estratégia do governo Vargas para enfrentar a crise baseou-se principalmente na substituição das importações, por meio do desenvolvimento da indústria local, e na intervenção do Estado na economia. De acordo com o economista Celso Furtado (1920-2004), ex-ministro do Planejamento no governo João Goulart (1962-1964), a economia cafeeira, embora em decadência, gerou os recursos necessários para impulsionar a industrialização e favoreceu o desenvolvimento de um mercado interno, formado pela mão de obra assalariada dos imigrantes e pelos produtores rurais e suas famílias.

Inicialmente, a demanda era atendida pelas importações. Depois, passou a ser suprida pela produção local. Sem acesso aos importados, os consumidores representavam um mercado cativo para as empresas nacionais. Assim, apesar da crise externa, a produção industrial brasileira pôde crescer rapidamente. Acentuou-se o processo de nacionalização da economia. A desvalorização da moeda, em decorrência da crise, encarecia as mercadorias estrangeiras e representava um estímulo para a incipiente industria local. Muitos cafeicultores que conseguiram sobreviver à crise começaram a investir no setor industrial. A política econômica de Vargas foi reforçada por dois fatores externos. O primeiro foi o “New Deal”, um pacote de medidas para reativar a economia americana lançado em 1933 pelo presidente Franklin Delano Roosevelt O segundo foram as teorias do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), delineadas em seu livro Teoria geral do emprego, do juro e da moeda-, publicado em 1936. Tanto Roosevelt quanto Keynes defendiam a atuação do Estado para estimular a atividade econômica. Keynes, de certa fornia, deu legitimidade conceituai à política implementada por Vargas. No Brasil, um dos principais entusiastas das idéias de Roosevelt e Keynes foi o engenheiro e empresário Roberto Simonsen (1889-1948), senador e presidente da Fiesp, entidade que reúne os industriais paulistas.

Simonsen defendia o fortalecimento do Estado para permitir a industrialização brasileira. Apesar de ter se oposto a Vargas no início do governo, acabou se aliando a ele. Amparado nas idéias de Keynes e Roosevelt, temperadas por seu nacionalismo peculiar, Vargas promoveu a criação em série de empresas estatais. Entre elas, fundou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), privatizada em 1993, e a Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997. Em seu  segundo  mandato, Vargas voltou a investir na criação de estatais. Em 1953, foi a vez de fundar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), depois rebatizado de BNDES, com “S”, para incorporar a palavra “social” no nome. No mesmo ano, foi criada a Petrobras, depois da campanha popularizada pelo slogan O petróleo é nosso. A política econômica de Vargas criou raízes profundas no Brasil. Manteve-se viva mesmo durante o governo militar, que assumiu o poder após o golpe de 1964. Ao contrário dos militares chilenos, que derrubaram o governo socialista do presidente Salvador Allende em 1973, o regime militar que se instaurou no Brasil não apostou no liberalismo econômico para estimular o desenvolvimento. Ao contrário, acabou por reforçar a tendência estatizante e nacionalista que vigorava no país antes de os militares assumirem o poder. Durante o regime militar, foram criadas diversas outras estatais, entre elas a Telebrás (1972), privatizada em 1998, e a Nuclebrás (1975), que continua sob o controle do Estado.

Hoje, como beneficio da perspectiva histórica, pode-se dizer que o protecionismo e o estatismo adotados por Vargas para combater os efeitos da crise de 29 favoreceram o desenvolvimento de um parque industrial pujante no Brasil. Mas também geraram tremendas distorções, como a ineficiência das empresas, o encarecimento dos produtos por falta de concorrência internacional e o desestímulo à inovação. A estatização e o protecionismo tendem a estimular também o descontrole das contas públicas, a corrupção, o empreguismo e o tráfico de influência.

A criação de um clima hostil ao capital estrangeiro também não ajuda o país a se desenvolver. Atualmente, até a China, que se isolou do resto do mundo durante 30 anos, sob o comando de Mao Tsé-tung, tem uma economia aberta. Desde 1978, quando as reformas econômicas abriram o país, a China cresce a taxas de 10% ao ano. O Chile também se tornou um exemplo admirado globalmente e deve se tornar o primeiro país latino-americano a ingressar no Primeiro Mundo, graças, sobretudo, à persistência de políticas econômicas liberais ao longo de 35 anos. A economia brasileira tem um tamanho intermediário entre a chilena e a chinesa e, com certeza, tem lições a extrair de ambas. O modelo econômico adotado por Vargas para combater os efeitos da crise de 1929 pode até ter trazido bons resultados em sua época. Mas, hoje, no mundo globalizado em que vivemos, suas idéias – baseadas no intervencionismo e no nacionalismo paternalista – parecem pertencer ao tempo das diligências.

Leia Também:

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Pior que 1929?

outubro 4, 2008

Por Edward Chancellor
Revista Época Ed. 542
Outubro de 2008 

 

O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira

O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira

Todo mundo reconhece, a esta altura dos acontecimentos, que estamos vivendo uma crise muito séria. Embora o mercado possa subir por estes dias, ele sofreu uma das maiores quedas da História. Com exceção de 1987, um crash técnico, as quatro outras quedas equivalentes à da segunda-feira passada ocorreram durante a Grande Depressão. Está claro, para mim, que o paralelo entre a crise de 1929 e a crise atual é muito mais realista do que parecia meses atrás. Trata-se, a esta altura, de uma crise global, que não atinge apenas os Estados Unidos e as grandes economias. De uma forma ou de outra, quase todos os países se envolveram na bolha de crédito. Agora todos são afetados.

Temos um problema pior que aquele que ocorreu em 1929. Há um mercado de dezenas de trilhões de dólares de débitos em atraso, há trilhões em derivativos (o que é isso? Clique aqui e saiba!) no balanço dos bancos e há uma conexão extremamente complexa entre as diferentes economias. Na década de 30, os bancos quebravam com uma proporção de 10 para 1 entre créditos e ativos. Agora, os bancos de investimento operaram com uma proporção de 1 para 40. As autoridades estão se movendo mais rápido, mas os problemas são bem maiores.

Não sei muito sobre o Brasil, mas o país obviamente se beneficiou da elevação dos preços das commodities (o que é isso? Clique aqui e saiba!) e do boom das exportações. Sei que a moeda brasileira se valorizou e que vocês oferecem altas taxas de juros. Isso atraiu grande quantidade de capital especulativo. Acredito que vocês tenham tido condições de crédito favoráveis nos últimos anos. Mas isso vai mudar. Não consigo imaginar um único país do mundo em que as coisas não tenham acontecido mais ou menos desse jeito. O boom foi global.

Nos últimos meses, tenho olhado para fora dos Estados Unidos e, em toda parte, parece que houve uma orgia de crédito. Por isso, não vejo saída rápida para a crise. Os Estados Unidos estão mais avançados no processo. Os preços das casas caíram 20%, e eles não têm de cair muito mais para voltar à realidade. As ações também já caíram bastante, em particular as ações dos bancos. Não acho que os problemas americanos acabaram, mas, nos próximos meses ou anos, certas partes da Europa assumirão o papel central da crise.

A China é outra história. Ela também é parte da bolha de crédito. As exportações para os Estados Unidos foram feitas em troca da compra de títulos da dívida americana. Esses papéis, depositados no Banco Central da China, deram origem a um boom de crédito na economia chinesa. Haverá agora um grande problema bancário na China, proporcionalmente maior que nos EUA. As autoridades chinesas tentarão se sentar sobre o problema. Mas ele não vai desaparecer. Veremos isso no próximo ano ou no outro, embora seja difícil falar em prazos.

Outra coisa que eu acho problemática é a natureza e a complexidade da inovação financeira. Em conseqüência dela, não sei mais se estamos vivendo um pânico temporário (que já vimos no passado recente, e depois dele o mercado volta a seu estado anterior, fazendo tudo do mesmo jeito) ou se as coisas que fizemos nos últimos 20 anos vão simplesmente acabar. A pergunta é se o mundo vai poder tomar tanto dinheiro emprestado como costumava fazer ou se, de agora em diante, a economia global terá de operar desalavancada. Os próximos dois anos serão problemáticos.

Leia também: A crise de 1929 e John Maynard Keynes, o “médico” do capitalismo

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AS “CAVEIRAS E OSSOS” DA POLÍTICA DOS ESTADOS UNIDOS

outubro 2, 2008

Por Paulo Alexandre Filho
Texto originalmente publicado no site Duplipensar em 2005. 

 

O CÓDIGO E A ACADEMIA DO PODER

Sede da ordem Skull and Bones

Sede da ordem Skull and Bones

Em New Haven, cidade estadunidense localizada no estado de Connecticut, funciona um dos mais respeitáveis centros universitários do mundo, a famosa Yale University. Instituições de ensino como Yale tradicionalmente respondem pela formação universitária da elite dos EUA e não há de ser estranho para ninguém a evidência de que muitos dos egressos da universidade acabem constituindo-se como notáveis figurões das ciências, da política ou também das artes de fazer dinheiro, afinal, além da altíssima e qualificada formação obtida, um diploma emitido por Yale confere status, respeitabilidade e até poder ao seu felizardo contemplado. Além de suas qualidades acadêmicas, em Yale ronda um mistério em torno de uma enigmática instituição estudantil. A irmandade acadêmica Skull and Bones é mais que um grupo de afiliação estudantil, trata-se de uma verdadeira ordem secreta cuja atuação suscita especulações das mais diversas e alimenta uma mística que vai muito além do campus, atingindo patamares tão amplos quanto insólitos a exemplo das maquinações pela ação do governo dos EUA sobre o Golfo Pérsico. O fato é que os integrantes efetivos e afetivos da Skull & Bones, os bonesmen, atuam de maneira a alimentar a mística e a preocupar os especuladores e propagadores das teorias de conspiração.

Impresso contendo lista dos membros da Ordem, incluindo o nome de Prescott Bush, pai e avô de dois presidentes dos EUA.

Impresso contendo lista dos membros da Ordem, incluindo o nome de Prescott Bush, pai e avô de dois presidentes dos EUA.

A Skull & Bones é um bastião da elite estadunidense, reduto da tradição cultural e política da fração protestante branca e anglo-saxã (a velha identificação conhecida formalmente nos EUA como WASP – White Anglo Saxon Protestant). Sua reputação é muito mais significativa que das demais agremiações secretas que funcionam em Yale (Scroll & Key, Book & Snake, Wolf’s Head, Eliahu e Berzelius), todas, contudo, seletas ordens elitistas que recrutam para os seus quadros os indivíduos mais promissores da universidade. Em termos competitivos, provavelmente, a única entidade de Yale capaz de impor uma concorrência à Skull & Bones é a Scroll & Key, e, em termos atuais, ambas possuem, respectivamente, identificações predominantes ao Partido Republicano e ao Partido Democrata, reproduzindo a polarização entre conservadores e liberais. Harvard e Princeton, que formam juntamente com Yale o grupo de elite das instituições superiores dos EUA, também possuem suas influentes ordens secretas, contudo, nenhuma delas possui tamanha atuação efetiva pelos subterrâneos e superfície da política estadunidense. 

Desde sua fundação, em função da alta seletividade da Skull & Bones, que recruta anualmente apenas 15 membros, cerca de 2.500 bonesmen tiveram o privilégio de ostentar tal identificação e hoje em dia há em torno de 600 deles vivos, mas em geral ocupando importantes posições. Tradicionalmente não eram admitidos na ordem membros que não preenchessem os requisitos elementares prescritos pela composição daquilo que se compreende como critérios para a identificação da classificação social elitista da facção WASP da sociedade estadunidense, mas os ventos liberais e a política da inclusão forçaram a admissão de judeus, negros e também de descendentes de estrangeiros bárbaros, afinal, já há bonesmen de ascendência chinesa. Este é um sinal de modernidade que é enriquecido pela mais recente iniciativa de admitir a afiliação de homossexuais. Mas, apesar destas concessões liberais, a Skull & Bones mantém critérios seletivos quanto ao universo de candidatos a prováveis irmãos de ordem. Um requisito inicial é a própria educação secundária, pois há preferência por candidatos egressos de tradicionais e prestigiosas High Schools que atendem exatamente a jovens abastados. Além do mais, a seleção leva em consideração a vivência aventureira do candidato. Pretendentes que já ousaram a enfrentar selvas africanas, intempéries sul-americanas, desertos e riscos eminentes no Oriente conquistam valiosos pontos nesta fase de pretensão à filiação. Os candidatos são criteriosa e severamente avaliados pelos membros sênior da ordem e submetidos a testes e entrevistas que buscam aferir as potencialidades e capacidade integrativa dos candidatos ao corolário e ideário da Skull & Bones. 

Especula-se que a Skull & Bones inspira-se na tradição maçônica européia (altamente influente no Brasil do Século XIX). Sua cerimônia de iniciação é marcada por uma simbologia mórbida, mas curiosa. Os iniciantes, despidos, deitam-se num caixão que é carregada pelo salão da sede da irmandade. Eles reverenciam a insígnia da ordem (um crânio sobre dois ossos cruzados acima da inscrição “322”, alusiva ao ano de 322 a.C., ano em que a deusa Eulogia apareceu no céu após a morte de um orador grego. A crença diz que ela retornaria em 1832) e depois saem do ataúde mortuário como sinal de que estão marcando seu renascimento para um novo mundo iluminado, guardando, cada um, em um local específico, um osso entalhado com o nome dos novos iniciados. O ato cerimonial de iniciação é cercado por gestos e atos simbólicos que inspiram controvérsias e polêmicas – dizem que o velho Prescot Bush, pai do ex-presidente George Bush e avô do atual presidente dos EUA, George W. Bush, todos eles bonesmen, usurpou o túmulo do legendário herói indígena Jerônimo para roubar seus ossos, que teriam servido para um dos rituais da ordem secreta. Dizem mais que as controvertidas histórias sobre os rituais da ordem são também alimentadas pelos próprios integrantes do grupo para manter o mistério a respeito das atividades ritualísticas desenvolvidas na cripta da Skull & Bones no campus de Yale. 

Rituais à parte, o fato é que os bonesmen assumem o compromisso de seguir determinados princípios como a dedicação ao engrandecimento da nação conforme o receituário prescrito pelo treinamento ideológico prestado pela ordem. Mas eles lançam mão de certos artifícios retórico-discursivos nos quais são instruídos e hábeis para exercer suas atribuições segundo os ideais da Skull & Bones. É este o caso do emprego deliberado da discrição quase enigmática quanto a exposição de seus intentos e a ambigüidade normalmente presente nas peças retóricas expressas pelos irmãos de Yale. Mas engana-se quem imaginar que estas características retóricas são defeitos no processo de construção e apresentação dos pensamentos e atos elaborados por estes hábeis praticantes, pois os bonesmen são habituados a praticar seus métodos de discrição e ambigüidade como instrumentos de exercício do controle e domínio (fundamento que chamam de “wielding”). Aquilo que um bonesmen fala é marcado por noções subliminares que normalmente não ficam claras para um interlocutor desavisado.

O processo didático da construção de um bonesmen é sutil e decisivo. Nos tempos de academia, um bom integrante da Skull & Bones precisa exercer atividades desportivas com finalidades relativas ao exercício das habilidades de liderança, pois um bonesmen é, antes de tudo, um líder. Não há de se estranhar que dois dos esportes populares nos EUA, o baseball e a sua versão de futebol inspirada no rugby inglês são experimentos desportivos engendrados por bonesmen. Em esportes coletivos o processo de aprendizagem das competências dos irmãos de Yale é bastante exercido. O bonesmen Gorge Bush pai, embora não tenha sido um habilidoso jogador de baseball, foi capitão da equipe universitária de Yale. Guiar equipes e comandar vitórias é uma habilidade comum aos esportes coletivos, mas também é uma capacidade fundamental em uma espécie mais drástica de competição: a guerra. Nos ensinamentos difundidos no processo de formação da Skull & Bones admite-se que embora as idéias tenham a capacidade de transformar verdadeiramente a história, quase sempre a guerra acaba sendo empregada para realizar este fim. 

Jovens membros da ordem

Jovens membros da ordem

A Skull & Bones difunde um código de postura, conduta e filosofia que bem representam o senso puramente WASP do segmento elitista dos EUA. Mas este código não é universal, ao contrário, é segmentado exatamente porque é elitista. Quando comparamos códigos, o que vemos na Skull & Bones é bem distinto daquilo que se percebe, por exemplo, nas normas de conduta do código samurai do Bushido japonês, que valoriza a honra entre os guerreiros contendedores e preconizou uma visão eminentemente ética e moral do mundo. O código Skull & Bones preconiza a noção de que aquilo que não representa é algo simplesmente inferior, isto é, a própria relação à excludente identificação do segmento da elite que representa (uma elite dentro da identificação WASP) por si já determina a diferença entre os dois códigos.

A visão Skull & Bones na política estadunidense é de notável influência, já que muitos de seus integrantes tomaram parte da vida pública do país desde os idos dos fins do século XIX. Esta visão típica dos bonesmen sobre a condução dos EUA não é assunto que deixe de merecer ser notado, sobretudo, quando mais um de seus pares ocupa a presidência do país, após uma reeleição disputada contra um adversário que também ostenta a condição de irmão da ordem de Yale (assim como Goerge W. Bush, o democrata John Kerry também foi forjado nas fileiras da Skull & Bones). 
 

O MESTRE

O mestre Stimson

O mestre Stimson

George W. Bush é membro da Skull & Bones assim como seu pai, que também governou os EUA e meteu o país numa onerosa guerra no Golfo Pérsico. Bonesmen são tradicionais na família Bush, pois seu avô e um outro tio paterno também passaram pelo ritual de renascimento celebrado em Yale, logo, há de se perceber que a lógica que norteia as ações de Bush tem influências que partem de seu berço de constituição de valores – a própria família. O jovem George Walker Bush, portanto, já possuía um promissor retrospecto para integrar a entidade em cujas fileiras já militaram outros de seus entes relativos, isso além de ser um autêntico representante da ordem encarnada na noção de WASP. 

A tradição da ordem Skull & Bones na Casa Branca não é recente. A ação política dos bonesmen manifestou-se de maneira a influir na adoção de caminhos que se coadunavam com o espírito e o código da Skull & Bones. O presidente William McKinley sofrera pressões da ordem em função de sua tímida postura de política externa. Sob pressão dos iluminados homens de Yale, seu governo decidiu adotar uma postura mais ofensiva frente às nações “inferiores” e, em 1898, agiu sobre Cuba, inaugurando uma já tradicional relação de amor e ódio entre as duas nações. Estava marcada assim uma fase expansionista sobre nações estrangeiras. Com a guerra contra os latino-americanos hispânicos a relação da Skull & Bones com o Partido Republicano teve também seu início. Na convenção republicana de 1900, os bonesmen ascenderam ao controle do partido e impuseram a McKinley a aceitação de Theodore Roosevelt como seu vice-presidente no pleito nacional que se aproximava. Em 1901 McKinley foi assassinado durante uma viagem pelo estado de Nova York e Teddy Roosevelt foi então conduzido ao governo dos EUA como primeiro bonesman a governar o país. Seu sucessor, William Howard Taft, também era seu irmão da Skull & Bones.

Uma grande referência política dentre os bonesmen foi o ideólogo e conselheiro Henry Lewis Stimson, cuja atuação e influência lhe valeram o título de “mestre bonesman”. Dizem que durante o processo de tomada de decisão pela invasão ao Iraque, em 1991, Bush I dedicou-se, na tranqüilidade do Camp David, a reler uma biografia de seu ídolo bonesman e enquanto seu conselho de analistas deliberava sobre a forma de ação contra o Iraque por ocasião da crise do golfo, quando o Kwait foi invadido por ordem de Saddan Hussein, o presidente já possuía uma posição formada e favorável ao ataque. Os ensinamentos de Stimson foram valiosos para esta decisão. 

Stimson ingressou na Skull & Bones em 1888 e prestou seus serviços a sete dos ocupantes da Casa Branca: Theodore Roosevelt, William Howard Taft, Woodrow Wilson, Calvin Coolidge, Herbert Hoover, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, cumprindo uma sólida carreira de articulador, consultor e integrante do staff governamental estadunidense. Em seu legado de atuação está a supervisão do Projeto Manhattan, cujo resultado foi o desenvolvimento tecnológico e estratégico das bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki no final da Segunda Guerra Mundial. Anos antes, quando ocupava a Secretaria de Estado no governo Hoover (1929-1933), atuou nas articulações que impuseram a redução das forças ofensivas da Marinha Imperial Japonesa durante a Conferência Naval de Londres. Foi um dos arquitetos dos provocativos planos de restrições ao Japão que acabaram por influenciar o ataque que as tropas nipônicas fizeram contra a base estadunidense em Pearl Harbor, situação que provocou o ingresso dos EUA na guerra. Contanto pontos em seu currículo de serviços prestados, constam sua decisiva participação no desenvolvimento da idéia da criação dos campos de aprisionamento de japoneses e nisseis em território estadunidense durante o governo de Franklin Roosevelt, além de ter desenvolvido um plano, felizmente não executado, de bombardeio a Kyoto, um dos principais e tradicionais centros urbanos japoneses, como ultimato ao Japão pela rendição. Uma cartada de mestre atribuída a Stimson foi a decisão de preservar o trono do império japonês sob Hiroito, que não fora deposto por uma decisão estratégica que viabilizaria maiores condições de influência dos EUA nos planos de reconstrução e realinhamento do Japão no pós-guerra. Além de arquitetar o projeto de trilha a ser seguida pelo Japão derrotado, Stimson também teve forte atuação nos bastidores do plano de ocupação, reestruturação e ordenamento da Alemanha. A notável experiência de Stimson e sua visão utilitária do emprego da influência política e poderio militar dos EUA serviram como inspiração para Bush I, que decidiu levar a lição de seu mestre como ensinamento prático para sua decisão pela guerra contra o Iraque.

Diferentemente de seu discípulo presidencial, Stimson não provinha de um clã de bonesmen, ele ascendeu à ordem por “merecimento” e pelo reconhecimento de suas habilidades naturais e talento indiscutível pela atuação política pela grandiosidade dos EUA. Ele costumava creditar à Skull & Bones uma grande importância em sua formação e conforme seu biógrafo Geoffrey Hodgson, os tempos de vivência e aprendizado na entidade corresponderam “a experiência educacional a mais importante em sua vida”. Stimson foi admitido como bonesman mesmo sem ter origem rica, embora seus antepassados tenham sido alguns dos pioneiros puritanos na colonização dos EUA, ainda assim ele era um autêntico WASP. Em Yale seu espírito competitivo era uma de suas marcas a tal ponto que afirmava que “a idéia de um esforço para prêmios, foi sempre um dos elementos fundamentais de minha mente e eu mal posso conceber o que seria de meus sentimentos se eu fosse posto sempre em uma posição ou em uma situação na vida onde não houvesse nenhum prêmio pelo qual me esforçar”. Este espírito competitivo foi praticado também no extremo: já em uma idade amadurecida, aos 44 anos, Stimson aderiu ao Exército e tornou-se combatente na Primeira Guerra Mundial mesmo que já tenha acumulado experiência em sua vida na advocacia e no mundo da política em Washington e ganhou sua fama com o apelido sugestivo de “O Coronel”. O político e arquiteto de guerras experimentou a vida de combatente nas forças expedicionárias estadunidenses na Europa. 

No período que antecedeu a Segunda Guerra Stimson comandava um batalhão próprio de bonesmen em Washington em seu Departamento de Guerra. O grupo chamado de “Jardim da Infância de Stimson” era composto pelo alto staff dos arquitetos da participação dos EUA na guerra O grupo era formado por personalidades como John McKoy, secretário-assistente de Estado e posteriormente comissário dos EUA na Alemanha pós-guerra, Robert Lovett era o assistente imediato de Stimson, com quem aprendeu a atuar nos bastidores da política até tornar-se um dos principais e influentes assessores de John Kennedy, Harvey Bundy, outro de seus assessores de primeira linha, era um bonesman fiel ao seu líder e juntara ao grupo dois de seus filhos, McGeorge e William Bundy, também bonesmen, à equipe de assessores e coordenadores de guerra sob o comando de Stimson. O “Jardim de Infância” também era integrado por Dean Acheson, também um de seus preferenciais assistente e futuro conselheiro e Secretário de Estado no governo Truman (Acheson não era bonesman, mas era membro de outra fraternidade secreta de Yale – Skroll & Key) e contava ainda o grupo com a participação do general George Marshall, chefe de comando do Exército durante a Segunda Guerra e também futuro Secretário de Estado de Truman. Este grupo de ideólogos da atuação estadunidense na guerra teve seu núcleo conhecido como “Círculo Stimson-Marshall- Achelson” e seus integrantes eram figuras-chave do staff político durante a guerra e também no processo de implementação dos planos de reconstrução e alinhamento do pós-guerra como iniciadores das estratégias de isolamento do bloco soviético, sendo então pioneiros na estratégia de implantação da Guerra Fria, incluindo o processo fomentador da intromissão militar estadunidense na Coréia.

Stimson morreu em 1950, contudo, sem conseguir levar adiante a influência de seu grupo sobre a condução política da Casa Branca e seus discípulos do “Jardim de Infância” foram aos poucos tendo sua influência declinada. Já em 1947, com a Lei de Segurança Nacional, o Departamento de Guerra fora reestruturado como Departamento de Defesa, constituído por uma burocracia civil que viria posteriormente a abrigar muitos membros da Skull & Bones e Robert Lovett, por exemplo, viria a assumir o comando do Departamento em 1950. A lei de 1947 também criou a CIA (Central Intelligence Agency) como organismo que sucederia o núcleo de estratégia (OSS – Office os Strategic Service) que vigorava durante o período da guerra e posteriormente as atribuições do grupo de coordenação política que também funcionava sob o comando de Stimson passaram a ser exercidas pela CIA. A Agência de Segurança Nacional (NSA) também foi criada neste período subordinada também ao Departamento de Defesa, ampliando o espectro da rede de controle e investigação do Estado. Estas agências tornaram-se redutos de atuação de bonesmen ao ponto em que a imagem da CIA e da Skull & Bones passaram a ser freqüentemente associadas uma a outra.

A forte influência dos bonesmen na estrutura da CIA é apontada como um dos legados de Henry Stimson, pois o OSS, organismo antecessor da CIA, fora inicialmente constituído por quadros técnicos e funcionais forjado na Skull & Bones e esta relação entre os “iluminados” de Yale e o serviço secreto institucional permaneceu ativa. 

 

PRESIDENTES DA ORDEM

Durante a presidência de John Fitzgerald Kennedy (a quem o historiador britânico Eric Hobsbawm qualifica como “o presidente mais superestimado dos EUA”), os irmãos de Yale desfrutavam de grande prestígio e influência. Diversos e experimentados bonesmen que integravam os mais próximos escalões da administração JFK constituíam também um grupo que adotou uma obcecada vontade de investir militarmente sobre o longínquo Vietnã. Era uma postura que contava com o desacordo da profética advertência do general Douglas MacArthur, conselheiro militar de JFK, que repetia a quem quisesse ouvir que era um erro o envolvimento dos EUA em uma guerra na Ásia. As conversas reservadas com MacArthur fizeram com que Kennedy tivesse sérias dúvidas a respeito de uma ação militar nas selvas chuvosas do país de Ho Chi Min, fato que o levou a protelar qualquer decisão a esse respeito. Sua morte, contudo, abriu caminho para que os intentos pela guerra fossem por fim executados por Lindon Johnson que fora o sucessor de JFK e, como muitos dos presidentes dos EUA, também teve nos arredores do Salão Oval uma forte participação de assessores da Skull & Bones. 

De uma maneira geral, contudo, os bonesmen andavam divididos em relação à guerra. Dentre os descontentes estava McGeorge Bundy, que deixara o governo Johnson, passando a apoiar e financiar o movimento anti-guerra através dos fundos da Fundação Ford, entidade que então passou a presidir. Bundy, que integrou o “Jardim de Infância” de Henry Stimson, acabou tomando parte de uma ala de bonesmen a posicionar-se critica e combativamente contra a guerra do Vietnã, enquanto um outro segmento da irmandade mantinha-se aliado à noção de que a guerra deveria ser travada até o fim – embora o “fim” da guerra não tenha sido aquele que idealizavam. O tempo da geração de bonesmen formada ao redor de Stimson havia chegado ao fim quando Richard Nixon ascendeu ao poder e consagrou a eminência-parda encarnada na figura de Henry Kissinger em cuja atuação manteve uma barreira à influência da Skull & Bones dentro da Casa Branca. Ainda assim, há quem impute aos bonesmen, sempre atuantes nas instâncias da CIA, uma grande participação no processo de derrubada do Nixon através do escândalo de Watergate. 

Gerald Ford assumiu a presidência após a derrocada de Nixon em 1974 e os bonesmen passaram a ensaiar o seu retorno. Kissinger e seus aliados começaram a perder espaço. James Schlesinger foi substituído por Donald Rumsfeld como Secretário de Defesa e William Colby, diretor da CIA, perdeu seu cargo para George Bush. Os bonesmen estavam mesmo tentando recompor suas tradicionais posições na Casa Branca, mas a eleição de Jimmy Carter, em 1976, impôs uma frustrante interrupção em seus planos. O retorno teve que esperar e ser procedido de forma lenta e gradual. Bush retornou às raias do governo como suplente presidencial do canastrão Ronald Reagan entre 1980 e 1984 e então articulou sua própria ascensão ao cargo de maior importância política do mundo. Juntamente com ele, a Skull & Bones retornou à Casa Branca de maneira tão confortável quanto nos tempos de Stimson. 

Durante o governo de Bush I a velha Skull & Bones recompôs suas posições e executou um de seus principais passatempos – a guerra. Especula-se que a tática empregada na motivação da invasão ao Iraque em 1990 teve relação de semelhança ao que se dera na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial quando o Japão, segundo os analistas-especuladores, foi praticamente colocado na posição de ter que atacar os americanos em Pearl Harbor. O estratagema empregado foi lançar uma isca a ser fisgada pela presa. No caso da Guerra do Golfo a isca teria sido o Kwait, mas o propósito da guerra teria sido muito mais abrangente do que a simples defesa do país atacado pelo Iraque. Levou-se em consideração o domínio da região produtora de petróleo no Golfo Pérsico e também o controle dos preços desta preciosidade subterrânea no mercado internacional. 

Nem tudo estava tão perfeito assim para os belicosos bonesmen de Bush I, afinal, democrata Bill Clinton sobrepujou o então candidato à re-eleição e impôs um novo intervalo na relação da Skull & Bones com a Casa Branca. O governo Clinton caiu em desgraça por razões não-políticas. Clinton, sua incansável libido e apreço por sexo com estagiárias escandalosas acabaram contribuindo para que os bonesmen encontrassem mais uma oportunidade de retornar ao poder. Os democratas tentaram manter-se no governo indicando o sem-graça Al Gore para suceder Clinton, mas o clã Bush e os republicanos ofereceram como opção um trapalhão George W. Bush, herdeiro político de Bush I. A eleição foi cômica e Bush II venceu sem ter vencido. Os bonesmen retornaram ao poder. 

Bush II teve a oportunidade de lançar-se numa outra guerra e mais uma vez tomando um acontecimento dramático como estopim – o famigerado 11 de setembro – a desencadear toda a ação bélica capitaneada pelos mesmos intentos predatórios que consagraram a Skull & Bones. A guerra contra o terror, além da balela de encontrar as sempre inexistentes “armas de destruição em massa” sob o controle de Saddan Hussein – outrora aliado dos bonesmen da Casa Branca – foi empregada como justificativa ao ataque contra o Iraque numa repetição grosseira da guerra que já foi desenhada pelos arquitetos da primeira Guerra do Golfo. 

Os democratas tentaram combater Bush usando “fogo contra fogo”, indicando o senador ex-combatente John Kerry, um bonesman das fileiras anti-Bush, para disputa do processo sucessório pela Casa Branca. Tentou-se, talvez, instaurar um ambiente de divisionismo entre os bonesmen em torno do tema central da eleição – a guerra. A divisão entre os irmãos de Yale já havia sido evidenciada por ocasião da Guerra do Vietnã, quando os bonesmen anti-guerra posaram de heróis pacifistas, mas desta vez a eleição de Bush II, apesar da torcida contrária de boa parte da opinião pública internacional que se preze, acabou sendo mesmo inquestionável. 

Bush II segue seu mandato rodeado por seus falcões e seus irmãos da Skull & Bones e fazem um governo, no mínimo, complicado.

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