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Archive for janeiro 16, 2011

Vídeo – Documentário do National Geographic sobre os Cavaleiros Templários

Série de vídeos sobre História do Brasil por Bóris Fausto

Um dos maiores historiadores brasileiros apresenta uma série de vídeos didáticos que abordam a História do Brasil desde a colônia até a atualidade.

O Brasil Colonial:

O Brasil Monárquico:

A República Velha:

A Era Vargas:

Brasil Democrático (1945-1964):

A Ditadura Militar:

A Redemocratização:

Vídeo – Impactos Fatais: racismo, imperialismo e extermínio

janeiro 16, 2011 1 comentário

Um documentário que aborda os absurdos do imperialismo através da perspectiva do racismo dos conquistadores sobre os conquistados.

Nefertiti, a rainha misteriosa

Um documentário sobre uma das mais poderosas mulheres de todos os tempos.

A religião Islâmica – princípios gerais

janeiro 16, 2011 2 comentários

Texto extraído da revista Al Tawadih (edição 01), editada pela Associação Beneficente Muçulmana do rio Grande do Norte em março/abril de 2010

 

Em meio ao noticiário da mídia, sempre superficial, e as muitas publicações de “especialistas no Oriente que pretendem explicar o Islam”, é preciso discernir informação e preconceito, conhecimento e tentativa de manipulação da opinião pública. Neste sentido, consideramos adequado começar a primeira edição do Tawdih com uma apresentação objetiva da Religião Islâmica e quais os seus princípios básicos.

O nome “Islam” tem origem na palavra árabe “Silm/Salam”, cuja tradução é “Paz”. “Saiam” também expressa o sentido de uma saudação recíproca, na qual se deseja a paz entre as pessoas.

No sentido religioso, representa a submissão a um só Deus, a forma de viver em paz com o Criador, consigo mesmo, com outras pessoas e com o meio ambiente. A totalidade desses objetivos faz com que o Islam seja “um sistema de vida completo”, diferente de outras religiões nas quais a ênfase é puramente espiritual e/ou de práticas devocionais.

Os seguidores do Islam são chamados de “muçulmanos”, palavra aportuguesada de “muslim”. Um muçulmano é qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, cuja obediência, dedicação e lealdade são exclusivamente para Deus, o Senhor do Universo.

Muçulmanos e árabes

O conceito do que seja árabe, já há muito tempo, é usado para designar mais do que “uma etnia ou raça”. Hoje, qualquer povo que tem o idioma árabe como sua língua materna é considerado árabe. Os muçulmanos, entretanto, podem ser árabes, turcos, franceses, indianos, chineses, japoneses, portugueses, russos, brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade e/ou raça. E interessante notar, inclusive, que o país com a maior população muçulmana não é árabe nem está no Oriente Médio. Trata-se da Indonésia, um país da Ásia. Por outro lado, os árabes não são exclusivamente muçulmanos. Há árabes cristãos, judeus e também ateus. Existem cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo e, destes, menos de 20% são árabes.

O árabe, entretanto, é a língua em que foi revelado e está escrito o Alcorão, o Livro Sagrado dos muçulmanos. Para poder conhecer essa revelação no original (traduções dela para outras línguas não são consideradas o Alcorão) é que muçulmanos de todo o mundo tentam aprender o árabe. As orações, dirigidas somente a Deus, também são feitas em árabe pelo mesmo motivo. As súplicas (preces) a Deus podem ser feitas em qualquer língua.

Allah , o único Deus

O Islam não é uma religião que tem um “deus” diferente do cristianismo e do judaísmo, as duas outras grandes religiões monoteístas. Allah é a palavra árabe para “Deus”. Um árabe cristão ou judeu, ateu ou de que religião for, também dirá Allah ao se referir a Deus.

O motivo pelo qual uma grande maioria de muçulmanos de várias nacionalidades e línguas diferentes preferem usar Allah e não o vocábulo correspondente em sua língua materna para “Deus”, se deve ao fato de que a palavra árabe não tem género nem numero, expressando de forma mais completa a noção islâmica de que “Deus é Uno e Único”.

Os Profetas

Os muçulmanos acreditam nos profetas do Judaísmo e do Cristianismo, nomeadamente, em Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, José, Moisés, Aarão, Davi, Salomão, João Batista e Jesus (que a paz de Deus esteja com todos eles).

Os muçulmanos acreditam que Deus enviou diferentes profetas e mensageiros, ao longo de toda a história da humanidade. Todos trouxeram a mesma mensagem e os mesmos ensinamentos. Os povos, nas diferentes épocas, é que não compreenderam bem, interpretaram mal e, em alguns casos, deturparam a Palavra Divina.

Os muçulmanos não adoram os profetas nem os santos, assim como não adoram e/ou oram para imagens e estatuetas. Os muçulmanos dirigem suas preces única e diretamente a Deus.

Muhammad

O profeta do Islam é Muhammad (que a paz e as benções de Deus estejam com ele), um mercador árabe cujo nome completo é Muhammad Bin Ab-dul Muttalib, nascido no ano de 570 da era Cristã, na cidade de Makka (Meca), Arábia. Seu pai faleceu antes do seu nascimento, e sua mãe, logo depois, por isso ele foi criado por um tio. A família de Muhammad (saas) formava um dos clãs da tribo Coraix. Aos 40 anos, durante um dos retiros que costumava fazer para meditar sobre sua existência, os tempos em que vivia, o Universo e seu Criador, Muhammad (saas) foi visitado pelo Anjo Gabriel (Jibrail) que lhe avisou ter sido ele escolhido por Deus para transmitir à humanidade a última das revelações divinas, o Islam.

Alcorão, hadices e outros Livros Sagrados

O Alcorão é a Palavra de Deus autêntica e original, dirigida a toda a humanidade e não só aos muçulmanos. O Alcorão foi revelado ao Profeta Muhammad (saas) por intermédio do Anjo Gabriel, constituindo-se na fonte primária e essencial do Islam.

Hadices são “ditos, tradições, exemplos, narrativas” das palavras, ações e decisões do Profeta Muhammad (saas) que não se encontram no Alcorão, mas em várias coletâneas organizadas após a morte do Profeta, transmitidas de forma confiável por seus devotados companheiros e registradas acuradamente por sábios. Muitos dos hadices exemplificam, explicam e interpretam versículos Corânicos. O conjunto desses ditos e ações do Profeta (saas) é chamado de “sunnah” (costume e/ou prática). Seguir a sunnah, portanto, é “fazer como o Profeta (saas) fazia”.

O Alcorão e a sunnah do Profeta Muhammad (saas) formam as bases do Direito Islâmico (fiqh) e constituem um verdadeiro Código de Vida para os muçulmanos.

Os muçulmanos crêem nos outros livros sagrados, revelados aos profetas e mensageiros anteriores a Muhammad (saas), mas foram alertados por Deus, através do Alcorão, que esses livros foram alterados na sua forma original.

 

Arte da caligrafia árabe - Proibidos de retratarem seres animados criados por Deus, o que poderia levar a alguma forma de adoração dessas imagens e/ou estatuetas, os artistas árabes-islâmicos desenvolveram a arte da caligrafia. Uma vez que a revelação da mensagem divina utilizou a palavra, ela também poderia ser utilizada para representar esses seres sem incorrer no risco do politeísmo. Vários estilos de caligrafia foram desenvolvidos ao longo dos séculos. A imagem acima, representando um leão, é do século XVI, e as letras formam uma prece para o Iman Ali (que Deus esteja contente com ele), primo e genro do Profeta (que a paz e as benções de Deus estejam com ele), e também o quarto califa do Islam.


Jesus, um profeta do Islam

Os muçulmanos acreditam no nascimento milagroso de Jesus (que a paz de Deus esteja com ele), considerando-o um dos maiores mensageiros de Deus para a humanidade. O Alcorão, através de um capítulo (sura) que tem o nome de Maria, confirma o nascimento milagroso de Jesus, sendo sua mãe uma mulher virgem e considerada “a mais pura de toda a Criação”.

0 Alcorão também confirma os milagres que, com a permissão de Deus, Jesus operou durante a sua vida. Os muçulmanos aguardam a segunda vinda de Jesus ao mundo, um sinal do fim dos tempos, mas não consideram que ele seja “filho de Deus”.

Os Pilares do Islam

A religião islâmica tem cinco princípios básicos, os chamados “Pilares da Fé”. São eles:

  1. O Credo (sharada) – trata-se do testemunho individual,  através da palavra,  atos e intenções,  que afirma “a existência de um Deus Único e que Muhammad é Seu Profeta e Mensageiro.
  2. As Orações (salat) – prescritas como obrigatórias para todos os muçulmanos, devem ser realizadas cinco vezes ao dia em períodos bem definidos. Elas inspiram o homem à moralidade, purificam o coração, controlam as tentações, evitam as más ações e mantêm o mal afastado.
  3. O Jejum (saum) – é a abstinência total de alimentos e líquidos; das relações sexuais e de vícios (como o de fumar); dos maus pensamentos e ações erradas desde o nascer até o pôr do sol, durante todo o mês do Ramadan. O jejum instrui e treina o homem para o amor, a sinceridade e a devoção, desenvolvendo a paciência,  eliminando o egoísmo e promovendo a consciência social, a solidariedade e a força de vontade para resistir às dificuldades.
  4. A Contribuição da Purificação (zakat) – é uma contribuição fixa e anual de 2,5% arrecadada sobre o patrimônio ou finanças do muçulmano ou sobre os seus lucros, deduzidas todas as suas despesas, dívidas, impostos etc. O zakat é destinado aos pobres e necessitados e para o bem comum da sociedade em geral. O pagamento do zakat é obrigatório e purifica os ganhos e a riqueza, além de estabelecer um compromisso do muçulmano com a justiça social e o equilíbrio econômico na sociedade.
  5. A Peregrinação a Meca (hajj) – é obrigatória, uma vez na vida, para todo muçulmano com possibilidades financeiras e físicas para realizá-la. A celebração do hajj é realizada, em parte, em memória das provações e atribulações do Profeta Abraão, sua esposa Agar e seu filho primogênito Ismael.

Regime alimentar

O Islam permite aos muçulmanos que comam de tudo que seja bom para a saúde.

Restringe apenas certos gêneros alimentícios, como a carne de porco e seus derivados; o sangue ou carnes putrefatas de animais encontrados mortos e/ou que tenham sido abatidos em rituais politeístas; as bebidas alcoólicas e quaisquer tipos de narcóticos ou drogas.

O lugar de adoração

É recomendado que os muçulmanos orem em congregação. O templo de adoração para os muçulmanos é chamado de “mesquita” (masjid), no entanto, o muçulmano pode orar sozinho ou em grupo em qualquer lugar limpo – em casa, no escritório, no campo etc.

Existem três lugares sagrados, no mundo, para os muçulmanos:

  • a mesquita da Kaaba, em Meca (Arábia)
  • a mesquita do Profeta Muham-mad (saas), em Medina (Arábia)
  • a mesquita Aqsa, em Jerusalém, (Palestina)

O Dia Sagrado

O dia sagrado para os muçulmanos é a sexta-feira (jumah). Neste dia, o profeta Adão foi criado; o profeta Moisés e o seu Povo atravessaram o Mar Vermelho, para ficarem a salvo da perseguição de Faraó e, acredita-se, será em uma sexta-feira o Dia do Julgamento Final.

Os muçulmanos se juntam todas as sextas feiras nas mesquitas, por volta do meio dia, para a celebração da “salat ai jumah”. O imã (dirigente do culto islâmico) faz um sermão (khutba) e dirige a oração em congregação.

AJihad

Essa é a palavra árabe mais manipulada e mau compreendida do vocabulário islâmico. O significado de “jihad” é, tão somente, “esforço na causa e no caminho de Deus”. Qualquer esforço diário pela causa de Deus é considerado “jihad”. Falar de religião para alguém que está desesperado é jihad; ajudar a fazer o bem é jihad; resistir à tentação de fazer algo errado é jihad; ser gentil e atencioso com as pessoas, mesmo com aquelas que se mostram grosseiras, é jihad.

O Profeta Muhammad (saas), explicando o conceito aos seus companheiros alertou que há diversas formas ou níveis de jihad. O mais elevado desses níveis é a jihad interna, o autocontrole dos desejos e paixões para não ultrapassar os limites que Deus traçou para os homens, permanecendo na via do amor e a da submissão ao seu Criador.

Infelizmente, a palavra jihad tem sido desvirtuada ao ser usada e/ou utilizada abusivamente, para fins e interesses de grupos políticos que atuam dentro do Islam. A imprensa ocidental que – por desconhecer ou querer ignorar o sentido correto – emprega-a como a tradução literal de “guerra santa”, o que acaba aumentando os enganos e causando maior confusão na opinião pública.

CategoriasHistória Geral

História indígena e história ambiental

Por Victor Leonardi, originalmente publicado no Caderno da TV Escola 2 – A Idade do Brasil, editado pelo MEC em 1999

 

Hoje em dia, é muito comum ouvirmos falar dos graves problemas ambientais, ou até mesmo convivermos com eles. São gigantescos incêndios florestais, desmatamento indiscriminado, uso abusivo de agrotóxicos nas plantações – contaminando agricultores e consumidores dos alimentos -, poluição dos rios por mercúrio e outros dejetos etc.

Nas cidades, os automóveis e as chaminés das fábricas expelem gases que tornam o ar irrespirável. O acúmulo de lixo, muitas vezes tóxico, e a falta de condições sanitárias ideais reduzem a qualidade de vida dos moradores.

Como a consciência das questões ecológicas aumentou muito nas últimas décadas, tem-se a impressão de que a gravidade desses problemas é coisa recente. Na verdade, o que há mesmo de recente é a amplitude global que eles alcançaram. O desmatamento das florestas e a poluição do ar, da terra, dos rios e dos mares tem sido tão intensa, em todo o mundo, que hoje o planeta inteiro está ameaçado.

Mas a destruição do meio ambiente é um problema muito antigo, que atingiu diferentes sociedades desde épocas remotas. No Brasil, em particular, o uso indiscriminado dos recursos naturais pode ser registrado desde o primeiro século da colonização.

Há um ramo da pesquisa histórica, denominado ‘história ambiental’, que se dedica a estudar as crises ambientais do passado. Mais do que registrar apenas essas destruições, a história ambiental procura entender a maneira pela qual as diferentes sociedades, em diferentes épocas, se relacionaram com a natureza.

Os conhecimentos produzidos por outros ramos do saber, como a antropologia, ajudam os historiadores ambientais a constatar que outras sociedades mantiveram uma relação muito mais harmônica, equilibrada e respeitosa com o mundo natural do que as sociedades do Ocidente.

Conhecimentos indígenas de agricultura e botânica

Pesquisas recentes na Amazônia e no Centro-Oeste já revelaram que a literatura tradicional a respeito da agricultura indígena estava equivocada. Segundo as ideias aceitas até há bem pouco tempo, o fogo teria sido a única forma de manejo da terra utilizada pelos índios até a chegada dos europeus. Mas, na opinião de alguns pesquisadores, essas ideias são errôneas. Pesquisa realizada na aldeia de Gorotire, em 1985, revelou que os kayapó praticavam até o reflorestamento, a partir de uma concepção do meio ambiente distinta daquela que predomina nas sociedades ocidentais.

Os pesquisadores apresentaram aos atuais habitantes diversas amostras botânicas, perguntando seu nome na língua indígena, seus usos e a prática de manejo associada àquelas plantas. Posteriormente, as amostras foram cientificamente identificadas pelo museu Emílio Goeldi, do Pará. Das 120 espécies inventariadas, os indígenas haviam considerado úteis 118, das quais 75 por cento eram espécies por eles plantadas!

Os estudiosos concluíram que esse sistema harmonioso de manejo do cerrado, com benefícios substanciais não só para o homem, mas para o próprio meio, se desenvolveu ao longo de muito tempo, tendo sido amplamente praticado no passado.

Os estudos de etnobotânica levaram à surpreendente conclusão de que muitos dos ecossistemas tropicais que consideramos naturais podem ter sido, na verdade, organizados por povos indígenas.

Outro exemplo interessante se relaciona com a apicultura. Em um congresso científico realizado no estado do Pará, alguns indígenas convidados deram uma verdadeira aula para os acadêmicos presentes, transmitindo seus vastos conhecimentos a respeito das abelhas, principalmente no que se refere a espécies amazônicas, ainda pouco estudadas por zoólogos e biólogos.

Esses cuidados para com a natureza, por parte dos kayapó e de outros povos indígenas, contrasta com a atividade daninha e devastadora de muitos empreendimentos contemporâneos na Amazônia, tanto na mineração como na pecuária.

Parece que a destruição do meio ambiente é uma das poucas tradições que podemos inventariar na história do Brasil, sem interrupções, desde o século 16.

No primeiro século da colonização, a exploração do pau-brasil foi tão intensa que, depois de bem pouco tempo, a madeira já rareava no litoral e era preciso ir procurá-la no interior, a 60 ou 120 quilômetros da costa.

Na verdade, os problemas ambientais vêm se acumulando no Brasil há dois ou três séculos. Por exemplo: há registros de uso indiscriminado de queimadas, acúmulo de detritos pela exploração mineral e poluição dos cursos d’água por mercúrio desde o século 18.

Acredita-se mesmo que poderia haver uma correlação entre a poluição por mercúrio e a grande incidência atual de debilidade mental e má formação congênita na população de certas cidades do interior de Goiás, nas quais a mineração foi intensa no final do século 18. Os casamentos consangüíneos, por si só, não explicariam tamanha incidência.

Essa hipótese foi levantada a partir da prospecção realizada na região, em 1987, por arqueólogos da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, revelando a existência de altíssima concentração de mercúrio nos sedimentos dos garimpes, soterrados há mais de século e meio.

 

Modelos agrícolas e espaço geográfico

Analisando os resultados da atual política governamental de incentivos fiscais na Amazônia, o engenheiro florestal Shigeo Dói concluiu que 97 por cento dos projetos agropecuários fracassaram, deixando como resultado desse ‘antimodelo’ de desenvolvimento econômico “40 milhões de hectares de floresta devastados, sem nenhum benefício em troca”. A devastação tornou-se tradição no Brasil, unindo o século do pau-brasil ao final do século 20.

O mais interessante no estudo desse engenheiro florestal é sua conclusão, de que “observando a roça dos silvícolas, que utilizam o método natural, o resultado é fantástico”. Ele propõe então a substituição do atual modelo agressivo, que canaliza recursos para a destruição, por um modelo conservacionista, direcionado para a oferta de produtos tropicais nativos, que poderia ser viabilizado, segundo ele, por um sistema de “fazendas florestais”.

Não cabe aqui analisar a viabilidade dessa proposta; fica apenas constatada a valorização das técnicas agrícolas dos homens ‘primitivos’ – cujos conhecimentos até hoje os estadistas brasileiros subestimam – por um engenheiro florestal.

Algumas descobertas arqueológicas feitas na Amazônia tornam ainda mais questionável essa ideia de primitivismo. Os pesquisadores constataram, por exemplo, que a agricultura indígena no alto Amazonas era quase sempre acompanhada por um processo de transformação manufatureira de produtos da terra – como a mandioca, com a qual se fabricava farinha, em grandes fornos construídos especialmente para esse fim.

Por meio de datação com carbono 14, hoje podemos afirmar com certeza que os fornos de farinha existiam e eram utilizados no norte do Brasil há pelo menos 2 mil anos. Portanto, embora também se dedicassem à caça, as populações indígenas da época não podiam ser descritas, conforme faziam observadores menos atentos, como “hordas de caçadores selvagens”.

Entre os traços culturais do ameríndio brasileiro merecem destaque os conhecimentos topográficos, isto é, a capacidade de se localizar e de representar o espaço percorrido. E, como conseqüência, a cultura geográfica inerente a essas faculdades.

Os tupinambá, por exemplo, além de conseguirem percorrer com facilidade centenas de léguas, eram dotados de um maravilhoso sentido de orientação, sendo os melhores guias, no sertão. Acompanhavam o giro do sol e seu caminho entre os dois trópicos, conheciam vários planetas, estrelas de primeira grandeza e constelações, que designavam por diferentes nomes, quase todos de animais. A essa astronomia de orientação correspondia, logicamente, uma aguda percepção do espaço geográfico e grande capacidade de representá-lo.

As múltiplas visões de mundo dos indígenas brasileiros, associadas a todo um complexo cultural, social e emocional, se desenvolveram ao longo de alguns milhares de anos, com total independência histórica em relação às tradições culturais européias e asiáticas.

 

As línguas e o ambiente

Os índios tukano do rio Uaupés, no Amazonas, dominam com perfeição numerosas línguas; são inúmeros os homens e mulheres que falam de três a cinco línguas, havendo até alguns poliglotas que dominam oito ou dez idiomas! Nesse aspecto, o rio Uaupés é uma área única no mundo. Esse rio fica no imenso município de São Gabriel da Cachoeira, que possui o maior número de aldeias indígenas do Brasil, abrigando povos de línguas tukano, maku, baré e baniwa.

Diante de um fato cultural tão extraordinário como o poliglotismo tukano, percebe-se como os preconceitos deformaram inúmeras teorias da história surgidas na modernidade.

É simplesmente um absurdo considerar ‘inferiores’, ou ‘atrasados’, homens e mulheres capazes de se expressar em diversos idiomas!

E não se pode esquecer que isso ocorre no interior do estado do Amazonas, onde a maior parte dos brasileiros não sabe falar outra língua além do português.

O utilitarismo imediatista e a procura constante da maximização, que predominam na mentalidade de mercado, reduzem a espécie humana ao Homo economicus. Se não fosse isso, nós, brasileiros, já teríamos percebido que temos muito a aprender com os povos indígenas que há milênios habitam essa imensa área que é a Amazônia e a região Centro-Oeste, território que mal começamos a estudar do ponto de vista botânico -e ecológico. Os conhecimentos empíricos desses povos não deveriam ser subestimados, como hoje acontece, por aqueles que sistematizam, explicam e teorizam.

Mas, como conseguir uma cooperação pacífica no estudo da natureza amazônica, quando essa mesma natureza vem sendo destruída a um ritmo cada vez maior?

A ocupação da Amazônia, desde o início da construção das grandes rodovias e ferrovias, de 1960 em diante, tem sido literalmente catastrófica do ponto de vista ecológico. Ao observar isso, vemos o quanto existe de chauvinismo por trás da palavra ‘atraso’. Se essa grande floresta continuar sendo destruída por tecnologias sofisticadas (há até usinas siderúrgicas utilizando carvão vegetal), só restará aos filósofos rever a noção de cultura, pois os índios ‘atrasados’ jamais ameaçaram a região, nos milhares de anos que vivem por ali.

A alternativa não seria uma volta às estratégias de sobrevivência do Neolítico, mas sim o fim do casamento tradicional entre ‘progresso’ e destruição. Ou entre destruição e cultura, tal como o Ocidente vem promovendo há mais de cinco séculos.

Uma tecnologia que se espalha destruindo a natureza, como vem acontecendo na Amazônia, não indica desenvolvimento de forças produtivas, mas sim de forças destrutivas.

Essas observações não têm apenas um sentido polêmico, ou um conteúdo de denúncia: fazem parte de nossa tentativa de compreender melhor a natureza das contradições presentes nessa sociedade.

Quando centenas de milhares de hectares de floresta – milhões de hectares, nos últimos anos – são queimados anualmente, para nada, a não ser por um lucro de curta duração, é mais do que necessário pensar no absurdo de empregar o termo ‘civilização’ para designar a extensão desse holocausto pelas áreas amazônicas.

 

 

 

HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO (3) – REPÚBLICA VELHA

Série narrada pelo historiador Bóris Fausto e que, por meio de documentos e imagens de arquivo, traça um panorama político, social e econômico do País, desde os tempos coloniais até os dias atuais. A série é composta, ainda, de entrevistas com algumas personalidades que ajudaram a escrever essa história.

HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO (2) – BRASIL IMPÉRIO

janeiro 16, 2011 1 comentário

Série narrada pelo historiador Bóris Fausto e que, por meio de documentos e imagens de arquivo, traça um panorama político, social e econômico do País, desde os tempos coloniais até os dias atuais. A série é composta, ainda, de entrevistas com algumas personalidades que ajudaram a escrever essa história.

Vídeo que aborda o período monárquico brasileiro.

HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO (8) – REDEMOCRATIZAÇÃO

Série narrada pelo historiador Bóris Fausto e que, por meio de documentos e imagens de arquivo, traça um panorama político, social e econômico do País, desde os tempos coloniais até os dias atuais. A série é composta, ainda, de entrevistas com algumas personalidades que ajudaram a escrever essa história.

O Brasil pós-ditadura.

HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO (6) – REGIME MILITAR

janeiro 16, 2011 1 comentário

Série narrada pelo historiador Bóris Fausto e que, por meio de documentos e imagens de arquivo, traça um panorama político, social e econômico do País, desde os tempos coloniais até os dias atuais. A série é composta, ainda, de entrevistas com algumas personalidades que ajudaram a escrever essa história.

Neste vídeo é apresentada a Ditadura Militar.

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