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Archive for novembro \26\UTC 2008

COVEST – Prova de História da primeira fase – Vestibular 2009

novembro 26, 2008 1 comentário

A prova respondida e comentada pode ser conferida no link abaixo.

Baixe aqui a prova (PDF)

Vestibular Seriado da UPE – Prova de História

novembro 16, 2008 3 comentários

Clique no link abaixo para poder conferir a prova de História do vestibular seriado da UPE.

upe-sistema-seriado-de-avaliacao-historia

ESCOLA DO RECIFE – Atividade para o 1º Ano

Atividade sobre a Civilização Romana. Vale por uma AP!

Clique no link abaixo e faça o download.

atidade-historia-geral-1o-ano

Eleições do Sintepe

Os professores da Rede Estadual podem conferir os locais para votação para direção do Sintepe (as eleições serão nos dias 18 e 19 deste mês):

Relação de locais de votação 1

Relação de locais de votação 2

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Download – Documentários sobre os Maias e os Astecas

novembro 12, 2008 7 comentários

Baixe dois documentários da série Construindo um Império (produção do History Channel) sobre os Astecas e os Maias. Os vídeos estão em formato AVI e os arquivos estão divididos em partes. Você precisa baixar todas as partes e descompactar para que elas possam ser reunidas em apenas um arquivo. Os vídeos já contam com dublagem e legendas.

 

Os Maias

 

Os Astecas

As bases do nazismo

novembro 10, 2008 5 comentários

Texto adaptado da revista Super Interessante de julho de 2005

 

Julius era um sujeito querido. Sua namorada o amava, seus amigos o consideravam boa-praça, seus colegas de trabalho admiravam sua competência. Aos 29 anos, eleja comandava uma equipe de 550 pessoas. Tinha uma voz boa e, no seu tempo livre, gostava de ir a festas, cantar e dançar.

O nome completo dele era Julius Wohlauf, o comandante da 1a Companhia do Batalhão 101, o mais sanguinário corpo de extermínio nazista. Seu trabalho, que ele fazia tão bem, era manter a ordem na Polônia ocupada, o que incluía mandar judeus para a morte certa e fuzilar poloneses. Em junho de 1942, ele se casou com Vera em Hamburgo e voltou com ela à Polônia para seguir com a matança. Durante a lua-de-mel, grávida de 4 meses, Vera assistia aos fuzilamentos de dia. À noite, o casal cantava e dançava nas festas do batalhão.

Como é que Julius conciliava ávida pacata em família com a rotina de assassinatos? E não foi só ele. Milhares de cidadãos participaram da matança – os ferroviários que levavam judeus à morte, as donas de casa que delatavam fugitivos, os médicos que faziam experimentos com prisioneiros, os funcionários das diversas indústrias públicas e privadas que compunham a máquina de matar de Hitler. Sem falar nos milhões que assistiram a tudo sem protestar, até com um sentimento de aprovação. Como uma coisa dessas pôde acontecer em pleno século 20, no coração do Ocidente democrático e “civilizado”?

A explicação está numa idéia: o nazismo. Julius, como quase toda a Alemanha, acreditava sincera e profundamente nela. Há mais de 60 anos, quando Hitler se suicidou, o nazismo foi dado também como morto. Por décadas, o mundo olhou para ele corno se não passasse de um surto de loucura – um desvario coletivo sem sentido ou explicação. Mas, agora, vários pesquisadores têm tido coragem de procurar alguma lógica nele, inclusive para evitar que se repita. E algumas conclusões estão surgindo.

Segundo elas, o nazismo não é uma idéia louca vinda do nada e sumida para sempre. Ele é conseqüência de 5 outras idéias – todas aparentemente inofensivas sozinhas, todas vivas até hoje. Esta reportagem procurará entender cada uma delas – para chegar perto de compreender o nazismo.

 

A 1ª idéia: o carimbo da ciência

O naturalista Charles Darwin

O naturalista Charles Darwin

Como uma pessoa comum pode conviver com sua consciência após assassinar inocentes? A resposta: fica mais fácil dormir à noite quando se acredita que seus atos trarão o bem à humanidade. Hitler convenceu os alemães – e muitos estrangeiros – de que, após o massacre, nasceria um mundo melhor. Isso pode soar absurdo hoje, mas era um fato aceito pela ciência da época. “O Holocausto não ocorreu no vácuo. Ele seguiu décadas de crescente aceitação científica à desigualdade entre os homens”, diz o alemão Henry Friedlander, historiador e autor de The Origins of Nazi Genocide (“As Origens do Genocídio Nazista”, sem versão brasileira). Friedlander se refere a um conceito nascido no século 19 nas melhores universidades: a eugenia.

A eugenia surgiu sob o impacto da publicação, em 1859, de um livro que mudaria para sempre o pensamento ocidental: A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Darwin mostrou que as espécies não são imutáveis, mas evoluem gradualmente a partir de um antepassado comum à medida que os indivíduos mais aptos vivem mais e deixam mais descendentes. Pela primeira vez, o destino do mundo estava nas mãos da natureza, e não nas de Deus.

Darwin restringiu sua teoria ao mundo natural, mas outros pensadores a adaptaram – de um jeito meio torto – às sociedades humanas. O mais destacado entre eles foi o matemático inglês Francis Galton, primo de Darwin. Em 1865, ele postulou que a hereditariedade transmitia características mentais – o que faz sentido. Mas algumas idéias de Galton eram bem mais esquisitas. Por exemplo, ele dizia que, se os membros das melhores famílias se casassem com parceiros escolhidos, poderiam gerar uma raça de homens mais capazes. A partir das palavras gregas para “bem” e “nascer”, Galton criou o termo “eugenia” para batizar essa nova teoria.

Galton se inspirou nas obras então recém-descobertas de Gregor Mendel, um monge checo morto 12 anos antes que passaria à história como fundador da genética. Ao cruzar pés de ervilhas, Mendel havia identificado características que governavam a reprodução, chamando-as de dominantes e recessivas. Quando ervilhas de casca enrugada cruzam com as de casca lisa, o descendente tende a ter casca enrugada, pois esse gene é dominante.

Os eugenistas viram na genética o argumento para justificar seu racismo. Eles interpretaram as experiências de Mendel assim: casca enrugada é uma “degeneração” (hoje sabe-se que estavam errados – tratava-se apenas de uma variação genética, algo ótimo para a sobrevivência). Misturar genes bons com “degenerados”, para eles, estragaria a linhagem. Para evitar isso, só mantendo a raça “pura” – e aí eles não estavam mais falando de ervilhas. O eugenista Madison Grant, do Museu Americano de História Natural, advertia em 1916: “O cruzamento entre um branco e um índio faz um índio, entre um branco e um negro faz um negro, entre um branco e um hindu faz um hindu, entre qualquer raça européia e um judeu faz um judeu”.

As idéias eugenistas fizeram sucesso entre as elites intelectuais de boa parte do Ocidente, inclusive as brasileiras. Mas houve um país em que elas se desenvolveram primeiro, e não foi a Alemanha: foram os EUA. Não tardou até que os eugenistas de lá começassem a querer transformar suas teorias em políticas públicas. “Em suas mentes, as futuras gerações dos geneticamente incapazes deveriam ser eliminadas”, diz o jornalista americano Edwin Black, autor de A Guerra contra os Fracos. A miscigenação deveria ser proibida.

Programas de engenharia humana começaram a surgir, inspirados por técnicas advindas de estábulos e galinheiros. O zoólogo Charles Davenport, líder do movimento nos EUA, acreditava que os humanos poderiam ser criados e castrados como trutas e cavalos. Instituições de prestígio, como a Fundação Rockefeller e o Instituto Carnegie, doaram fundos para as pesquisas, universidades de primeira linha, como Stanford, ministraram cursos. Os eugenistas americanos ergueram escritórios de registros de “incapazes”, criaram testes de QI para justificar seu encarceramento e conseguiram que 29 estados fizessem leis para esterilizá-los.

As primeiras vítimas foram pobres da Virgínia, e depois negros, judeus, mexicanos, europeus do sul, epilépticos e alcoólatras. Segundo Black, 60 mil pessoas foram esterilizadas à força nos EUA. Em seguida, países como a Suécia e a Finlândia começaram programas parecidos.

Portanto, quando a Alemanha de Hitler começou a esterilizar deficientes físicos e mentais, em 1934, não estava inventando nada. Só que eles foram mais longe. “Hitler está nos vencendo em nosso próprio jogo”, indignou-se o médico americano Joseph DeJarnette, que castrava pobres. Em 1939, os alemães começaram a matar deficientes, num programa de “eutanásia forçada”. Médicos usaram o gás inseticida Zyklon B para eliminar 70 mil pessoas “indignas de viver”. O programa foi suspenso após protestos, mas serviu de ensaio para os campos de concentração, onde Zyklon B exterminaria qualquer um que ameaçasse o projeto da raça pura e a conseqüente “melhora da humanidade”.

“Hitler conseguiu recrutar mais seguidores entre alemães equilibrados ao afirmar que a ciência estava a seu lado”, diz Black. “Seu vice, Rudolf Hess, dizia que o nacional-socialismo não era nada além de biologia aplicada.” Com o carimbo da ciência, ainda que meio falsificado, ficou mais fácil para gente como Julius compactuar com o absurdo nazista.

 

A 2ª idéia: um ódio ancestral

 

mein-kampf-adolf-hitler

Mein Kampf ("Minha Luta"), a "bíblia" do nazismo

A eugenia forneceu a base teórica para o assassinato de ciganos, deficientes, homossexuais e outros “inferiores”. Mas por que só um povo foi marcado para o extermínio? Por que os judeus? Essa resposta é ainda mais antiga. “O primeiro anti-semitismo foi o dos romanos, que não toleravam costumes judaicos como oshabat (dia do descanso) e o culto ao Deus único”, escreveu o historiador francês Gerald Messadié em História Geral do Anti-Semitismo.

Quando o Império Romano adotou o cristianismo, no século IV, a perseguição cultural e política virou religiosa. “Esquecendo-se de que Jesus foi judeu, os partidários da Igreja iriam, em nome de Jesus, cobrir os judeus de acusações”, diz Messadié. A maior delas veio em 325, quando a Igreja culpou os judeus pela morte de Cristo, uma acusação só retirada em 1965. A cristandade medieval viu crescer os mitos de que judeus eram aliados do diabo, utilizavam sangue de crianças cristãs e tramavam o domínio do mundo. Muitos judeus se converteram ao cristianismo para não terminar nas fogueiras da Inquisição.

Ou seja, também nesse aspecto, o nazismo não foi novidade, como deixa claro o livro Christian Antisemitism, A History of Hate (“Anti-Semitismo Cristão, Uma História de Ódio”, sem versão no Brasil), de William Nicholls, estudioso da religião da Universidade de British Columbia, Canadá. Nicholls mostra que muitas medidas anti-semitas da lei canônica medieval são reencontradas quase palavra por palavra na jurisdição nazista dos anos 30. Tanto a obrigação do uso de uma insígnia nas roupas quanto as proibições aos cristãos de vender bens, casar ou fazer sexo com judeus já existiam em leis da Igreja do século XIII. Mas o século 19 trouxe uma novidade. Antes, os judeus tinham uma saída, a conversão. Agora, com a eugenia, o anti-semitismo deixou o caráter religioso e incorporou um novo conceito: a raça. A natureza dos judeus agora era imutável e nem se converter os salvaria.

Com a vitória dos nazistas e a fundação do 3º Reich, em 1933, o anti-semitismo pela primeira vez se tornou política de Estado, e a população, convencida pelos mitos medievais, não pareceu se incomodar. O historiador inglês Norman Cohn, da Universidade de Sussex, constatou isso ao ler interrogatórios de ex-membros das SS, as tropas de repressão nazistas. “O genocídio dos judeus foi motivado pela idéia de que eles eram conspiradores decididos a dominar a humanidade – uma versão secularizada da idéia de feiticeiros empregados por Satanás”, afirma Cohn no livro Conspiração Mundial dos Judeus: Mito ou Realidade?.

Daniel Goldhagen, professor de Estudos Sociais e Governamentais da Universidade Harvard, ampliou a pesquisa ao estudar pessoas como Julius, que participaram do assassinato de judeus. “Movidos pelo anti-semitismo, os perpetradores acreditavam que acabar com os judeus era justo, correio e necessário.” Segundo ele, nenhum homem de Julius nem de qualquer outro batalhão foi mono ou mandado a campo de concentração por se recusar a matar judeus. Ou seja, tal ato não era considerado errado naquele lugar e naquela época. No discurso de alguns ideólogos nazistas, era uma medida sanitária. Quase como exterminar ratos.

 

3ª idéia: o amor à pátria        

Estandarte de Hitler

Estandarte de Hitler

A eugenia emprestou a fachada científica e o anti-semitismo forneceu a motivação, mas os nazistas não teriam feito tanto barulho sem uma 3ª idéia: o nacionalismo. Hitler seguiu as pegadas do primeiro-ministro prussiano Otto von Bismarck, que ajudou a inventar a identidade germânica e, com isso, unificou o então fragmentado país, em 1871, e fundou o 2° Reích. Assim, Bismarck venceu os franceses na Guerra Franco-Prussiana. Tinham se passado 12 anos da publicação de A Origem das Espécies e a Alemanha estava vitoriosa e cheia de entusiasmo. Aí o país se lançou ao imperialismo baseado no “darwinismo social”, declarando sua superioridade sobre os africanos e asiáticos e justificando assim seu direito de dominá-los.

Mas, nos anos 30, o clima era outro: a Alemanha estava deprimida. Perdera a I Guerra e naufragava na desordem, na crise econômica e na desunião. Como Bismarck, Hitler fomentou o nacionalismo. “A utopia hitleriana se baseava em 3 erres: reich (império), raum (espaço) e rasse (raça)”, diz a alemã Marlis Steinert, historiadora do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra. Segundo ela, o sonho do reich remontava à lembrança mística de Frederico Barbarossa, senhor do Sacro Império Romano-Germânico, o 1° Reich, que começou por volta de 800 e durou 1000 anos.

Já as noções de espaço e raça vinham do século 19 e simbolizavam o vínculo entre a natureza, a terra e o homem, como cantavam os poetas do romantismo. Hitler queria expandir o território e dar à história alemã seu verdadeiro sentido, devolvendo ao povo seu espaço vital. Ele afirmava que traria de volta os tempos de grande potência e fundaria o 3° Reich. Não é à toa que a investida contra a União Soviética se chamou Operação Barbarossa.

A trilogia dos erres se encaixou na velha ideologia volkisch (“do povo”), arraigada na Alemanha antes da chegada do nazismo. Segundo ela, um povo só floresce se todas suas partes estão saudáveis. É aí que entra a interpretação nazista do socialismo. Afinal, você já deve ter se perguntado por que o partido de Hitler (o Nacional-Socialista) tinha socialismo no nome, se era absolutamente anticomunista. “Para Hitler, o socialismo era a ciência da prosperidade coletiva e nada tinha a ver com marxismo”, afirma Marlis. O “socialismo” dos nazistas tinha esse nome porque supostamente colocava o coletivo (social) acima do indivíduo.

E qual era a principal ameaça a esse ideal nacionalista de um corpo saudável? Os judeus, por não terem um lar nacional. Aos olhos nazistas, eles formavam uma nação internacional e eram portanto mais perigosos que qualquer país estrangeiro, por corroer a Alemanha de dentro, como uma infecção. Em seus discursos, Hitler os acusava de desnacionalizar o Estado e alterar a pureza do sangue ariano para destruir o povo. Ele os chamava ora de comunistas, ora de capitalistas, mas sempre materialistas, em oposição ao idealismo germânico. “Para o pensamento hitlerista, ser socialista é também ser anti-semita porque o socialismo se opõe ao materialismo e protege a nação”, diz Marlis.

Mais uma vez, gente como Julius tinha uma justificativa para matar. Na sua cabeça, era em nome da nação, do coletivo. E, para alguns, fica mais fácil tolerar a injustiça contra indivíduos quando se acredita que o objetivo final é o bem comum.

 

4ª idéia: a fria modernidade

O Führer

O Führer

“O Holocausto foi executado na sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano. Por isso, é um problema da nossa civilização e da nossa sociedade”, diz o sociólogo polonês Zygmunt Baumann, autor de Modernidade e Holocausto. Por isso é tão difícil falar abertamente sobre o assunto. O nazismo diz respeito a nós. Auschwitz é tão ocidental e moderno quanto a calça jeans. O Holocausto foi feito ao modo moderno: racional, planejado, “cientificamente” fundamentado, especializado, burocrático, eficiente.

Os genocidas obedeciam a rotinas de organização. Julius e seus homens fumavam entre os fuzilamentos, como um funcionário de escritório. Relaxavam, batiam papo e voltavam a disparar. Foi com uma solução moderna, os cartões perfurados das máquinas Hollerith da IBM, que os nazistas localizaram suas vítimas. A IBM não só forneceu máquinas, mas idealizou o sistema e prestou assessoria técnica para que tudo funcionasse nos conformes.

Quando os nazistas perceberam que tiros não seriam suficientes para eliminar os 11 milhões de judeus da Europa, recorreram a outra solução moderna, as câmaras de gás, inspiradas nas mais avançadas tecnologias de dedetização. Auschwitz era uma fábrica de matar – tinha capacidade para queimar 4 756 corpos por dia em 5 crematórios. Uma grande “inovação”, se comparada aos métodos usados pelos turcos contra os armênios em 1915: fuzilamento, golpes de clavas e baionetas.

A tecnologia moderna libertou o homem de séculos de domínio da natureza. Graças a ela o homem pela primeira vez acreditou que não era apenas uma “criatura de Deus”, a mercê de Seus desígnios, mas um sujeito capaz de moldar o mundo. Foi justamente o que os nazistas quiseram fazer: mudar a Terra, construir sua utopia. E pretendiam fazer isso do jeito moderno: sem questionamentos morais, em nome do “progresso”.

Ainda assim, não faltaram contradições no casamento entre o nazismo e a modernidade. Hitler usou as técnicas, mas combatia as idéias modernas. Era contra os valores de igualdade, liberdade e democracia emanados pela Revolução Francesa. E, como você vai ver a seguir, quis reinstaurar a Antiguidade grega em pleno século XX.

 

5ª idéia: a ilusão da beleza

 

Crianças presas em Auschwitz, a "fábrica da morte"

Criança presas em Auschwitz

Este último componente do nazismo é talvez o mais chocante. Por trás da tragédia do Holocausto e da morte de 50 milhões de pessoas, estava o sonho de criar um mundo mais puro, mais harmonioso – enfim, mais belo. “O nazismo também era estética”, diz o sueco Peter Cohen, diretor do documentário Arquitetura da Destruição. “Pregava que uma nova Alemanha surgiria, mais forte e bonita, num sonho ao qual só os artistas podiam dar forma.”

O 5° elemento do nazismo aflorou da personalidade de seus lideres. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, escrevia romances e peças teatrais e vários outros líderes nazistas eram artistas e escritores. Hitler pintava aquarelas. Com o amigo de infância August Kubizek, ele escreveu uma ópera seguindo uma idéia do compositor Richard Wagner, expoente do romantismo alemão e da escola Volkisch. A trama se passa na Roma medieval e o protagonista é um tal Rienzi, um plebeu que tenta restabelecer a Antiguidade.

O führer parecia decidido a encarnar Rienzi na vida real. Seria ele o artista-príncipe que anunciaria a nova civilização clássica, inspirada na Grécia e em Roma. Tanto que o ditador era também diretor, cenógrafo e protagonista dos comícios nazistas. Ele mesmo desenhou as bandeiras, os estandartes, os uniformes e a temível insígnia da suástica. Quando a guerra começou, ele mandou artistas ao front para pintar as glórias do exército e ordenou a confecção de esculturas gigantescas inspiradas no ideal grego de beleza. Uma dessas esculturas era dele próprio e seria colocada no centro de Berlim, planejada para ser a cidade mais grandiosa do mundo, capital da futura civilização. Hitler tinha uma idéia peculiar sobre arte. Assim como os arianos eram a raça pura, os clássicos eram a arte pura. E a arte moderna seria a equivalente dos judeus (e das ervilhas enrugadas): degenerada. As fileiras nazistas estavam cheias de artistas, mas a classe profissional mais numerosa no partido era a dos médicos.

Tanto uns como outros tinham um sonho em comum: uma sociedade mais “harmônica” e, conseqüentemente, mais “saudável”.

Na vida real, Hitler só encenou o 1° ato de sua ópera. Projetou sua megalômana Berlim e desenhou os esboços de prédios monumentais para várias cidades alemãs. A morte de todos os judeus faria parte desse projeto estético de um mundo mais harmonioso. Felizmente, não deu tempo de terminar nem as obras nem o extermínio. Em 1941 ele percebeu que não venceria. Quanto mais perto da derrota, mais intensificava o genocídio – convencido de que o esforço valeria a pena se pudesse deixar para a posteridade um mundo sem judeus. Apesar da necessidade de logística na guerra, os trens davam prioridade ao transporte de prisioneiros para os campos. “Para Hitler a perda da guerra não significava o fim do nazismo, pois a queda do 3º Reich influenciaria as futuras gerações”, diz Cohen. “O país se reergueria das ruínas. Da derrota total, brotaria uma nova semente.”

 

Sobrou uma semente?

 

O sonho de Hitler, felizmente, não se realizou. O nazismo deixou de existir como alternativa política no momento em que a 2a Guerra Mundial acabou. Mas será que ele pode voltar?

“Embora a História se repita, nunca é da mesma maneira. Dificilmente veremos uma situação idêntica à da Alemanha nazista”, diz a escritora e ex-deputada espanhola Pilar Rahola. “Mas não estamos livres da estruturação do nazismo em partidos políticos, como os do austríaco Jorg Haider e do francês Jean-Marie Lê Pen, que camuflam sua ideologia com discursos ultracatólicos”. Cresce também o totalitarismo ideológico, incluindo o de base islâmica. “Não é à toa que terroristas islâmicos têm se conectado com grupos de extrema direita e o próprio Haider é admirador de Bin Laden”, diz Pilar.

Edwin Black diz que a eugenia também está viva e continua definindo o valor do indivíduo com base no seu valor genérico. A diferença é que os eugenistas de hoje não se guiam por bandeiras e sim por dinheiro. De posse de banco de dados com identidades de DNA, agências de emprego e companhias de seguro estão negando serviço a pessoas que têm doenças degenerativas. “Assistimos à aparição de uma subclasse discriminada por sua linhagem ancestral”, afirma. “O Parlamento inglês chamou esse fenômeno de gueto genético.”

Os genocídios tampouco deixaram de existir após o Holocausto. Nos últimos anos, assistimos à morte de 100 mil curdos no Iraque, 200 mil bósnios na ex-Iugoslávia e 800 mil tutsis em Ruanda. Para o escritor israelense Amos Oz, autor de Contra o Fanatismo, ideologias que pregam a superioridade de uns sobre os outros nunca fizeram tanto a cabeça dos jovens. “Quanto mais complicada a vida se torna, mais buscamos respostas simples. E essas respostas às vezes são fanáticas”, diz ele.

O nazismo pode até ter morrido. Mas os seus 5 pilares, as 5 idéias que deram origem a ele, sobreviveram à guerra e aos 60 anos depois dela. O carimbo de “aprovado pela ciência” continua sendo distribuído a esmo, e dando aval a projetos imorais. O racismo e a noção de que os homens são desiguais continuam a ser forças que movem multidões, e o nacionalismo exacerbado anda quase sempre ao lado deles. A ”busca do progresso” e a modernidade continuam sendo argumentos invencíveis, que quase sempre dispensam a ética em nome da eficácia (ou, cada vez mais, do lucro). E as utopias continuam convencendo o homem a desprezar o indivíduo em nome do “moderno”, do “belo” ou do “sonho”. Pelo menos já sabemos no que essa mistura pode dar. É melhor não esquecer.

 

Vestibular – Questões sobre a ditadura militar brasileira

novembro 5, 2008 81 comentários

Além de obter um breve resumo com tópicos sobre o tema, você pode também testar seus conhecimentos sobre a ditadura militar no Brasil através de 43 questões de vestibulares. Clique no link a seguir e confira (arquivo em PDF).

A ditadura militar no Brasil – Questões de vestibular

SOBRE OS GABARITOS DE QUESTÕES PUBLICADAS NO BLOG

Brasil – Ditadura militar

Estou reunindo aqui algum material (sujeito a atualizações) para facilitar seu estudo sobre este tema tão importante e tão cobrado nos vestibulares. Aproveite.

A ditadura militar no Brasil (1964-1985)

novembro 5, 2008 19 comentários

 

Texto adaptado do livro “História:
das cavernas ao Terceiro Milênio (Vol. 3)”,
de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick


“’Caí preso por azar’, relembra ainda hoje traumatizado por tudo que sofreu. ‘Estava na casa de amigos chilenos quando chegou uma patrulha do Exército, que fazia uma operação pente fino no bairro”.

- ‘Todo mundo em fila, com a identidade na mão’, gritou o comandante da patrulha.

Ao ver meu documento de refugiado, o oficial se enfureceu:

- ‘Ah, exilado brasileiro! Comunista, não é?’

Ficou mais enfurecido ainda quando descobriu a semelhança de meu nome, Pedro José Maria Martins Rabelo, com o de meu pai, integrante daquela lista das primeiras pessoas procuradas pela Junta.

Não precisei esperar. Fui levado imediatamente para o ônibus estacionado na frente da casa, aos socos e pontapés. [...]

Passei uma semana esquecido. Logo após, teria uma nova surpresa. Na tribuna de honra do estádio, para onde me levaram na companhia de outros brasileiros, havia um grupo de elementos diferentes dos chilenos, inclusive porque estavam à paisana. Percebemos logo que iríamos ser interrogados por policiais brasileiros.”

 

O depoimento acima é de Pedro Rabelo, filho do jornalista José Maria Rabelo, que aos 17 anos foi detido e torturado no Chile. A família Rabelo, a exemplo do que aconteceu com centenas de outras pessoas, foi obrigada a sair do Brasil após o golpe militar de 1964.

Perseguidos políticos, o casal e seus sete filhos permaneceram no exílio durante 16 anos. Primeiro foram para a Bolívia, país que tiveram de deixar meses depois, devido ao golpe militar que derrubou o presidente Victor Paz Estensoro, em 1965. A parada seguinte foi o Chile, que tinha um governo democrata-cristão e, cinco anos depois, elegeria o socialista Salvador Allende.

Mas, em 1973, a ditadura militar seria implantada também no Chile, com a ascensão do general Augusto Pinochet. A família foi obrigada a fugir novamente — desta vez, sem tempo sequer para fazer as malas. A última etapa da caminhada foi vivida na França, até 1979, quando a anistia foi aprovada no Brasil e os Rabelo puderam finalmente retornar.

A necessidade das constantes fugas dos perseguidos políticos justifica-se pela política de “solidariedade” que existiu entre os governos militares latino-americanos. A chamada “Operação Condor”, que durou aproximadamente dez anos, consistia em um acordo entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, de modo a criar mecanismos que levassem à prisão, repressão, tortura e, muitas vezes, morte dos militantes políticos desses países, independentemente de onde eles se encontrassem. A existência da operação foi comprovada no final de 1992, graças à descoberta dos arquivos da polícia secreta do Paraguai. Os integrantes da Operação Condor, instituída pelo general Pinochet, intercambiaram documentos e prisioneiros e aluaram livremente, inclusive para assassinarem militantes de partidos de esquerda e dos movimentos sociais. Segundo dados dos próprios países ligados pelo “Mercosul do Terror”, a Operação Condor matou ou fez desaparecer 12.868 pessoas, além de deixar um número incalculável de torturados.

Essa história sombria começa muito antes do golpe dos militares chilenos. Ela tem início nos anos 1960, quando militares e empresários brasileiros conquistaram o apoio de boa parte dos setores médios para a derrubada do presidente constitucional. E se estendeu até a década de 1980, no Brasil e em outros países.

 

Contestação, rebeldia e repressão

 

A crise política brasileira agravou-se em 1961, quando João Goulart assumiu a presidência do Brasil logo após a renúncia do então presidente Jânio Quadros, que governou o país por sete meses. Os setores conservadores, aliados aos militares, deram início a uma campanha de desestabilização do governo, uma vez que não concordavam com as medidas propostas pelo novo presidente. O pacote de medidas conhecido como Reformas de Base, que incluíam reforma agrária, cortes de subsídios dados à importação de certos produtos, reforma urbana, reforma bancária, reforma eleitoral e reforma educacional, foi duramente combatido pela elite.

Em 31 de março de 1964, um golpe militar derrubou João Goulart. A partir de então, os militares passaram a agir no sentido de desmobilizar toda e qualquer oposição ao regime. As organizações trabalhistas, como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), os políticos e os jornalistas de oposição e os estudantes estiveram entre os alvos da repressão. A violência atingiu especialmente as organizações vinculadas às Ligas Camponesas, sobretudo no Nordeste.A União Nacional dos Estudantes foi fechada e teve seu prédio incendiado.

Os militares chamaram de “Revolução” de 1964 o movimento que derrubou o presidente Goulart Contudo, não se pode dizer que tenha ocorrido uma revolução. Essa palavra tem sido, muitas vezes, empregada de modo equivocado. No essencial, porém, há pouca confusão quanto ao seu significado central: designa mudanças drásticas e violentas na estrutura socioeconômica e também nas leis, afastando do poder aqueles que o controlavam. Revolução é o desencadeamento de ações violentas levadas adiante por setores da sociedade que não pertencem às elites dirigentes ou às classes dominantes.

A análise sobre o significado do período militar dividiu opiniões no Brasil e no mundo. Professores, políticos, militares, a imprensa nacional e estrangeira apresentaram opiniões diferentes sobre o período.

Logo após o golpe de 1964, ficou claro que o Brasil entraria em uma ditadura militar. Embora o movimento tenha contado com o apoio dos civis, notadamente dos políticos da UDN, os militares não pretendiam entregar o poder a eles, como ocorrera em 1930 e 1945. Desta vez, representantes das Forças Armadas estariam no controle direto do aparelho de Estado.

Em abril de 1964 foi editado o Ato Institucional nº 2, pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Dentre várias disposições, destacaram-se as seguintes:

 

  • Nomeação do general Humberto de Alencar Castello Branco para a presidência da República.
  • As Constituições federais e estaduais em vigor seriam mantidas.
  • A eleição do presidente e do vice-presidente da República passaria a ser efetuada pelo Congresso Nacional.
  • O presidente da República poderia remeter ao Congresso sugestões para a reforma da Constituição de 1946, leis sobre qualquer assunto, para criar ou aumentar as despesas públicas.
  • As investigações e processos legais com relação a crimes contra o Estado ou sua propriedade, bem como contra a ordem política e social, poderiam ser instaurados contra indivíduos ou coletivamente.
  • Os Comandantes-em-Chefe das Forças Armadas, que assinaram o Ato Institucional, poderiam suspender direitos políticos por um prazo de 10 anos e anular mandatos legislativos (federais, estaduais e municipais) sem revisão judicial.

Em relação à política externa, os militares optaram pelo alinhamento com o bloco ocidental, principalmente com os Estados Unidos. Este país reconheceu a legitimidade do governo provisório logo após o golpe militar, o que indica o interesse de Washington na derrubada de João Goulart.

Os Estados Unidos tinham bons motivos para desejarem o fim do governo de Jango. Ao aprovar a Lei de Remessas de Lucros e incentivar uma política independente para o país, o presidente estava prejudicando os interesses das empresas americanas instaladas no Brasil. Seria exagerado afirmar que os Estados Unidos financiaram o golpe militar, mas não restam dúvidas de que financiaram os conspiradores. Desde 1963, o presidente americano John Kennedy suspendera a concessão de empréstimos para o governo federal brasileiro, embora continuasse liberando capitais para os governadores da oposição, como Magalhães Pinto, de Minas Gerais, Carlos Lacerda, do Estado da Guanabara e Ademar de Barros, de São Paulo.

 

O governo Castello Branco (1964-1967)

Castello Branco

Castello Branco, o primeiro general-presidente da ditadura militar

O general Humberto de Alencar Castello Branco era o líder do Grupo da Sorbonne, ligado à Escola Superior de Guerra (ESG).

Ao assumir a presidência, Castello Branco afirmava que seu objetivo era implantar uma “democracia restringida” — para ele, isso significava atuar na reformulação da economia e da política do Estado, com o propósito de “combater o comunismo e promover a consolidação da democracia”. Ele foi o idealizador de importantes órgãos de controle e repressão, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), encarregado de supervisionar e coordenar as atividades de informação e contra-informação, com especial atenção às questões de segurança nacional.

Imbuído de poderes excepcionais, o governo Castello Branco pôde promover prisões arbitrárias e torturar os opositores, apesar de ainda estar em vigor o habeas corpus, que seria extinto em 1968. Lideranças sindicais e camponesas foram mortas ou desapareceram; governadores eleitos perderam seus mandatos. Entre os primeiros cassados pelo governo constavam: João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e outras importantes figuras públicas do país.

Em 1966, a oposição foi vitoriosa nas eleições para governador nos estados de Minas Gerais e da Guanabara. O governo militar reagiu, editando o Ato Institucional nº 2. O decreto colocava fim a todos os partidos existentes e autorizava a formação de apenas duas legendas: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), que apoiava o regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que sintetizava as forças da oposição, enfraquecidas pela cassação dos parlamentares mais combativos.

A reação popular contra a arbitrariedade do governo foi imediata. Nas ruas, renasceu o movimento estudantil. Passeatas e manifestações tomaram conta dos centros urbanos. O governo respondeu com violência, reprimindo duramente os movimentos de rebeldia.

Enquanto isso, o governo empreendia o combate à inflação, que se aproximava dos 100% ao ano, e incentivava os investimentos estrangeiros. A abertura para o exterior contribuiu para a consolidação de um modelo tipicamente exportador, gerando altas na balança comercial. O controle das linhas de crédito para o setor privado, a redução dos gastos públicos e a contenção dos salários também receberam prioridade. Esse plano ficou conhecido como Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg).

A aliança com o capital estrangeiro, notadamente o norte-americano, ficou claramente demonstrada com a revogação da Lei de Remessa de Lucros, aprovada pelo Congresso em 1 962, durante o governo João Goulart. A lei, que controlava a liberação da entrada, movimentação e saída de capitais estrangeiros do país, foi anulada com o propósito de incentivar o fluxo de capital externo para o país.

A política econômica incluía forte repressão aos trabalhadores. Para tal, foi criado o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em janeiro de 1 967, que extinguiu a estabilidade no emprego, permitindo uma maior rotatividade de trabalhadores, com baixos custos para o empresário.

A Constituição de 1946 sofreu reformas por meio do Ato Institucional nº 3, que estabeleceu eleições indiretas para governadores e prefeitos das capitais e cidades consideradas de segurança nacional. Em seguida, para aprovar um novo texto constitucional, o Congresso foi convocado para uma sessão extraordinária por meio do Ato Institucional nº 4.

A Constituição de 1967 aumentou ainda mais o poder do Executivo e limitou a autonomia dos Estados, enfraquecendo o princípio federalista. Além disso, foram promulgadas novas leis e assinados decretos executivos, dentre eles, um que submetia o Executivo a um planejamento de feitio militar. Por fim, foram publicadas uma severa Lei de Imprensa e a Lei de Segurança Nacional, destinada a facilitar a atuação dos órgãos de segurança do Estado contra os denominados inimigos internos.

Embora a nova Constituição determinasse que a escolha do Presidente da República ficaria a cargo do Congresso Nacional, na prática as coisas aconteceram de forma bem diferente. Na verdade, o nome do presidente era definido no interior da corporação militar — os parlamentares apenas sacramentavam a ordem vinda de cima.

 

Governo Costa e Silva (1967-1969)

Costa e Silva - "esperança" para quem?

Costa e Silva - "esperança" para quem?

O general Arthur da Costa e Silva teve como vice-presidente o ex-udenista Pedro Aleixo, um dos responsáveis pelo Manifesto dos Mineiros de 1 943, contra a ditadura varguista. O novo presidente, por sua vez, fazia parte da chamada “linha dura” do Exército e era defensor do nacionalismo. A princípio, discordou da política econômica implantada no governo anterior, que primava pela aproximação com os Estados Unidos e com o capital estrangeiro.

Costa e Silva demitiu todos os funcionários civis que ocupavam importantes cargos públicos, nomeando militares para substituí-los. As exceções se restringiram ao Ministério da Fazenda e ao do Planejamento, atribuídos respectivamente a António Delfim Netto e Hélio Beltrão. Os dois ministros iniciaram um projeto econômico que visava retomar o crescimento sem aumentar a inflação. A insatisfação dos trabalhadores foi um dos pontos dificultosos enfrentados na gestão de Costa e Silva, pois a política deflacionária implementada no governo anterior ocasionara a diminuição dos salários e reduzira o poder de compra das empresas de capital brasileiro.

Assim, as novas medidas incluíam o aumento da linha de crédito bancário para o setor privado e também o controle de preços, por meio da criação do Conselho Interministerial de Preços (CIP),que previa punições para os empresários que menosprezassem as instruções da instituição. E, para garantir sua política de combate à inflação, o governo fixou oficialmente os valores dos salários do setor público e privado.

Inicialmente, a nova política econômica trouxe resultados positivos, uma vez que o PIB (Produto Interno Bruto) alcançou um índice de crescimento entre 10 e l 1,2%. Iniciava-se então o período que ficou conhecido como “milagre econômico brasileiro”.

Os primeiros tempos do governo Costa e Silva foram marcados por forte reação da sociedade civil. Destacam-se, nesse período, as greves operárias de Contagem (MG) e Osasco (SP), em 1968. Os estudantes protestavam nas ruas, exigindo o retorno da democracia plena, a criação de mais vagas nas universidades públicas e a melhoria da qualidade do ensino. Também manifestavam repúdio ao acordo MEC-Usaid,que fora uma tentativa de introduzir o pagamento de mensalidades nas universidades públicas.

As táticas dos comícios relâmpago e das passeatas entusiasmavam os estudantes. Em 28 de março de 1968, realizou-se uma dessas manifestações no Rio de Janeiro. O protesto era contra a má qualidade e o preço elevado das refeições servidas no “restaurante do Calabouço”, destinado a alimentar estudantes sem recursos. A Polícia Militar chegou atirando e matou Edson Luís, um jovem de 16 anos. O rato abalou a opinião pública. O corpo de Edson foi velado na Assembléia Legislativa, e ao enterro compareceram cerca de 50 mil pessoas. No cemitério, os estudantes proferiram um juramento: “Neste luto, a luta começou”.

Após a morte de Edson Luís, as passeatas multiplicaram-se por todas as capitais. A seqüência de manifestações violentamente reprimidas em todo o país terminaria por despertar a indignação das classes médias do Rio de Janeiro, que organizaram uma gigantesca manifestação de repúdio ao regime: a Passeata dos Cem Mil, no dia 21 de junho de 1968.0 movimento contou com a participação de artistas, intelectuais, grupos de trabalhadores, parlamentares, jornalistas, professores e religiosos. Exemplos como o dos estudantes parisienses, em maio, mostravam que era possível colocar um regime conservador na defensiva.

O governo decidiu então ampliar os mecanismos de repressão, de modo a “acabar com os subversivos”.

Nos dias 2 e 3 de setembro de 1968, o jovem deputado Márcio Moreira Alves, do MDB da do Rio de Janeiro, usou a tribuna do Congresso Nacional para fazer seus discursos parlamentares convencionais.

No entanto, o procurador-geral da República pinçou trechos das falas do deputado e encaminhou os textos para os quartéis. Os oficiais, indignados, alegaram que o deputado havia abusado dos direitos individuais e políticos, praticando um “atentado à ordem democrática”.

O governo encaminhou ao Congresso Nacional um pedido de autorização para processar Márcio Moreira Alves, suspendendo sua imunidade parlamentar. Antes disso, alterou a composição da Comissão de Justiça, garantindo a maioria da ARENA. A estratégia surtiu efeito: a Comissão deu licença para punir o parlamentar. Contudo, no plenário, os deputados rejeitaram a sentença por 216 votos contra 141! Temendo a reação do governo, Márcio Moreira Alves decidiu exilar-se.

A resposta do governo veio numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1968. Nesse dia foi publicada uma das maiores arbitrariedades do período ditatorial: o Ato Institucional nº 5.

O novo ato delegou ao presidente poderes para fechar o Congresso Nacional e as assembléias estaduais e municipais, cassar mandatos, suspender direitos políticos por 10 anos, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade funcionários públicos e juízes, decretar estado de sítio e confiscar bens como punição por corrupção. O governo também passou a ter o poder de suspender o direito de habeas corpus em caso de crimes contra a Segurança do Estado e de efetuar o julgamento de crimes políticos por tribunais militares, sem recurso para os réus.

Mas o presidente não teve tempo suficiente para avaliar os efeitos do AI-5. Em agosto de 1969, Costa e Silva foi afastado do cargo por motivos de saúde, vindo a falecer em dezembro. Ajunta Militar que assumiu o governo durante a doença do presidente permaneceu no mandato até a realização de novas eleições. O vice-presidente, o civil Pedro Aleixo, também foi afastado, entre outras razões, por ter sido o único integrante da equipe de Costa e Silva que se negou a assinar o AI-5.

A falta de crédito na ação parlamentar, que se mostrava incapaz de barrar o avanço da ditadura, levou setores da esquerda brasileira a se lançar em ações guerrilheiras visando à derrubada do regime.

Nesse processo, a esquerda acabou se dividindo: o Partido Comunista Brasileiro (PCB),pró-soviético,desenvolveu uma resistência no interior do MDB e dos sindicatos; o Partido Comunista do Brasil (PC do B), alinhado com o pensamento do líder chinês Mao Tsé-tung, iniciou uma campanha de guerrilhas rurais, com escasso apoio camponês; outros grupos, como a Aliança Libertadora Nacional (ALN),a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares),o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Ação Popular, de orientação católica, desenvolveram a guerrilha urbana. Essas organizações agiram entre 1968 e 1974.

Ajunta Militar respondeu ao seqüestro com mais dois atos institucionais: um dava ao governo o direito de expulsar do país quem fosse considerado subversivo, e outro introduzia a pena de morte.

Durante o período Costa e Silva, para melhorar a eficiência dos mecanismos de repressão e controle da “ordem” foram criadas organizações como a Operação Bandeirante (Oban), composta por membros efetivos das Forças Armadas, da Polícia Política Estadual (Dops) e, mais tarde, Deops – Departamento de Ordem Pública e Social, da Polícia Federal, da Polícia Civil, da Força Pública e da Força Civil. A Oban também serviu de inspiração para a implantação, em escala nacional, de organismos oficiais que receberam a sigla DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna). Alguns desses órgãos eram financiados por empresários.

Esse intricado aparelho repressivo foi responsável pelo desaparecimento, morte e tortura de centenas de cidadãos brasileiros.

Em meados de outubro de 1969, o estado de saúde do presidente Costa e Silva chegara a um quadro de gravidade praticamente irreversível. Diante disso, a Junta Militar declarou vagos os cargos de presidente e vice-presidente. Novas eleições foram realizadas em 25 de outubro, pelo Congresso Nacional.

Para assumir a presidência da República, o nome do general Albuquerque Lima era o mais cotado entre a jovem oficialidade do Exército. Porém, a proximidade do candidato com políticos do MDB e com empresários civis motivou seu afastamento pela cúpula dos militares, sob a justificativa de que o presidente deveria ser um oficial graduado com quatro estrelas — ele só possuía três. O alto comando do Exército preferiu o general Emílio Garrastazu Médici.

 

O Governo Médici (1969 -1974)

Médici - falsas promessas

Médici - falsas promessas

No início da década de 1 970, o Brasil vivia o período mais duro e violento da ditadura militar. A censura estava institucionalizada e a tortura e os assassinatos tornaram-se práticas comuns dentro dos presídios. A violência era praticada por todos os lados. Os guerrilheiros, na maioria jovens, foram desmobilizados após o assassinato de dois de seus mais importantes líderes, Carlos Marighella e Carlos Lamarca. O único movimento de guerrilha que sobreviveu foi o do Araguaia, região localizada entre os estados de Goiás, Maranhão e Pará. Nesse local um grupo do PC do B, de orientação ideológica maoísta, conseguiu resistir por mais de três anos às investidas das Forças Armadas. A Guerrilha do Araguaia foi finalmente derrotada em 1975. Um dos sobreviventes é José Genoino, um dos mais importantes expoentes do Partido dos Trabalhadores (PT).

Com a grande imprensa silenciada, as notícias sobre o que acontecia nos porões da ditadura eram veiculadas exclusivamente pela imprensa clandestina. Muitos documentos sobre as práticas de tortura e outros horrores da época só existem graças à ação da Igreja Católica, que participou de movimentos de oposição à ditadura nas décadas de 1970 e 1980 e organizou um dossiê contendo registros daquele período.

O governo Médici destacou-se por ter sido o mais repressivo. Visando fortalecer o regime e encobrir o clima de terror instaurado no país, montou-se um aparato de propaganda que tinha como base a idéia da cooperação dos brasileiros para o engrandecimento da nação.

Foram forjados slogans ufanistas, do tipo “Você constrói o Brasil”, “Ninguém segura este país”, “Brasil, conte comigo” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, que despertavam euforia naqueles que acreditavam no progresso brasileiro.

O auge da campanha publicitária oficial foi atingido quando a seleção brasileira de futebol ganhou o tricampeonato na Copa do Mundo de 1970, disputada no México. O general-presidente e todos aqueles que lhe davam sustentação no poder transformaram o evento em uma “conquista do Estado brasileiro”, e fortaleceram-se com esse acontecimento. A música Pra frente Brasil, que se tornou uma espécie de hino da Copa de 1970, era repetido em todos os cantos:

“Noventa milhões em ação

Pra frente Brasil, do meu coração

Todos juntos vamos pra frente Brasil

Salve a seleção

De repente é aquela

Corrente pra frente,

Parece que todo o Brasil deu a mão

Todos ligados na mesma emoção

Tudo é um só coração…”

Dessa forma, o presidente mais violento do período militar também se tornou o mais popular. Sua imagem era polida por uma eficiente campanha de publicidade, que explorava, entre outras características, a sua paixão pelo futebol. Médici freqüentava estádios e fazia as vezes de torcedor entusiasmado, com o radinho de pilha grudado ao ouvido.

As torturas e a repressão permaneciam encobertas em meio ao clima de euforia coletiva. Eram poucos os brasileiros que percebiam o que acontecia nos porões da ditadura.A grande maioria da população estava “enfeitiçada” pelo desempenho da seleção de futebol.

Na tentativa de aquecer o mercado sem aumentar a inflação, Delfim Netto recorreu à ampliação da linha de crédito bancário ao setor privado. Ele também criou um conselho interministerial para controlar os preços e fixou valores para os salários dos empregados dos setores públicos e privados. Essa política surtiu efeitos rápidos: o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou índices de crescimento entre 10,0 e 11,2%. Foi assim que teve início o “milagre econômico”.

O Brasil tornou-se conhecido pelas grandes obras públicas, como a ponte Rio-Niterói, a hidrelétrica de Itaipu e a rodovia Transamazônica. O governo federal e os governadores de estado não mediram esforços para a viabilização dos projetos faraônicos, responsáveis pela imagem de uma nação emergente e gloriosa, que caminhava rapidamente rumo à grandeza industrial. A economia internacional foi favorável à política do “milagre econômico”. Parte do capital mundial excedente foi canalizada para o Brasil, por meio de empréstimos que fizeram a dívida externa brasileira bater na casa dos US$ 10 bilhões entre os anos de 1967 e 1972. Um dos pilares econômicos do governo foi o fortalecimento do setor estatal: entre 1 968 e 1 972, a participação do Estado na economia nacional passou de um quarto para um terço. Durante o governo Médici e, posteriormente, do general Ernesto Geisel (de 1974 a 1979), surgiram no Brasil quase trezentas empresas estatais.

O governo Médici criou também o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (lncra), o Plano de Integração Social (PIS) e o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). A oposição questionou a eficácia desses projetos, que consumiram milhares de dólares, tidos principalmente por investimentos externos.

Quando o general Médici assumiu a presidência, o país estava em pleno crescimento econômico, especialmente nos setores da indústria automobilística, da construção civil e da produção agrícola. Assim.o crescimento da economia brasileira durante seu governo não teve de milagroso. O “milagre econômico” sustentou-se sobre três pilares básicos: o arrocho salarial, os empréstimos externos e a repressão política. Os baixos salários e os recursos estrangeiros garantiram a expansão industrial. Tal crescimento começou a se desenhar m 1968, quando a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) alcançou a marca de 11, 2%. A partir de então, os números foram os seguintes: 1969, 10,0%; 1970 8,8%; 1971, 13,3%; 1972, 11, 7%; e 1973, 14,0%. A indústria automobilística se constituiu na vanguarda do processo de crescimento industrial, sendo acompanhada de perto pela construção civil.

No campo, o sistema de financiamento proposto pelo governo possibilitou a compra de equipamentos e implementos agrícolas a juros baixos. O mercado imobiliário também se expandiu, concedendo facilidades à classe média para a aquisição da casa própria; os shopping centers cresceram, com abundante oferta de novidades em produtos eletrodomésticos. A criação de um moderno sistema de crédito ao consumidor e a intensa propaganda de produtos e serviços pela televisão contribuíram para a incrementação do mercado interno. Isso beneficiou principalmente a classe média, que, bem remunerada e ansiosa para consumir, não atentava para os desmandos repressivos do regime.

 

O governo Ernesto Geisel (1974-1979)

Geisel - o inicio da abertura

Geisel - o início da abertura

Chefe do Gabinete Militar no governo Castello Branco, presidente da Petrobrás no governo Costa e Silva e ministro do Superior Tribunal Militar no governo Médici, Ernesto Geisel foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral (instituição composta por membros do Congresso e delegados das Assembléias Legislativas estaduais). A vitória de Geisel não agradou à “linha dura” — mas isso não quer dizer que o novo presidente fosse favorável à plena liberalização do regime.

Para disputar simbolicamente a “eleição” com Ernesto Geisel, o MDB lançou seus “candidatos”: Ulysses Guimarães para presidente e Barbosa Lima Sobrinho para vice. Embora soubessem que não teriam como vencer o pleito, ambos percorreram o país em “campanha”, e aproveitaram a oportunidade para denunciar as eleições indiretas, o estado de repressão, a falta de liberdade e o modelo econômico excludente.

O resultado das eleições não causou nenhuma surpresa. Geisel assumiu o poder num país descontente com o regime político, assolado pelas dificuldades econômicas e à beira de uma crise social. A conjuntura econômica internacional também era difícil naquele momento, em decorrência da crise do petróleo de 1973. Nesse contexto, a continuidade da ditadura exigia também algumas iniciativas políticas por parte dos oficiais e dos empresários que davam sustentação ao regime.

Foi durante a gestão de Ernesto Geisel que se iniciou o processo de abertura política, num estilo que o general definiu como “lento, gradual e seguro”. Na prática, a liberalização do regime, chamada de distensão, trilhou um caminho tortuoso, marcado por avanços e retrocessos.

O anseio da sociedade brasileira por reformas e mudanças ficou evidenciado nas eleições parlamentares de 1974, que deram ampla vitória às forças da oposição. Vitorioso nos principais centros urbanos, o MDB quase dobrou sua representação: de 87 deputados federais, saltou para 165, enquanto as forças da ARENA se reduziam de 223 para 199 deputados. No Senado Federal, o MDB passou de 7 para 20 senadores, ao mesmo tempo que a bancada da ARENA diminuta de 59 para 46 senadores. Os remanescentes da “linha dura” pressionavam o governo a frear a abertura política. Mas a pressão popular, pró-abertura, também era bastante forte.

Passada a hesitação inicial, o presidente Geisel, assessorado pelo seu chefe de Gabinete Civil, Golbery do Couto e Silva, deu um passo importante no processo de abertura política, ao afastar os militares identificados com a tortura e com a corrupção.

O receio de ver um novo triunfo do MDB nas eleições de 1978 levou Geisel a lançar o pacote de abril, em 1977. Assim, valendo-se do Al-5,o presidente fechou o Congresso e passou a governar por decreto. Dentre as novas medidas presidenciais, destacaram-se a reforma do sistema judiciário (Emenda Constitucional número 7) e a alteração da legislação eleitoral (Emenda Constitucional número 8), que, entre outras medidas, confirmou a eleição indireta dos governadores estaduais. Além disso, a Lei Falcão, baixada em 1976 e restrita às eleições municipais, estendeu-se às demais eleições. Por essa lei, os candidatos ficavam proibidos de aparecer ao vivo no rádio e na televisão durante a campanha eleitoral. A veiculação das candidaturas seria feita apenas pela apresentação do currículo e da fotografia. O mandato presidencial aumentou de 5 para 6 anos e as decisões do Congresso passaram a depender somente da maioria simples — metade dos votos mais um — para serem aprovadas. Por fim, um terço das cadeiras do Senado foram concedidas aos “senadores biônicos”, eleitos por voto indireto nas assembléias estaduais.

Diversas entidades, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira para o Progresso da Ciência, o Comitê Brasileiro pela Anistia, a Associação Brasileira de Imprensa, as Comunidades Eclesiais de Base e a UNE promoveram debates com participação expressiva da sociedade. No meio operário, a insatisfação acabou dando origem a diversas organizações, que brotaram dentro das fábricas, sob a liderança de trabalhadores como Luiz Inácio da Silva, o Lula.

A crise internacional obrigou o governo a criar o II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), tendo em vista a retomada do crescimento econômico por meio da expansão da indústria de base. Também se pretendia diminuir a dependência brasileira em relação aos países fornecedores de petróleo. Nesse momento, o Estado converteu-se no principal investidor econômico.

O plano deu bons resultados: os índices de crescimento econômico de fato assinalaram uma alta expressiva. Só que a dívida externa aumentou, em virtude dos empréstimos contraídos pelo governo.

 

O governo João Baptista Figueiredo (1979-1985)

Figueiredo - enfim, o último ditador

Figueiredo - enfim, o último ditador / Detalhe da foto: a criança se recusou a apertar a mão do presidente

O último general-presidente, João Baptista Figueiredo, tinha por tarefa dar continuidade ao lento processo de abertura política. O presidente encaminhou para o Congresso um projeto de anistia restrita e parcial, que foi repudiado por todas as correntes políticas que lutavam pela anistia ampla, geral e irrestrita. O projeto que foi aprovado em junho de 1979 beneficiava os acusados de crimes políticos mas não se estendia aos condenados por atentados e seqüestros políticos; atingia os cassados, mas estes continuavam inelegíveis; referia-se aos servidores públicos e militares punidos pelos Atos Institucionais e Lei de Segurança Nacional, mas subordinava sua reintegração à decisão das autoridades de cada setor; para os militares, a lei anistiava automaticamente os torturadores. Aos poucos, porém, o alcance da lei de anistia foi ampliado. Assim, muitos cassados puderam concorrer às eleições de 1982.

E os desaparecidos? Campanhas foram organizadas para descobrir o paradeiro de centenas de pessoas seqüestradas durante o regime militar. Ainda hoje existem dezenas de famílias sem notícias concretas de parentes que foram vítimas da repressão dos governos militares.

A reforma política implementada pelo Estado permitiu a volta do pluripartidarismo. Arena se transformou no Partido Democrático Social (PDS) e o MDB passou a se denominar Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Surgiram: PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), PDT (Partido Democrático Trabalhista), PT (Partido dos Trabalhadores) e o PP (Partido Popular), que se fundiu com o PMDB. Nas eleições de 1982, o PMDB e o PDT conseguiram eleger governadores em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O processo de abertura política não era aplaudido por toda a sociedade. A direita, ligada ao aparelho da repressão, inconformada com os últimos acontecimentos, decidiu partir para o terrorismo. Bombas foram colocadas em locais públicos como bancas de revistas, sedes de jornais da oposição, igrejas e até na sede da OAB, no Rio de Janeiro. O atentado mais sério foi o do Riocentro, no dia 30 de abril de 1981. Durante um evento que comemorava o dia do trabalhador, cerca de 20 mil pessoas assistiam a um show musical, quando uma bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A explosão causou a morte de um sargento e feriu gravemente um capitão.

Abriu-se um inquérito para apurar a autoria do atentado no Riocentro, mas, após quase três meses de investigação, foi declarado que os dois militares haviam sido vítimas de uma armação perpetrada pelos grupos de esquerda. O resultado do inquérito não convenceu ninguém: no fundo, todos sabiam muito bem que o grupo da “linha dura” do Exército estava em guerra contra a redemocratização do país.

Logo que assumiu o governo, João Figueiredo enfrentou uma crise ministerial que foi solucionada com a volta de Delfim Netto ao Ministério da Fazenda, em substituição a Mário Henrique Simonsen. Como um “superministro”, Delfim estabeleceu o III Plano Nacional de Desenvolvimento. Entretanto, a permanência da crise econômica mundial trouxe dificuldades para a economia brasileira, como a resistência dos bancos internacionais em conceder novos empréstimos, o aumento da dívida externa, a diminuição dos investimentos públicos em obras de infra-estrutura e a redução de créditos para o setor privado. O fantasma da recessão rondava o país.

A partir de 1983, as oposições lançaram a campanha pelas Diretas Já. O movimento consistia em reivindicar a aprovação de um projeto de lei de autoria do deputado federal Dante de Oliveira, que preconizava a realização de eleições diretas e livres para a Presidência da República em 1985. Comícios foram realizados em todo o país, as ruas tingiram-se de amarelo — a cor escolhida como símbolo da campanha — e personalidades importantes, como artistas, jornalistas, intelectuais e políticos de todas as facções de centro e de esquerda transformaram as Diretas Já num grito em uníssono pela liberdade e pela democracia. Apesar da forte mobilização, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados.

A derrota da Emenda Dante de Oliveira, em abril de 1984, frustrou a população num dia de black out nas principais cidades do país. Extrema coincidência ou não, as luzes se apagaram no Rio, em São Paulo, em Brasília… No dia seguinte, as pessoas saíram as ruas portando tarjas amarelas e pretas, num sinal de luto pela morte de mais um sonho de liberdade.

Restava a opção de eleger um presidente civil depois de tantos anos de arbítrio. A saída encontrada pela oposição foi a chamada “transição democrática”, ou seja: o lançamento de um candidato de consenso, que se opusesse ao candidato da situação. Assim, pela primeira vez desde o Golpe de 1964, a disputa se deu entre dois civis: de um lado, apoiado pelo PDS e pelo regime militar, estava o empresário e deputado federal Paulo Maluf, ex-prefeito e ex-governador biônico do Estado de São Paulo; do outro lado, estava o mineiro Tancredo Neves, candidato da Aliança Democrática, bloco que reunia os partidos da oposição (exceto o PDT, que no entanto votou em Tancredo, e o PT, que se negou a ser conivente com um pleito realizado em Colégio Eleitoral) e também a Frente Liberal, que congregava os dissidentes do PDS. Em 15 de janeiro de 1985, o peemedebista Tancredo Neves e o ex-pedessista José Sarney foram eleitos, respectivamente, presidente e vice-presidente da República.

O presidente eleito não chegou a ser empossado em razão de um câncer no intestino agravado por infecção hospitalar que o levou à morte em 21 de abril daquele mesmo ano. O fato gerou comoção nacional: a coincidência de datas — 21 de abril é também a data de morte de Tiradentes — reforçava a aura de mártir emprestada a Tancredo. Na data marcada para a posse, 15 de março de 1985, a faixa presidencial foi entregue ao ex-líder da Arena e ex-presidente do PDS, José Sarney. Nasceu assim um novo (e conturbado) período para o povo brasileiro: a Nova República.

 

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