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AS “CAVEIRAS E OSSOS” DA POLÍTICA DOS ESTADOS UNIDOS

outubro 2, 2008 1 comentário

Por Paulo Alexandre Filho
Texto originalmente publicado no site Duplipensar em 2005. 

 

O CÓDIGO E A ACADEMIA DO PODER

Sede da ordem Skull and Bones

Sede da ordem Skull and Bones

Em New Haven, cidade estadunidense localizada no estado de Connecticut, funciona um dos mais respeitáveis centros universitários do mundo, a famosa Yale University. Instituições de ensino como Yale tradicionalmente respondem pela formação universitária da elite dos EUA e não há de ser estranho para ninguém a evidência de que muitos dos egressos da universidade acabem constituindo-se como notáveis figurões das ciências, da política ou também das artes de fazer dinheiro, afinal, além da altíssima e qualificada formação obtida, um diploma emitido por Yale confere status, respeitabilidade e até poder ao seu felizardo contemplado. Além de suas qualidades acadêmicas, em Yale ronda um mistério em torno de uma enigmática instituição estudantil. A irmandade acadêmica Skull and Bones é mais que um grupo de afiliação estudantil, trata-se de uma verdadeira ordem secreta cuja atuação suscita especulações das mais diversas e alimenta uma mística que vai muito além do campus, atingindo patamares tão amplos quanto insólitos a exemplo das maquinações pela ação do governo dos EUA sobre o Golfo Pérsico. O fato é que os integrantes efetivos e afetivos da Skull & Bones, os bonesmen, atuam de maneira a alimentar a mística e a preocupar os especuladores e propagadores das teorias de conspiração.

Impresso contendo lista dos membros da Ordem, incluindo o nome de Prescott Bush, pai e avô de dois presidentes dos EUA.

Impresso contendo lista dos membros da Ordem, incluindo o nome de Prescott Bush, pai e avô de dois presidentes dos EUA.

A Skull & Bones é um bastião da elite estadunidense, reduto da tradição cultural e política da fração protestante branca e anglo-saxã (a velha identificação conhecida formalmente nos EUA como WASP – White Anglo Saxon Protestant). Sua reputação é muito mais significativa que das demais agremiações secretas que funcionam em Yale (Scroll & Key, Book & Snake, Wolf’s Head, Eliahu e Berzelius), todas, contudo, seletas ordens elitistas que recrutam para os seus quadros os indivíduos mais promissores da universidade. Em termos competitivos, provavelmente, a única entidade de Yale capaz de impor uma concorrência à Skull & Bones é a Scroll & Key, e, em termos atuais, ambas possuem, respectivamente, identificações predominantes ao Partido Republicano e ao Partido Democrata, reproduzindo a polarização entre conservadores e liberais. Harvard e Princeton, que formam juntamente com Yale o grupo de elite das instituições superiores dos EUA, também possuem suas influentes ordens secretas, contudo, nenhuma delas possui tamanha atuação efetiva pelos subterrâneos e superfície da política estadunidense. 

Desde sua fundação, em função da alta seletividade da Skull & Bones, que recruta anualmente apenas 15 membros, cerca de 2.500 bonesmen tiveram o privilégio de ostentar tal identificação e hoje em dia há em torno de 600 deles vivos, mas em geral ocupando importantes posições. Tradicionalmente não eram admitidos na ordem membros que não preenchessem os requisitos elementares prescritos pela composição daquilo que se compreende como critérios para a identificação da classificação social elitista da facção WASP da sociedade estadunidense, mas os ventos liberais e a política da inclusão forçaram a admissão de judeus, negros e também de descendentes de estrangeiros bárbaros, afinal, já há bonesmen de ascendência chinesa. Este é um sinal de modernidade que é enriquecido pela mais recente iniciativa de admitir a afiliação de homossexuais. Mas, apesar destas concessões liberais, a Skull & Bones mantém critérios seletivos quanto ao universo de candidatos a prováveis irmãos de ordem. Um requisito inicial é a própria educação secundária, pois há preferência por candidatos egressos de tradicionais e prestigiosas High Schools que atendem exatamente a jovens abastados. Além do mais, a seleção leva em consideração a vivência aventureira do candidato. Pretendentes que já ousaram a enfrentar selvas africanas, intempéries sul-americanas, desertos e riscos eminentes no Oriente conquistam valiosos pontos nesta fase de pretensão à filiação. Os candidatos são criteriosa e severamente avaliados pelos membros sênior da ordem e submetidos a testes e entrevistas que buscam aferir as potencialidades e capacidade integrativa dos candidatos ao corolário e ideário da Skull & Bones. 

Especula-se que a Skull & Bones inspira-se na tradição maçônica européia (altamente influente no Brasil do Século XIX). Sua cerimônia de iniciação é marcada por uma simbologia mórbida, mas curiosa. Os iniciantes, despidos, deitam-se num caixão que é carregada pelo salão da sede da irmandade. Eles reverenciam a insígnia da ordem (um crânio sobre dois ossos cruzados acima da inscrição “322″, alusiva ao ano de 322 a.C., ano em que a deusa Eulogia apareceu no céu após a morte de um orador grego. A crença diz que ela retornaria em 1832) e depois saem do ataúde mortuário como sinal de que estão marcando seu renascimento para um novo mundo iluminado, guardando, cada um, em um local específico, um osso entalhado com o nome dos novos iniciados. O ato cerimonial de iniciação é cercado por gestos e atos simbólicos que inspiram controvérsias e polêmicas – dizem que o velho Prescot Bush, pai do ex-presidente George Bush e avô do atual presidente dos EUA, George W. Bush, todos eles bonesmen, usurpou o túmulo do legendário herói indígena Jerônimo para roubar seus ossos, que teriam servido para um dos rituais da ordem secreta. Dizem mais que as controvertidas histórias sobre os rituais da ordem são também alimentadas pelos próprios integrantes do grupo para manter o mistério a respeito das atividades ritualísticas desenvolvidas na cripta da Skull & Bones no campus de Yale. 

Rituais à parte, o fato é que os bonesmen assumem o compromisso de seguir determinados princípios como a dedicação ao engrandecimento da nação conforme o receituário prescrito pelo treinamento ideológico prestado pela ordem. Mas eles lançam mão de certos artifícios retórico-discursivos nos quais são instruídos e hábeis para exercer suas atribuições segundo os ideais da Skull & Bones. É este o caso do emprego deliberado da discrição quase enigmática quanto a exposição de seus intentos e a ambigüidade normalmente presente nas peças retóricas expressas pelos irmãos de Yale. Mas engana-se quem imaginar que estas características retóricas são defeitos no processo de construção e apresentação dos pensamentos e atos elaborados por estes hábeis praticantes, pois os bonesmen são habituados a praticar seus métodos de discrição e ambigüidade como instrumentos de exercício do controle e domínio (fundamento que chamam de “wielding”). Aquilo que um bonesmen fala é marcado por noções subliminares que normalmente não ficam claras para um interlocutor desavisado.

O processo didático da construção de um bonesmen é sutil e decisivo. Nos tempos de academia, um bom integrante da Skull & Bones precisa exercer atividades desportivas com finalidades relativas ao exercício das habilidades de liderança, pois um bonesmen é, antes de tudo, um líder. Não há de se estranhar que dois dos esportes populares nos EUA, o baseball e a sua versão de futebol inspirada no rugby inglês são experimentos desportivos engendrados por bonesmen. Em esportes coletivos o processo de aprendizagem das competências dos irmãos de Yale é bastante exercido. O bonesmen Gorge Bush pai, embora não tenha sido um habilidoso jogador de baseball, foi capitão da equipe universitária de Yale. Guiar equipes e comandar vitórias é uma habilidade comum aos esportes coletivos, mas também é uma capacidade fundamental em uma espécie mais drástica de competição: a guerra. Nos ensinamentos difundidos no processo de formação da Skull & Bones admite-se que embora as idéias tenham a capacidade de transformar verdadeiramente a história, quase sempre a guerra acaba sendo empregada para realizar este fim. 

Jovens membros da ordem

Jovens membros da ordem

A Skull & Bones difunde um código de postura, conduta e filosofia que bem representam o senso puramente WASP do segmento elitista dos EUA. Mas este código não é universal, ao contrário, é segmentado exatamente porque é elitista. Quando comparamos códigos, o que vemos na Skull & Bones é bem distinto daquilo que se percebe, por exemplo, nas normas de conduta do código samurai do Bushido japonês, que valoriza a honra entre os guerreiros contendedores e preconizou uma visão eminentemente ética e moral do mundo. O código Skull & Bones preconiza a noção de que aquilo que não representa é algo simplesmente inferior, isto é, a própria relação à excludente identificação do segmento da elite que representa (uma elite dentro da identificação WASP) por si já determina a diferença entre os dois códigos.

A visão Skull & Bones na política estadunidense é de notável influência, já que muitos de seus integrantes tomaram parte da vida pública do país desde os idos dos fins do século XIX. Esta visão típica dos bonesmen sobre a condução dos EUA não é assunto que deixe de merecer ser notado, sobretudo, quando mais um de seus pares ocupa a presidência do país, após uma reeleição disputada contra um adversário que também ostenta a condição de irmão da ordem de Yale (assim como Goerge W. Bush, o democrata John Kerry também foi forjado nas fileiras da Skull & Bones). 
 

O MESTRE

O mestre Stimson

O mestre Stimson

George W. Bush é membro da Skull & Bones assim como seu pai, que também governou os EUA e meteu o país numa onerosa guerra no Golfo Pérsico. Bonesmen são tradicionais na família Bush, pois seu avô e um outro tio paterno também passaram pelo ritual de renascimento celebrado em Yale, logo, há de se perceber que a lógica que norteia as ações de Bush tem influências que partem de seu berço de constituição de valores – a própria família. O jovem George Walker Bush, portanto, já possuía um promissor retrospecto para integrar a entidade em cujas fileiras já militaram outros de seus entes relativos, isso além de ser um autêntico representante da ordem encarnada na noção de WASP. 

A tradição da ordem Skull & Bones na Casa Branca não é recente. A ação política dos bonesmen manifestou-se de maneira a influir na adoção de caminhos que se coadunavam com o espírito e o código da Skull & Bones. O presidente William McKinley sofrera pressões da ordem em função de sua tímida postura de política externa. Sob pressão dos iluminados homens de Yale, seu governo decidiu adotar uma postura mais ofensiva frente às nações “inferiores” e, em 1898, agiu sobre Cuba, inaugurando uma já tradicional relação de amor e ódio entre as duas nações. Estava marcada assim uma fase expansionista sobre nações estrangeiras. Com a guerra contra os latino-americanos hispânicos a relação da Skull & Bones com o Partido Republicano teve também seu início. Na convenção republicana de 1900, os bonesmen ascenderam ao controle do partido e impuseram a McKinley a aceitação de Theodore Roosevelt como seu vice-presidente no pleito nacional que se aproximava. Em 1901 McKinley foi assassinado durante uma viagem pelo estado de Nova York e Teddy Roosevelt foi então conduzido ao governo dos EUA como primeiro bonesman a governar o país. Seu sucessor, William Howard Taft, também era seu irmão da Skull & Bones.

Uma grande referência política dentre os bonesmen foi o ideólogo e conselheiro Henry Lewis Stimson, cuja atuação e influência lhe valeram o título de “mestre bonesman”. Dizem que durante o processo de tomada de decisão pela invasão ao Iraque, em 1991, Bush I dedicou-se, na tranqüilidade do Camp David, a reler uma biografia de seu ídolo bonesman e enquanto seu conselho de analistas deliberava sobre a forma de ação contra o Iraque por ocasião da crise do golfo, quando o Kwait foi invadido por ordem de Saddan Hussein, o presidente já possuía uma posição formada e favorável ao ataque. Os ensinamentos de Stimson foram valiosos para esta decisão. 

Stimson ingressou na Skull & Bones em 1888 e prestou seus serviços a sete dos ocupantes da Casa Branca: Theodore Roosevelt, William Howard Taft, Woodrow Wilson, Calvin Coolidge, Herbert Hoover, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, cumprindo uma sólida carreira de articulador, consultor e integrante do staff governamental estadunidense. Em seu legado de atuação está a supervisão do Projeto Manhattan, cujo resultado foi o desenvolvimento tecnológico e estratégico das bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki no final da Segunda Guerra Mundial. Anos antes, quando ocupava a Secretaria de Estado no governo Hoover (1929-1933), atuou nas articulações que impuseram a redução das forças ofensivas da Marinha Imperial Japonesa durante a Conferência Naval de Londres. Foi um dos arquitetos dos provocativos planos de restrições ao Japão que acabaram por influenciar o ataque que as tropas nipônicas fizeram contra a base estadunidense em Pearl Harbor, situação que provocou o ingresso dos EUA na guerra. Contanto pontos em seu currículo de serviços prestados, constam sua decisiva participação no desenvolvimento da idéia da criação dos campos de aprisionamento de japoneses e nisseis em território estadunidense durante o governo de Franklin Roosevelt, além de ter desenvolvido um plano, felizmente não executado, de bombardeio a Kyoto, um dos principais e tradicionais centros urbanos japoneses, como ultimato ao Japão pela rendição. Uma cartada de mestre atribuída a Stimson foi a decisão de preservar o trono do império japonês sob Hiroito, que não fora deposto por uma decisão estratégica que viabilizaria maiores condições de influência dos EUA nos planos de reconstrução e realinhamento do Japão no pós-guerra. Além de arquitetar o projeto de trilha a ser seguida pelo Japão derrotado, Stimson também teve forte atuação nos bastidores do plano de ocupação, reestruturação e ordenamento da Alemanha. A notável experiência de Stimson e sua visão utilitária do emprego da influência política e poderio militar dos EUA serviram como inspiração para Bush I, que decidiu levar a lição de seu mestre como ensinamento prático para sua decisão pela guerra contra o Iraque.

Diferentemente de seu discípulo presidencial, Stimson não provinha de um clã de bonesmen, ele ascendeu à ordem por “merecimento” e pelo reconhecimento de suas habilidades naturais e talento indiscutível pela atuação política pela grandiosidade dos EUA. Ele costumava creditar à Skull & Bones uma grande importância em sua formação e conforme seu biógrafo Geoffrey Hodgson, os tempos de vivência e aprendizado na entidade corresponderam “a experiência educacional a mais importante em sua vida”. Stimson foi admitido como bonesman mesmo sem ter origem rica, embora seus antepassados tenham sido alguns dos pioneiros puritanos na colonização dos EUA, ainda assim ele era um autêntico WASP. Em Yale seu espírito competitivo era uma de suas marcas a tal ponto que afirmava que “a idéia de um esforço para prêmios, foi sempre um dos elementos fundamentais de minha mente e eu mal posso conceber o que seria de meus sentimentos se eu fosse posto sempre em uma posição ou em uma situação na vida onde não houvesse nenhum prêmio pelo qual me esforçar”. Este espírito competitivo foi praticado também no extremo: já em uma idade amadurecida, aos 44 anos, Stimson aderiu ao Exército e tornou-se combatente na Primeira Guerra Mundial mesmo que já tenha acumulado experiência em sua vida na advocacia e no mundo da política em Washington e ganhou sua fama com o apelido sugestivo de “O Coronel”. O político e arquiteto de guerras experimentou a vida de combatente nas forças expedicionárias estadunidenses na Europa. 

No período que antecedeu a Segunda Guerra Stimson comandava um batalhão próprio de bonesmen em Washington em seu Departamento de Guerra. O grupo chamado de “Jardim da Infância de Stimson” era composto pelo alto staff dos arquitetos da participação dos EUA na guerra O grupo era formado por personalidades como John McKoy, secretário-assistente de Estado e posteriormente comissário dos EUA na Alemanha pós-guerra, Robert Lovett era o assistente imediato de Stimson, com quem aprendeu a atuar nos bastidores da política até tornar-se um dos principais e influentes assessores de John Kennedy, Harvey Bundy, outro de seus assessores de primeira linha, era um bonesman fiel ao seu líder e juntara ao grupo dois de seus filhos, McGeorge e William Bundy, também bonesmen, à equipe de assessores e coordenadores de guerra sob o comando de Stimson. O “Jardim de Infância” também era integrado por Dean Acheson, também um de seus preferenciais assistente e futuro conselheiro e Secretário de Estado no governo Truman (Acheson não era bonesman, mas era membro de outra fraternidade secreta de Yale – Skroll & Key) e contava ainda o grupo com a participação do general George Marshall, chefe de comando do Exército durante a Segunda Guerra e também futuro Secretário de Estado de Truman. Este grupo de ideólogos da atuação estadunidense na guerra teve seu núcleo conhecido como “Círculo Stimson-Marshall- Achelson” e seus integrantes eram figuras-chave do staff político durante a guerra e também no processo de implementação dos planos de reconstrução e alinhamento do pós-guerra como iniciadores das estratégias de isolamento do bloco soviético, sendo então pioneiros na estratégia de implantação da Guerra Fria, incluindo o processo fomentador da intromissão militar estadunidense na Coréia.

Stimson morreu em 1950, contudo, sem conseguir levar adiante a influência de seu grupo sobre a condução política da Casa Branca e seus discípulos do “Jardim de Infância” foram aos poucos tendo sua influência declinada. Já em 1947, com a Lei de Segurança Nacional, o Departamento de Guerra fora reestruturado como Departamento de Defesa, constituído por uma burocracia civil que viria posteriormente a abrigar muitos membros da Skull & Bones e Robert Lovett, por exemplo, viria a assumir o comando do Departamento em 1950. A lei de 1947 também criou a CIA (Central Intelligence Agency) como organismo que sucederia o núcleo de estratégia (OSS – Office os Strategic Service) que vigorava durante o período da guerra e posteriormente as atribuições do grupo de coordenação política que também funcionava sob o comando de Stimson passaram a ser exercidas pela CIA. A Agência de Segurança Nacional (NSA) também foi criada neste período subordinada também ao Departamento de Defesa, ampliando o espectro da rede de controle e investigação do Estado. Estas agências tornaram-se redutos de atuação de bonesmen ao ponto em que a imagem da CIA e da Skull & Bones passaram a ser freqüentemente associadas uma a outra.

A forte influência dos bonesmen na estrutura da CIA é apontada como um dos legados de Henry Stimson, pois o OSS, organismo antecessor da CIA, fora inicialmente constituído por quadros técnicos e funcionais forjado na Skull & Bones e esta relação entre os “iluminados” de Yale e o serviço secreto institucional permaneceu ativa. 

 

PRESIDENTES DA ORDEM

Durante a presidência de John Fitzgerald Kennedy (a quem o historiador britânico Eric Hobsbawm qualifica como “o presidente mais superestimado dos EUA”), os irmãos de Yale desfrutavam de grande prestígio e influência. Diversos e experimentados bonesmen que integravam os mais próximos escalões da administração JFK constituíam também um grupo que adotou uma obcecada vontade de investir militarmente sobre o longínquo Vietnã. Era uma postura que contava com o desacordo da profética advertência do general Douglas MacArthur, conselheiro militar de JFK, que repetia a quem quisesse ouvir que era um erro o envolvimento dos EUA em uma guerra na Ásia. As conversas reservadas com MacArthur fizeram com que Kennedy tivesse sérias dúvidas a respeito de uma ação militar nas selvas chuvosas do país de Ho Chi Min, fato que o levou a protelar qualquer decisão a esse respeito. Sua morte, contudo, abriu caminho para que os intentos pela guerra fossem por fim executados por Lindon Johnson que fora o sucessor de JFK e, como muitos dos presidentes dos EUA, também teve nos arredores do Salão Oval uma forte participação de assessores da Skull & Bones. 

De uma maneira geral, contudo, os bonesmen andavam divididos em relação à guerra. Dentre os descontentes estava McGeorge Bundy, que deixara o governo Johnson, passando a apoiar e financiar o movimento anti-guerra através dos fundos da Fundação Ford, entidade que então passou a presidir. Bundy, que integrou o “Jardim de Infância” de Henry Stimson, acabou tomando parte de uma ala de bonesmen a posicionar-se critica e combativamente contra a guerra do Vietnã, enquanto um outro segmento da irmandade mantinha-se aliado à noção de que a guerra deveria ser travada até o fim – embora o “fim” da guerra não tenha sido aquele que idealizavam. O tempo da geração de bonesmen formada ao redor de Stimson havia chegado ao fim quando Richard Nixon ascendeu ao poder e consagrou a eminência-parda encarnada na figura de Henry Kissinger em cuja atuação manteve uma barreira à influência da Skull & Bones dentro da Casa Branca. Ainda assim, há quem impute aos bonesmen, sempre atuantes nas instâncias da CIA, uma grande participação no processo de derrubada do Nixon através do escândalo de Watergate. 

Gerald Ford assumiu a presidência após a derrocada de Nixon em 1974 e os bonesmen passaram a ensaiar o seu retorno. Kissinger e seus aliados começaram a perder espaço. James Schlesinger foi substituído por Donald Rumsfeld como Secretário de Defesa e William Colby, diretor da CIA, perdeu seu cargo para George Bush. Os bonesmen estavam mesmo tentando recompor suas tradicionais posições na Casa Branca, mas a eleição de Jimmy Carter, em 1976, impôs uma frustrante interrupção em seus planos. O retorno teve que esperar e ser procedido de forma lenta e gradual. Bush retornou às raias do governo como suplente presidencial do canastrão Ronald Reagan entre 1980 e 1984 e então articulou sua própria ascensão ao cargo de maior importância política do mundo. Juntamente com ele, a Skull & Bones retornou à Casa Branca de maneira tão confortável quanto nos tempos de Stimson. 

Durante o governo de Bush I a velha Skull & Bones recompôs suas posições e executou um de seus principais passatempos – a guerra. Especula-se que a tática empregada na motivação da invasão ao Iraque em 1990 teve relação de semelhança ao que se dera na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial quando o Japão, segundo os analistas-especuladores, foi praticamente colocado na posição de ter que atacar os americanos em Pearl Harbor. O estratagema empregado foi lançar uma isca a ser fisgada pela presa. No caso da Guerra do Golfo a isca teria sido o Kwait, mas o propósito da guerra teria sido muito mais abrangente do que a simples defesa do país atacado pelo Iraque. Levou-se em consideração o domínio da região produtora de petróleo no Golfo Pérsico e também o controle dos preços desta preciosidade subterrânea no mercado internacional. 

Nem tudo estava tão perfeito assim para os belicosos bonesmen de Bush I, afinal, democrata Bill Clinton sobrepujou o então candidato à re-eleição e impôs um novo intervalo na relação da Skull & Bones com a Casa Branca. O governo Clinton caiu em desgraça por razões não-políticas. Clinton, sua incansável libido e apreço por sexo com estagiárias escandalosas acabaram contribuindo para que os bonesmen encontrassem mais uma oportunidade de retornar ao poder. Os democratas tentaram manter-se no governo indicando o sem-graça Al Gore para suceder Clinton, mas o clã Bush e os republicanos ofereceram como opção um trapalhão George W. Bush, herdeiro político de Bush I. A eleição foi cômica e Bush II venceu sem ter vencido. Os bonesmen retornaram ao poder. 

Bush II teve a oportunidade de lançar-se numa outra guerra e mais uma vez tomando um acontecimento dramático como estopim – o famigerado 11 de setembro – a desencadear toda a ação bélica capitaneada pelos mesmos intentos predatórios que consagraram a Skull & Bones. A guerra contra o terror, além da balela de encontrar as sempre inexistentes “armas de destruição em massa” sob o controle de Saddan Hussein – outrora aliado dos bonesmen da Casa Branca – foi empregada como justificativa ao ataque contra o Iraque numa repetição grosseira da guerra que já foi desenhada pelos arquitetos da primeira Guerra do Golfo. 

Os democratas tentaram combater Bush usando “fogo contra fogo”, indicando o senador ex-combatente John Kerry, um bonesman das fileiras anti-Bush, para disputa do processo sucessório pela Casa Branca. Tentou-se, talvez, instaurar um ambiente de divisionismo entre os bonesmen em torno do tema central da eleição – a guerra. A divisão entre os irmãos de Yale já havia sido evidenciada por ocasião da Guerra do Vietnã, quando os bonesmen anti-guerra posaram de heróis pacifistas, mas desta vez a eleição de Bush II, apesar da torcida contrária de boa parte da opinião pública internacional que se preze, acabou sendo mesmo inquestionável. 

Bush II segue seu mandato rodeado por seus falcões e seus irmãos da Skull & Bones e fazem um governo, no mínimo, complicado.

ANTES DO GOLPE – A VITÓRIA DAS “FORÇAS OCULTAS”

Por: Paulo Alexandre Filho
Texto originalmente publicado no site Duplipensar em 2004 por ocasião do 40º aniversário do Golpe Militar

AGITAÇÃO POLÍTICA E ILUSÃO PROGRESSISTA

O presidente João Goulart e Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul

O presidente João Goulart e Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul

Forças ocultas sussurraram nos ouvidos presidenciais do imprevisível Jânio Quadros que a sua renúncia, uma apelação golpista, acabaria fortalecendo suas posições no poder. Nem o povo nem o Congresso se iludiram quanto as suas intenções misteriosas e Jânio acabou entrando para a História como o pivô de uma das mais graves crises políticas que o Brasil já viveu. Da renúncia, em 25 de agosto de 1961, ao Golpe de 1º de abril de 1964, se instalou um clima politicamente convulso no país com a colisão entre os posicionamentos progressistas e a as forças conservadoras de sempre, sendo a “revolução” verde-oliva o resultado imediato mais grotesco e anti-democrático destes conflitos.

O então Vice-Presidente João Goulart deveria legalmente assumir as chefias de Governo e Estado como legítimo Presidente da República, mas seu governo já teve um início incomum, pois, na tentativa de limitar as prerrogativas presidenciais, o Congresso Nacional realizou uma das grandes proezas históricas da irracionalidade política brasileira: desprezando que o país possuía uma Constituição e que os Poderes a ela deveriam seguir, foi imposto um regime parlamentarista improvisado que foi, pelo bem da legalidade, posteriormente derrubado pelo plebiscito de 6 de janeiro de 1963. Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas, buscou imprimir uma série de medidas que desagradaram as vontades dos setores conservadores e reacionários, cujos interesses geralmente nortearam as políticas governamentais. Além de impor o monopólio estatal para importação de petróleo e regulamentar o fluxo de remessa de lucros ao exterior por parte das multinacionais, Goulart buscou manter uma política internacional mais autônoma, o que poderia alarmar aqueles que tinham receios a respeito de suas supostas relações com o comunismo numa época na qual imperava o domínio da Guerra Fria sobre o alinhamento das “nações periféricas” entre os dois pólos antagonistas – EUA e URSS.

O país se agitou durante o Governo Jango. O processo de democratização acentuou a politização dos atos públicos que se espalharam pelas ruas das principais cidades brasileiras. Verificou-se o fortalecimento dos organismos de representação dos movimentos trabalhistas por meio da atuação de entidades como o Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT), o Pacto de Unidade e Ação (PUA), o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e das centrais que congregavam os trabalhadores rurais, cuja sindicalização somente foi regulamentada em junho de 1963. O movimento dos estudantes esteve igualmente ativo e solidário a qualquer causa que, mesmo romanticamente, tentasse servir como via de libertação para o Brasil – eram tempos em que a IV Internacional e seu viés trotskista seduziu jovens em nome da aventura revolucionária. Os temíveis comunistas voltaram a atormentar seus perseguidores e Cuba tornou-se uma espécie de “Paraíso na Terra”, um lugar onde se podia viver em liberdade do tenebroso capitalismo e experimentar a grandeza do socialismo.

Como agitação popular sempre foi encarada como sinônimo de perigo e subversão, então, os vigilantes senhores zelosos pela integridade de suas posições ameaçadas por este clima de mobilização que se instalou como uma praga no país, resolveram que alguma resistência ou coisa pior precisava ser executada com certa urgência. A tentativa de implodir a ascensão dos subversivos contou com apoio financeiro norte-americano através da Aliança para o Progresso e com o suporte o de endinheirados colaboradores nacionais que, através do Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD, distribuíram bastante capital para a cooptação de bases no movimento social e financiamento de campanhas políticas. Os conservadores passaram a articular também os seus próprios movimentos de massa com os apoios de grupos como a hedionda Sociedade em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (a TFP) ou a grotesca Frente Patriótica Civil-Militar. O ápice deste ativismo de extrema-direita foi a realização da incrível “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

Jango, o ícone-mor do colapso populista, buscou canalizar o furor dos movimentos sociais parar o seu lado, buscou encampar as suas Reformas de Base e nos seus últimos dias de governo participou do apoteótico comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ocasião na qual fez questão de anunciar o lançamento de seu plano de reforma agrária: o Decreto de 13 de março de 1964, que declarava as terras que ladeavam as rodovias federais, ferrovias e terras que contaram com benefícios bancados pela União cumpririam sua função social, sendo então destinadas a uma distribuição entre os trabalhadores sem terras. Os progressistas, os “agitadores” e os sonhadores confiavam na idéia de que aquele clima de efervescência política inspirava um estado favorável à concretização de seus intentos. O eufórico Luiz Carlos Prestes chegou a afirmar, um mês antes do golpe, que os comunistas já estavam no poder. Nos instantes anteriores à queda de Jango, a CGT articulou uma greve geral no Brasil como forma de pressão contra os grupos que se opunham às reformas. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) declarou, em nota do 31 de março de 1964, dia em que os conspiradores e golpistas acertavam o assalto ao Poder, que os trabalhadores não podiam permitir que as reformas propostas por Jango fossem perturbadas por forças reacionárias.

Mas já não havia mais reformas a defender, pois já não havia mais Governo Jango. O “Hamlet dos Pampas” foi derrubado pelos conspiradores sem maiores alardes. Os golpistas devem ter cansado do espetáculo de radicalização ideológica, da farra dos agitadores e do otimismo dos comunistas. O sonho acabou.

Dizem que há três maneiras de lidar com os problemas: a maneira certa, a maneira errada e a maneira dos militares. A maneira militar de lidar com problemas políticos costuma ser isenta de parâmetros racionais ou valores democráticos. O negócio é simples: guerra é guerra, inimigo é inimigo e identificado o inimigo, proceda-se o ataque. Os bravos militares acorreram aos apelos patrióticos dos conspiradores civis (sendo muitos deles homens de execráveis comportamentos políticos, como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda ou Adhemar de Barros, governadores dos três mais influentes Estados brasileiros – Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente). O Exército, como já havia notado Antonio Callado, era o efetivo e verdadeiro partido político brasileiro. Se os generais, que não são eleitos pelo povo, decidem não admitir um governo, seja ele de quem for, eles simplesmente decidem dar-lhe um fim. Já não haviam acolhido com boa vontade a posse de Jango, mas resolveram pagar para ver. A paciência bélica da caserna se esgotou e próprios militares decidiram tomar o controle do governo. Enjoaram dos civis.

Há quem esteja plenamente convicto de que no período imediatamente anterior ao Golpe Militar o Brasil viveu uma experiência ardentemente progressiva, um surto de inspiração revolucionária plenamente estabelecido. Mas esta convicção talvez não resista ao confronto com os fatos. Ocorre que radicalização dos movimentos sociais organizados, ao contrário de beneficiar o Governo Jango, acabou o desestabilizando e poucos de seus aliados possuíam uma apurada percepção de que o governo trilhava por um campo minado – não haviam captado os sinais oferecidos pelas tramas políticas que estiveram ligadas ao processo de imposição do parlamentarismo “anti-constitucional” como condição para a admissão de Jango como Presidente. A situação de Jango era insustentável e não havia um suporte firme o bastante para impor uma resistência ao golpe. O Governo Jango desmantelou-se como um castelo de cartas. As resistências ao funcionamento das Reformas de Base não seriam impostas apenas no plano retórico da discordância por declaração e a prova cabal da inconsistência de solidez dos progressistas foi a forma fácil como deixaram o poder, sem qualquer resistência ou apoio.

O dia em que o Brasil acordou com o anúncio de que o governo havia sido deposto por uma quartelada foi o nosso grande e inesquecível dia como uma legítima “República de Bananas”, identificação típica jocosamente atribuída à lastimável tradição latino-americana de apelo a golpes de Estado, prática que entre nós já foi bastante vulgarizada.

SEMEANDO A REVOLUÇÃO

Deu no New York Times, mais importante jornal dos EUA: “Os componentes de uma situação de revolução tornam-se cada vez mais visíveis na vastidão de um Nordeste brasileiro assolado pela pobreza e perseguido pela praga da seca”. Era final de outubro de 1960 quando o correspondente norte-americano Tad Szulc percorreu Pernambuco tomando notas da situação, entrevistando pessoas e colhendo dados a respeito de uma presumível “revolução” que pudesse estar em marcha no Nordeste. Sua investigação resultou em reportagens que foram publicadas no mais conhecido e influente jornal dos EUA e a repercussão destas matérias deixaram Washington em alerta – o governo estadunidense não queria ver uma nova revolução na América Latina, temia que uma nova e gigantesca Cuba acabasse por desmoralizar sua influência no continente.

As Ligas Camponesas que, segundo a matéria, eram “infiltradas por comunistas”, espalharam o temor de que uma mudança drástica nas relações de trabalho no campo viesse a ocorrer e que a perigosa e indesejável reforma agrária viesse a ser uma conquista inevitável. Pânico entre os proprietários de terras. Desespero entre os políticos conservadores, reacionários e prepostos do regime da grande propriedade rural. Enfim, o alarde era perfeitamente justificável.

Originalmente surgidas com a organização dos camponeses na Europa durante a Idade Média. No Brasil, as ligas camponesas são conhecidas como a associação de trabalhadores rurais que se iniciou no Engenho Galiléia, no Estado de Pernambuco, em 1955, a partir da reivindicação de caixões para os camponeses mortos. O temor dos grandes proprietários acabou por hostilizar o movimento que, junto ao advogado e político Francisco Julião, tornou-se um movimento de amplitude nacional pelos direitos à terra, em defesa da Reforma Agrária.

As mobilizações no campo efetivamente se avolumaram desde a crescente ação das Ligas Camponesas a partir da desapropriação do Engenho Galiléia, no município pernambucano de Vitória de Santo Antão em 1955. Daí em diante, os conflitos entre os trabalhadores rurais e os grandes proprietários recrudesceram e o estado de violência passou a imperar como rotina ainda mais evidente no meio rural nordestino (o movimento irradiou e as Ligas chegaram a atuar por praticamente toda a região). A radicalização reivindicatória e política do movimento camponês passou a enfrentar uma radicalização acentuada também da repressão oferecida pelos proprietários e pela polícia. A guerra foi deflagrada. “Reforma agrária na lei ou na marra” passou a ser o mote da ação das Ligas, que orquestraram greves, comícios, ocupações de terras e pregações abertamente contra o latifúndio, a exploração dos trabalhadores rurais e, claro, contra o imperialismo norte-americano. Mas era notório que entre os articuladores e líderes das Ligas havia comunistas “fichados” e também figuras demagógicas dispostas a promover suas “agitações” políticas que serviam até para desestabilizar o movimento, afinal, coesão política não era uma característica fundamental das Ligas Camponesas. A possibilidade de sindicalização dos trabalhadores rurais somente passou a ser viável com o decreto do Estatuto dos Trabalhadores Rurais (ETR) realizado pelo Governo Jango em março de 1963 e a luta pelo controle das entidades sindicais dividiu o movimento camponês, fracionado pela disputa entre Ligas, grupos ligados a setores da Igreja Católica, o PCB, grupos políticos radicais independentes e até por grupos beneficiados pela distribuição de verbas empregadas exatamente para aplacar qualquer indício de “ação revolucionária” no campo.

Protesto de camponeses em Pernambuco, 1960

Protesto de camponeses em Pernambuco, 1960

O ETR possibilitou ainda que direitos trabalhistas que já eram assegurados aos trabalhadores urbanos chegassem, finalmente, a contemplar os trabalhadores rurais. Sendo assim, 13º salário, férias, carteira assinada e salário-mínimo passaram a ser pontos de reivindicação constante do movimento camponês. Os proprietários, habituados a ignorar qualquer possibilidade de amparo ou benefício trabalhista aos camponeses, não se mostraram satisfeitos com tais medidas. Na Zona da Mata nordestina ainda era comum a prática do cambão (espécie de obrigação feudal, caracterizada pelo trabalho forçado nas terras do senhor, sem a devida contrapartida, durante determinado período de tempo), do pagamento de metade da produção pelos pequenos proprietários e posseiros aos seus suseranos modernos e também a submissão por dívidas de empréstimos abusivos, além do infalível barracão que mantinha o trabalhador preso a impagáveis débitos. A miséria que recaía sobre os trabalhadores rurais, portanto, estava estreitamente ligada ao grau de exploração e degradação ao qual estavam submetidos e a ação do movimento camponês tentava exatamente fazer com que esta realidade pudesse ser percebida, corroborando-se assim o que havia alertado o jornalista norte-americano ao afirmar que “a deflagração de uma revolução de grandes dimensões poderá se tornar inevitável dentro de poucos anos”.

Fazer reforma agrária, contudo, implicaria em confronto com vigorosos interesses contrários e na necessidade imperiosa de promover uma reforma constitucional. O artigo 141 da Constituição Federal de 1946, em seu 16º parágrafo, determinava que uma “indenização prévia, justa e em dinheiro” deveria ser paga ao proprietário das terra desapropriada para fins de reforma agrária. Dentre as medidas apontadas pela Declaração do I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas sobre o Caráter da Reforma Agrária, realizado em Belo Horizonte em novembro 1961, estava exatamente a proposta de modificação deste dispositivo constitucional, apontando que a indenização pronta haveria de ser substituída pelo pagamento das terras desapropriadas através de títulos públicos de longo prazo a juros baixos. Esta, dentre outras propostas que visavam disponibilizar terras para a promoção da reforma agrária, foram rechaçadas pelos grupos anti-progressistas e pela oposição ao Governo João Goulart. Se a campanha pela reforma agrária já era intensa entre os trabalhadores rurais e progressistas, a campanha anti-reformista também estava em atividade. Panfletos de grupos ligados aos proprietários disseminavam-se amplamente a exemplo de um determinado panfleto chamado Fronteira Democrática que circulou em 1963 e que conclamava a sociedade a pressionar os congressistas para que estes não cedessem aos apelos que tentavam promover a reforma constitucional que viabilizaria a reforma agrária no Brasil. Afirmando que esta oposição às reformas era “uma reivindicação de toda nação” e que a democracia estava em risco graças aos avanços dos reformistas, a Fronteira Democrática tentava convocar a opinião pública para que esta não permitisse que “pequeninas divergências sirvam de escada aos propósitos subversivos”. Diferente da Fronteira Democrática, que era anônima, o grupo dos autores responsáveis pelo livro e pelo panfleto Reforma Agrária – Questão de Consciência possuía os seus quadros políticos bem identificados (entre eles o Arcebispo de Diamantina e o Bispo de Campos) e invocavam a “consciência cristã dos brasileiros” contra as intenções de João Goulart de por em prática o desenvolvimento da reforma agrária e contra sua determinação de afetar uma Constituição em que “contêm os princípios básicos da doutrina e civilização cristãs que a nenhum poder humano é lícito revogar”. Os dispositivos constitucionais que mantinham intocadas as estruturas agrárias brasileiras eram, portanto, encarados como dispositivos divinos, que emanavam o máximo grau de civilidade cristã – de um cristianismo defendido por quem achava justa a miséria dos trabalhadores rurais, pelo menos.

O processo “revolucionário” nordestino, principalmente em Pernambuco, teve inúmeros líderes, personagens decisivos para a fomentação de um clima que preocupou senhores de terras, afortunados de direita, setores de uma classe média conservadora e temerosa de que uma suposta revolução colocasse o país de pernas para o ar e, evidentemente, incomodou militares que não poderiam se acomodar diante tamanha sublevação da “ordem”, quando “agitadores” pregavam idéias perigosas e dissolventes. Dois destes tantos agitadores, certamente os mais perigosos, foram Francisco Julião e Miguel Arraes.

Francisco Julião foi um advogado que fez história em atuação no movimento camponês. Prestou suporte gratuito a trabalhadores rurais em causas judiciais contra seus patrões e foi fazendo fama como grande defensor dos homens do campo. Elegeu-se deputado estadual e federal, pelo Partido Socialista Brasileiro, com os votos dos trabalhadores rurais e era reconhecido como o grande líder das Ligas Camponesas. Pregava como plataforma a ampliação do movimento, ressaltando que o exemplo de Cuba estaria sendo revivido e reinventado no Nordeste. Dizia ele, “os grandes latifundiários apoiados pelo imperialismo dos EUA estão sugando nosso sangue”. Eram freqüentes as suas idas à Cuba e através de sua influência e trânsito político na ilha governada por Fidel Castro muitas outras lideranças camponesas viajaram ao país para conhecer de perto uma experiência revolucionária. Pouco freqüentava o Congresso, mas estava em Brasília no dia 31 de março de 1964. Naquele dia discursou a respeito das inquietações que tomavam conta do país e do estado de alienação e descompromisso do Congresso diante das grandes questões que afligiam o povo. Advertiu que a questão agrária era o “fator de toda essa inquietação” e que a libertação das massas trabalhadoras seria “conquistada pacificamente ou por meio da revolução, da rebelião das massas inconformadas do Brasil”. Horas depois Julião estava em fuga. O Golpe Militar o transformou em presa das mais valiosas.

Miguel Arraes elegeu-se governador de Pernambuco contrariando fortes interesses. Venceu o seu adversário direto, o senhor de engenho João Cleofas, derrotou ainda os altos investimentos do IBAD e a campanha difamatória feita pela imprensa. Advogado, ex-deputado estadual, ex-secretário estadual da fazenda e ex-prefeito do Recife, Arraes foi impondo um estilo que se mostrou altamente perigoso. O método do professor Paulo Freire, secretário estadual da Educação, alfabetizava a população pobre em tempo reduzido enquanto trazia para o convívio destes novos letrados temas relativos ao universo cotidiano de exploração e submissão ao qual estavam ligados. O “Acordo do Campo”, assinado por proprietários, fornecedores e entidades representativas dos trabalhadores rurais (incluindo as Ligas Camponesas) foi conduzido pelo governo como tentativa de estabelecer entendimentos que redundassem na diminuição dos conflitos no campo, contudo, a insistência dos proprietários em descumprir dispositivos do ETR e a radicalização do movimento camponês pela reforma agrária não efetivaram os efeitos planejados ao acordo. A estratégia de ação do Governo Arraes preconizava o emprego dos dispositivos legais imparcialmente, sem dispor, deste modo, a capacidade coercitiva do poder governamental em serviço da classe dominante, o que implicou certamente numa iniciativa que por si já era “revolucionária”, considerando a forma como eram anteriormente conduzidos os conflitos entre senhores e trabalhadores rurais. Arraes e seu Governo de “comunistas” caíram com a deflagração do Golpe e o ex-governador foi preso e posteriormente exilado do país.

Com o decorrer dos Anos de Chumbo, os movimentos sociais foram reprimidos. Seus líderes foram presos, torturados, expulsos, assassinados. Sindicatos foram invadidos e as intervenções trataram de debelar os focos de resistência. As Ligas Camponesas foram eliminadas e, como poderia ser inferido com frustração, terminava do mesmo modo que as anteriores mais uma etapa da luta de classes no Brasil.

O combate a todo o estado de insubordinação e subversão que se atribuía ao legado dos governos destituídos não implicou no combate aos elementos que causavam as agitações, isto é, persistiram a miséria e a precarização nas relações de produção e trabalho e continuava a imperar o latifúndio. A este respeito observou Joseph Page, um observador norte-americano que esteve no Brasil para acompanhar o “processo revolucionário”, que “desde que o seu controle sobre o país era absoluto, não havia nada que impedisse os generais de decretarem as reformas básicas. Era esta a sua oportunidade, mas eles se esquivaram dela”.

O testemunho fundador de Pero Vaz de Caminha já havia dado conta de que a terra brasileira, “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Os trabalhadores rurais na década de 1960 acreditavam que poderiam colher uma revolução através de suas lutas, mas as pragas que assolam o campo e atormentam as plantações são insistentes.

SÍNDROME DE HAVANA

Os ultra-conservadores brasileiros sempre temeram os comunistas, mas, por ocasião da quartelada de 31 de março, os bolcheviques russos já não povoavam os pesadelos exasperadores da direita tupiniquim. O mal estava perigosamente mais próximo de nós. O comunismo tropical de Cuba e a mística sedutora de seus barbudos revolucionários passaram a preocupar uma elite que percebeu que se um Fulgêncio Batista, apoiado pelas altas castas da sociedade cubana, pelo exército e pelas bênçãos dos EUA, podia simplesmente ser derrubado por um motim, então nada poderia lhes sugerir que o Brasil estaria livre deste tipo de incidente.

Fidel Castro e seus homens empreenderam dessas ações típicas de contos de heroísmo. Cerca de vinte guerrilheiros relativamente mal armados e escondidos na Sierra Maestra começaram a por em marcha um processo de tomada de poder impensável, que ganhou a simpatia dos camponeses pobres que iam aderindo ao movimento de insurreição. Entre 1956 e 1958 o movimento se espalhou e chegou à Havana até que, finalmente, no primeiro dia de 1959 conseguiu derrubar o ditador Batista. As condições da vitória de Fidel e de seus aliados, como o ícone pop-revolucionário Che Guevara, foram surpreendentes e Cuba caiu nos braços do socialismo para o descontentamento soberbo dos EUA.

A Revolucão Cubana é um movimento popular que consistiu na derrubada do governo de Fulgencio Batista pelo movimento de 26 de Julho e o estabelecimento de um novo governo, liderado por Fidel Castro, no início de 1959.

A nacionalização de empreendimentos e companhias norte-americanas instaladas na ilha e a reforma agrária que tomou as terras dos latifundiários cubanos foram dois gestos que ajudaram a difundir o temor sobre os guerrilheiros que se apossaram do poder, contudo, a aliança à União Soviética selou a posição de Cuba no cenário internacional como um dos pontos nevrálgicos da Guerra Fria. Em 1961 os homens de Washington, resolvidos a impor um fim ao atrevimento socialista na América, recorreram ao apoio de “exilados” cubanos treinados pela CIA, que teriam como missão derrubar Fidel e recompor a ordem em Cuba. As marionetes foram derrotadas na Playa Girón e os soviéticos decidiram garantir o regime cubano ao instalar no país lançadores de mísseis apontados diretamente para os EUA. John Kennedy, que para o historiador Eric Hobsbawm foi o presidente mais superestimado da História norte-americana, depois de amargar o fracasso da iniciativa desastrosa da invasão à Cuba e escapar ileso da Crise dos Mísseis, resolveu impor um bloqueio econômico contra a ilha.

No Brasil, país onde Che Guevara foi condecorado pelo próprio presidente Jânio Quadros, o alarde de que os comunistas poderiam seguir o exemplo cubano era algo incômodo. Durante o Governo de João Goulart, a posição oficial era a da defesa à garantia de autodeterminação cubana, isto é, contra qualquer iniciativa militarmente ofensiva e mesmo anti a proposta de bloqueio ao país de Fidel Castro. Durante a Conferência de Punta del Este, em janeiro de 1962, o Brasil foi firme opositor à proposta, vinda pronta de Washington, que definia sansões a Cuba (incluindo ameaças de invasão sob o beneplácito da OEA), mas, apesar dos confrontos políticos, o Brasil se absteve das votações pela expulsão de Cuba e estabelecimento do bloqueio. Vitória dos EUA.

Che Guevara e Fidel Castro

Che Guevara e Fidel Castro

Mesmo não admitindo o bloqueio – e muito menos o ataque militar – contra Cuba, o governo brasileiro enviou o general Albino Silva, então Chefe da Casa Militar da Presidência, para Havana com o objetivo de esclarecer a Fidel Castro que, ainda que o Governo se opusesse aos desmandos norte-americanos, não apoiaria a instalação da base de lançamento de mísseis. O Brasil acabou assumindo um comportamento ambíguo, pois condenava o bloqueio e se abstinha da votação, enviava porta-voz à Cuba e não tomava partido claro e definitivo contra os EUA em relação aos mísseis. O estilo vacilante do Governo Jango manifestou-se também na condução de sua política internacional e num momento particularmente conturbado. A Crise dos Mísseis foi contornada, na verdade, por entendimentos entre os seus principais responsáveis, Kennedy e Krushov, e, no saldo final, Goulart conseguiu sair-se muito mal, desgastado entre a direita e a esquerda.

A desconfiança em relação ao governo brasileiro tomou novo fôlego nos corredores da Casa Branca, do Pentágono, da Secretaria de Estado norte-americana e também na sede da CIA. Nesta mesma ocasião, a imprensa estadunidense apontou sua “insuspeita” curiosidade sobre nós. O New York Times noticiava o estado de crise da economia brasileira, afugentando investidores e levando “autoridades” ianques a proferir severas críticas e acusações a respeito da condução administrativa do país. O próprio Kennedy declarou: “não há nada que os EUA possam fazer para beneficiar o povo brasileiro, enquanto a situação monetária e fiscal for tão instável”.

Kennedy já temia que o caos brasileiro servisse de trampolim para que se processasse uma tomada de poder por grupos esquerdistas. Temia que mais uma revolução na América significasse que os EUA estavam deixando a situação sair de seu controle. Nos EUA, o temor estava se difundindo nas principais esferas do poder e o Brasil estava sendo vigiado por espiões espalhados em consulados, em agências supostamente independentes e em multinacionais. O próprio embaixador Lincoln Gordon era uma espécie de espião-mor, ardiloso e articulado.

O alarde promovido pelas reportagens de Tad Szulc, do New York Times, feitas no Nordeste, traziam expressões atribuídas a autoridades brasileiras, que diziam que “o Nordeste se tornará comunista e teremos uma situação dez vezes pior do que Cuba, se algo não for feito”. Esta mesma fonte não revelada sentenciou que “se o Nordeste se perder para vocês, americanos, a revolução cubana será um piquenique em comparação”.

A deflagração do Golpe foi um alívio para todos aqueles que tremiam de medo da Síndrome de Havana. O Brasil estaria resguardado da moléstia comunista com o regime imposto pelos militares, pela direita e pela cooperação incansável do bom e velho Tio Sam.

A Síndrome de Havana se espalhou mais entre aqueles que a temiam do que, propriamente, entre os supostos revolucionários. Uma história que faz parte do anedotário político pernambucano relativo à ação da Ligas Camponesas e de suas imaginárias relações com o Governo Fidel Castro serve como interessante fato para encerrar esta série que já chega ao seu terceiro artigo.

O temível coronel Ibiapina, que chefiava o Serviço Secreto de Informação do Exército, interrogou um agitador subversivo chamado José Eduardo, que liderava o sindicato rural de Palmares. O agitador perigoso esteve em Cuba, fato que agravou seu grau de suspeição. Márcio Moreira Alves “transcreveu” o interrogatório entre o coronel e o agitador no livro “O Cristo do Povo”:

- “Por que você foi a Cuba”, perguntou o coronel.

- “Bem, seu coronel, fui porque o doutor Julião me convidou”.

- “E por que você aceitou o convite do deputado Francisco Julião?”

- “Por duas razões principais: primeiro porque nós somos muito pobres, vivíamos em questão com os donos da terra e o doutor Julião cuidava de nossos assuntos de graça. Eu achei que se recusasse um convite dele, ele poderia achar que nós estávamos desfeiteando e não iria mais querer resolver os nossos problemas de graça. Depois, cadê dinheiro para pagar advogado? Mais ainda fui por outra razão. Cada vez que eu estava no cabo da enxada e via passar um avião lá por cima, bonito, voando zum, zum, zum (e Zé Eduardo fazia o vôo com a mão, caprichando no zum-zum) me dava uma vontade danada de andar naquele bichão. Quando o doutor Julião me convidou achei que o dia chegara de eu também voar e não quis perder a oportunidade”.

- “E você gostou da viagem?”, indagou o coronal, meio sem jeito com aquela história de vontade de voar.

- “Bem, seu coronel, gostar, mesmo, não gostei não”.

- “Por quê?”

- “É que lá no alto, quando ele está zum, zum, zum, de repente dá uns trancos, desce nuns buracos. O estômago da gente fica embrulhado e dá um medo danado. Eu fiquei meio zonzo e com medo de melar do homem que estava do meu lado”.

- “Seu burro, não estou perguntando se gostou de andar de avião, quero saber é se gostou de Cuba”.

- “Ah, seu coronal, gostar, também não gostei não”.

- “Por quê?”

- “Não é que aquela gente lá parece toda estrangeira? Eles falam tudo arrevezado, a gente não entende o que eles dizem, eles não entendem o que a gente diz, é uma confusão danada”.

- “E o que você viu por lá?”

- “Não vi nada, não senhor. Só uns engenhos de cana, umas usinas, um povo parecido com a gente aqui de Pernambuco, só que estrangeiro”.

- “Já sei que é estrangeiro, seu ignorante. Mas você não viu mais nada, preparativos de guerra, por exemplo?”

- “Ah, isso de guerra não vi não senhor, coronel”.

- “Você não viu soldados pela rua, de uniforme e metralhadoras?”

- “Ah, bom, soldados e metralhadoras vi muito, sim senhor. Igualzinho a aqui em Pernambuco”.

- “E não viu canhões antiaéreos, sacos de areia pelas ruas?”

- “Sacos de areia, vi, sim senhor. Até furei um deles para ver o que tinha dentro. Era uma areia fininha, branquinha, boa para caiar casa. Eles devem estar querendo caiar muita casa lá em Cuba”.

- “Seu burro! Seu imbecil! Ponha-se daqui para fora! Você não é comunista, não. Você é cretino, isto sim! Saia da minha frente!”

Esta história pitoresca ilustra muito bem nossa experiência revolucionária e tipifica ainda melhor o quão brilhante era a percepção de nossa direita conspiradora, que subiu ao poder montada em tanques de guerra, usando suas fardas e medalhas brilhantes, pisando no povo com seus lustrosos coturnos. 40 anos se passaram desde a vitória das “forças ocultas” e esta efeméride quase passa despercebida, como se o esquecimento notável de um país sem memória nos guardasse mais esta lacuna.

Os Cavaleiros Templários

Soldados de Deus? 

 

Soldados de Deus?

Muitos são os enigmas que envolvem a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Ainda hoje em dia, quase tudo o que se sabe sobre esses guerreiros monásticos se perde em um confuso emaranhado de lendas e suposições.

Mais conhecidos como Cavaleiros Templários, durante muito tempo eles foram vistos como homens de fé e coragem, que arriscavam a vida para proteger os cristãos na Terra Santa. Mas essa não foi a única imagem que deixaram: em sua trajetória, chegaram a ser apontados como negociantes oportunistas que negavam a moral cristã e estavam interessados apenas em consolidar seu poderio na Europa Medieval e, ainda, como sábios do ocultismo, iniciados nos princípios da alquimia e em milenares conhecimentos esotéricos.

Enquanto os estudiosos não encontram respostas definitivas, o acirrado debate sobre o verdadeiro propósito da Ordem do Templo desafia os séculos, ao lado de outras questões intrigantes, como a hipótese de que a reunião dos antigos cavaleiros teria se transformado em uma sociedade secreta e a suspeita de que ela guardaria tesouros de valor incalculável – como o Santo Graal (o cálice que recolheu o sangue de Jesus) ou a Arca Perdida (com, os mandamentos ditados por Deus a Moisés).

Cavaleiro templário

Cavaleiro templário

A Ordem dos Templários, que se tornou uma das mais poderosas e controversas organizações da história, foi fundada em 1119, quando nove cavaleiros franceses, entre eles Hugo de Payns e André de Montbard, anunciaram ao Rei Balduíno l de Jerusalém a intenção de criar uma ordem de monges guerreiros para escoltar e defender os peregrinos cristãos que viajavam a Terra Santa. Estávamos no tempo das Cruzadas, em que os cristãos tinham não apenas conquistado importantes cidades sagradas, como Jerusalém, Trípoli e Antioquia, mas também promovido uma verdadeira carnificina, matando milhares de seguidores de Maomé (chamados também de sarracenos, islâmicos, mouros ou muçulmanos), sem poupar nem mesmo mulheres e crianças. Em busca de vingança, agora era a vez de os sarracenos atacarem os cristãos, assaltando ou matando os peregrinos que se propunham a se aventurar nas estradas que levavam aos lugares santos. Nascia, assim, a justificativa ideal para a criação de uma ordem militar da Igreja Católica, que prometia se entregar de corpo e alma na luta contra os infiéis.

Tão logo a Ordem do Templo foi criada, instaurou-se a polêmica a seu respeito. Sendo a primeira organização militar da história da Igreja Católica, esbarrava em uma complicada contradição: como conciliar o derramamento de sangue com os ensinamentos de amor e não-violêneia de Jesus Cristo? A resposta estava na devoção religiosa. Ao entrar para a ordem, os cavaleiros faziam votos de castidade, obediência e pobreza, jurando abandonar as tentações do mundo em nome de uma verdade espiritual. Movidos pelo idealismo cristão, eles não tinham outro motivo para lutar senão combater as forcas do mal. Em uma época carente de heróis e imersa em conflitos políticos e religiosos, não demorou muito para que esses mordes guerreiros passassem a ser vistos como cavaleiros honrados e destemidos, dispostos a tudo para proteger sua fé.

Ao mesmo tempo em que tornavam suas vitórias e seu idealismo conhecidos, os templários passaram a receber um grande número de doações em dinheiro, terras ou propriedades. Em sua maior parte, as ofertas vinham de nobres e soberanos que, guiados pelo misticismo da época, acreditavam que com esse ato expiariam seus pecados e ganhariam a salvação no Reino dos Céus. Logo, castelos, terrenos, moinhos, aldeias e outros bens faziam parte da Ordem. Com isenção de impostos, os templários sabiam como fazê-los render: as terras e propriedades eram arrendadas e geravam ainda mais dinheiro. Perto do ano 1300, a Ordem dos Templários havia se transformado em uma das maiores redes de influência da Europa, algo como uma multinacional medieval, que envolvia bancos, transportadoras e uma série de outros serviços ligados à administração, finanças e comércio.

Enquanto o sucesso financeiro dos cavaleiros aumentava dia a dia, o mesmo não se podia dizer a respeito das suas ações militares, que cada vez amargavam mais derrotas contra o exército dos muçulmanos. Com a reputação abalada, os templários lutavam para se reerguer quando caíram nas garras do poderoso Rei Felipe, o Belo, da França, que decidiu se apoderar da fortuna da Ordem. Aliado ao papa Clemente V, o soberano tramou uma conspiração para acusar os cavaleiros de hereges, assassinos e adoradores do Diabo. Ao final de um processo cheio de irregularidades, os membros da Ordem foram queimados vivos em praça pública, e seus bens confiscados pelo rei francês. Jacques De Molay, o último grão-mestre dos templários, foi um dos quase 500 guerreiros levados à fogueira em Paris. Acabava, com ele, todo o esplendor e glória da linhagem original dos cavaleiros templários.

Cruz e espada

Cruz e espada

Entre os muitos símbolos dos cavaleiros templários, a cruz vermelha aplicada sobre um esvoaçante manto branco se tornou o mais conhecido. Concedida à Ordem em 1148, pelo papa Eugênio III, a cruz devia ser colocada sempre acima do coração e, segundo alguns historiadores, seus quatro lados iguais representavam o equilíbrio perfeito entre a realidade material e espiritual.

O manto branco, por sua vez, simbolizava pureza e castidade, assim como uma pesada pele de carneiro que os cavaleiros eram obrigados a usar sob as roupas. Se um templário perdesse uma dessas vestes sagradas, imediatamente recebia uma rígida punição, que poderia chegar até a autoflagelação. Além da cruz e do manto, um dos mais famosos símbolos dos monges guerreiros era o emblema da Ordem, que trazia o desenho de um cavalo com dois cavaleiros, representando a irmandade e a humildade.

Os imperadores de Roma – Parte 1

OTÁVIO

Otávio Augusto, o primeiro.

Gaius Octavianus nasceu em 23 de setembro de 63 a.C., filho do pretor Gaiuus Octavius e de Átia, sobrinha de Júlio César. Aos 18 anos, acompanhou César na campanha contra os filhos de Pompeu na Espanha. Em seu posto como comandante da 10a Cavalaria, o jovem teve papel decisivo na vitória, o que lhe valeu a atenção do tio-avô. Na volta para Roma, César ensinou-lhe os caminhos da política e do populismo. Em pouco tempo, Otávio foi enviado à Macedônia para continuar seus estudos. César adotou oficialmente o jovem e ambos iriam partir em campanha contra o Império Persa. Mesmo nunca tendo ocupado nenhum cargo público e ainda com menos de 20 anos, Otávio já tinha assegurado a segunda maior posição em Roma.

Com a morte de Júlio César em março de 44 a.C, Otávio voltou da Macedônia para garantir sua herança: três quartos das posses de César. Mas haveria mais, caso ele conseguisse a simpatia do povo e das legiões. O processo de aproximação ao poder foi tenso, com Marco António tentando ignorar a presença de Otávio em Roma. A partir de abril, Otávio passou a usar o nome Gaius Julius Caesar. No mesmo ano, ele ainda descobriu que sua amada, Livia Drusilla, havia se casado com Tiberius Nero, com quem teria um filho, Tiberius. 

O Senado pendeu para o lado de Otávio, acreditando que o jovem seria facilmente manipulado. Para os senadores, o verdadeiro perigo para a República era Marco António e, embora ele e Lepidus estivessem reunindo legiões na Espanha enquanto Agrippa e Maecenas, amigos de Otávio, reuniam tropas na Macedônia, a guerra não era de interesse de ninguém.

O Segundo Triunvirato dividiu os territórios romanos entre Otávio, Marco António e Lepidus, dando aos três o status de ditadores e poder para sobrepujar o Senado a qualquer momento. Como prova de poder, o trio promoveu um expurgo, votando pela volta das temidas proscrições, assinando a sentença de morte de 300 senadores e milhares de outros cidadãos por motivos que iam de oposição política a simples confisco das posses dos condenados. O golpe final foi a morte de Brutus e Cassius, assassinos de César, nas batalhas de Philipi. A derrota deles foi o último suspiro da República Romana.

Em Roma, Lepidus usou seu cargo como Pontifex Maximus para declarar Júlio César um deus, o que levou Otávio a se auto-intitular “O Filho de Deus”. Os ânimos entre Marco António e Otávio eram apaziguados por Lepidus. Mesmo em meio a disputas entre os membros do Triunvirato e elementos externos, como Sextus Rompeu, e a preparação da campanha contra os persas, a reputação de Otávio era cada vez maior. Seu primeiro golpe contra o Triunvirato foi no elo mais fraco. Após a vitória sobre as forças navais de Sextus e a tomada da Sicília, Lepidus tentou assimilar as forças vencidas. Para Otávio, essa foi a deixa para destituí-lo do poder e tomar suas 18 legiões.

Na Roma Antiga, o termo latino Pontifex Maximus (“Sumo Pontífice”) designava o sumo sacerdote do colégio dos Pontífices, a mais alta dignidade na religião romana. Até 254 a.C., quando um plebeu foi designado para o cargo, somente patrícios podiam ocupá-lo. De início um posto religioso durante a República, foi gradualmente politizado até ser incorporado pelo imperador, a partir de César Augusto.  

Cônsul (do latim consule) era o magistrado supremo na república romana. Na república romana, em número de dois, os cônsules eram os mais importantes magistrados; comandavam o exército, convocavam o Senado, presidiam os cultos públicos e, em épocas de “calamidade pública” (derrotas militares, revoltas dos plebeus ou catástrofes), indicavam o ditador que seria referendado pelo Senado e teria poderes absolutos por seis meses.Durante o Império Romano, o consulado, despido de poderes reais, tornou-se uma magistratura puramente honorífica e que exigia gastos enormes na realização de jogos, mas ainda abria caminho para certos cargos efetivos, como o exercício de certos governos provinciais (proconsulado). Com a divisão do Império, os cônsules (que continuavam a dar nome ao ano), passaram a ser cada um escolhido por um dos imperadores (o do Ocidente e do Oriente), até que Justiniano aboliu a magistratura em 541 da era cristã.  

Pax Romana, expressão latina para “a paz romana”, é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180.

Em 36 a.C., vários fatores levavam a uma iminente guerra entre Marco António e Otávio. O primeiro, ainda casado com a irmã do segundo, teve um filho com Cleópatra e passou a dominar o leste romano. A idéia era colocar os herdeiros no poder, mas Otávio consolidou sua popularidade no resto dos territórios, criando uma imagem anti-romana de Marco Antônio.

Sabiamente, Otávio declarou guerra a Cleópatra, esperando que António fosse ao auxílio da amada. Ao mesmo tempo em que a guerra se anunciava e os exércitos se posicionavam, Otávio atrasava seu início manobrando a armada naval e ganhando mais apoio do Senado. Encurralado, Marco António tentou furar o bloqueio marítimo, mas foi derrotado sumariamente na Batalha de Actium. Em terra, seus exércitos se renderam. Após 20 anos de guerra civil, Otávio, finalmente, era o único soberano político de Roma.

Cleópatra VII Thea Filopator (Alexandria, Dezembro de 70 a.C. ou Janeiro de 69 a.C. – 12 de Agosto? de 30 a.C.) foi a última farani (feminino de faraó) e rainha da dinastia ptolomaica (oriunda da Macedônia) que dominou o Egito após os gregos terem invadido aquele país. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. O nome Cleópatra é grego e significa “Glória do pai”; o seu nome completo, “Cleópatra Thea Filopator” significa “A Deusa Cleópatra, Amada de Seu Pai”. É uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade e um dos governantes mais famosos do Antigo Egipto, sendo conhecida apenas por Cleópatra, ainda que tivessem existido outras Cleópatras a precedê-la, que permanecem desconhecidas do grande público. Nunca foi a detentora única do poder no seu país – de fato co-governou sempre com um homem ao seu lado: o seu pai, o seu irmão (com quem casaria mais tarde por sugestão de Júlio César, então seu amante) e, depois, com o seu filho. Contudo, em todos estes casos, os seus companheiros eram apenas reis titularmente, mantendo ela a autoridade de fato.

Otávio percebeu que a República Romana estava no fim, mas não se deixou levar imediatamente pelas honrarias da vitória. Em um trabalho contínuo de reconstrução e confiança, serviu como cônsul de 31 a 23 a.C. No campo militar, os laços de lealdade foram reformados, com o Estado mantendo 28 legiões próprias. Em 27 a.C., ele usou uma estratégia inédita. Declarando estar disposto a se aposentar da vida pública, o povo e o Senado em coro pediram que ele reconsiderasse. Sua saída poderia causar sérios distúrbios e guerras civis. Com isso, novos poderes e um outro título foram concedidos: Augustus. Otávio passou a ser chamado de Imperator Caesar Augustus. É bom lembrar que o título “Imperator” não é o mesmo que “Imperador”. O primeiro era um título mais similar a “Comandante”. Outras honrarias sucederam-se, como Princeps, que o colocava acima de todos os cidadãos romanos e, com a morte de Lepidus, Pontifex Maximus. O poder de Augustus era supremo, com direito a veto em qualquer matéria. Em 2 a.C., Augustus também foi nomeado Pater Patríae, o Pai da Pátria, como César.

Augustus promoveu a duradoura Pax Romana por meio de um misto de prudência e audácia. O exército não era mais de propriedade privada ou sujeito a reveses políticos. O sistema tributário foi reajustado e Roma foi praticamente reformada. As artes foram privilegiadas, a moral foi resgatada e a tranqüilidade civil restaurada. O casamento de Augustus com Lívia durou 52 anos e seu sucessor seria Tiberius. Ele regeu Roma e o Império por mais de 40 anos e, apesar de alguns tropeços econômicos, elevou a prosperidade e manteve a paz como nenhum outro antes ou depois dele.

Augustus e Lívia não tiveram filhos. Do primeiro casamento, ela trouxe Tibério, que foi adotado por Augustus. O rapaz, então, unia duas das mais tradicionais famílias patrícias: Júlia e Cláudia. Os sucessores imediatos de Tibério teriam o nome dos dois clãs, com Calígula (37-41) e Nero (54-68), filhos do primeiro casamento de Julia Caesaris com Nero Claudius Drusus, irmão de Tibério; e Claudius (41-54), filho de Octavia, irmã de Augustus. A dinastia Júlio-claudiana regeu o Império Romano de 27 a.C. a 68.

 

A DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA

 

TIBÉRIO (14-37)

Tibério, o perturbado.

Tibério, o perturbado.

Tiberius Claudius Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C., filho de Tibério Nero e Livia Drusilla. De família tradicional e rica, o futuro de Tibério já estava aliado à vida pública. Quando o garoto tinha apenas 3 anos, sua mãe divorciou-se e casou-se com Augustus, uma paixão antiga. Tibério foi adotado e tornou-se herdeiro do Império Romano. Desde cedo; Augustus impeliu o jovem a posicionamentos e cargos públicos de importância, como na Batalha de Actium, na campanha contra os persas; o questorado aos 17 anos; e o consulado 5 anos antes da idade permitida.

Ao retornar do Oriente, foi eleito cônsul, em 13 a.C. e casou-se com Vipsania Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, aliado de longa data de Augustus. O casamento, assim como o de sua mãe com Augustus, era baseado em afeto e não só em interesses futuros. Mas, quando Marcus Agrippa morreu, em 12 a.C., Tibério foi obrigado por Augustus a tomar a viúva Julia Caesaris como esposa, em uma união sem amor. As campanhas de Tibério ao lado de seu irmão Nero Claudius Drusus nos Alpes foram bem-sucedidas. Entre 12 e 6 a.C., Tibério comandou as forças de expansão, principalmente na Germânia. Apesar de vitoriosas, as campanhas dele tinham um ranso de tristeza.

Os eventos levavam Tibério cada vez mais ao centro do poder. Se antes da morte de Agrippa, o jovem já era cotado como sucessor de Augustus, naquele momento, casado com Julia, a sucessão era certa. Para surpresa geral, Tibério retirou-se para a ilha de Rodes em 6 a.C., quase como um auto-exílio. Essa atitude colocou-o em desgraça perante Augustus, que, após isso, nunca mais teve o mesmo carinho pelo enteado. É possível que Tibério só tenha escapado de uma execução sumária por conta de sua mãe. Mesmo aceitando-o novamente em Roma, Augustus não planejava mais que Tibério fosse seu sucessor, confiando muito mais nos filhos de Agrippa, Lucius e Gaius Caesar. Mas Lucius morreu em Massilia e, logo em seguida, Gaius Caesar foi ferido mortalmente em combate. Tibério voltou a ser o único nome disponível, mas Augustus não queria dar chance ao destino e adotou também Postumus Agrippa, o último filho de Agrippa, e forçou Tibério a adotar Germanicus. Assim, o Principado estaria assegurado e, talvez, novas tragédias não destruíssem toda a linha sucessória de Augustus.

Por dez anos, Tibério foi o braço direito de Augustus. A morte do soberano em 19 de agosto do ano 14 não foi surpresa e a posse de Tibério, apenas uma conseqüência prevista. O engajamento do novo governante de Roma não podia ser mais insólito. Sendo esta a primeira sucessão após a queda da República, ninguém parecia ter muita certeza de como proceder. Tibério atendeu às solenidades de deificação de Augustus e outras, onde o Senado lhe ofereceu as honrarias devidas a um sucessor de Augustus. Não se sabe se Tibério tentou imitar o padrasto, mas o fato é que o novo soberano refutou algumas das honrarias, como a Pater Patriae e as responsabilidades do principado.

O Senado, sem saber como proceder, tentou contornar a situação enquanto em outros rincões, como as legiões em Pannonia e Germânia, levantavam-se revoltas. Tibério enviou seus dois filhos, Drusus e Germanicus, para resolver os problemas. As legiões pediam a queda de Tibério e a posse de Germanicus, que precisou de muita dissuasão política para contornar a situação. Em um plano mais geral, os primeiros anos de Tibério como regente foram pacíficos. O novo imperador seguiu os passos de Augustus, assegurando os poderes de Roma, expandindo o Império e atendendo aos desígnios do povo e do Senado. Para a população, Germanicus era o melhor sucessor possível, e Tibério parecia concordar, dando glórias e novos postos de comando para o sobrinho em detrimento do filho, Drusus. Mesmo com o apoio explícito a Germanicus, Tibério foi acusado da morte do jovem. Porém, os fatos nunca foram provados.

A partir daí, Tibério desenvolveu uma paranóia constante que o levou à reclusão. Em muito, o mentor desse afastamento foi Lucius Aelius Sejanus, chefe da Guarda Pretoriana, que alimentou Tibério com teorias conspiratórias cada vez mais complexas. É provável que Sejanus tenha planejado a morte de Drusus em 23 e que isso tenha sido o começo do fim da linhagem Júlio-claudiana. O soberano, bastante manipulado por Sejanus, permitiu que o amigo ganhasse cada vez mais terreno na política.

Tibério, que nunca havia demonstrado sede pelo poder, preferiu retirar-se da vida pública em 26, isolando-se na Ilha de Capri e deixando o posto temporariamente nas mãos gananciosas de Sejanus. Enquanto isso, Agrippina, viúva de Germanicus e neta de Augustus, tentava fortalecer seus filhos (Calígula, Nero e Drusus) como sucessores e fazer frente ao usurpador Sejanus.

A ausência de Tibério quase determinou o fim da linhagem Júlio-claudiana. Drusus, Agrippina e Nero Caesar morreram coagidos ao suicídio ou de fome, exilados. Sejanus controlava o acesso do Senado a Tibério em Capri, onde o jovem Calígula lhe fazia companhia. Tibério promovia uma caça às bruxas por toda a cidade de Roma, compelido apenas pelas acusações de Sejanus. O poder de Sejanus e sua manipulação política quase fizeram Tibério nomeá-lo tribuno e co-imperador, mas Antonia Minor, a cunhada viúva de Tibério, despertou o Imperador sonolento em 31, com uma carta denunciando Sejanus. O impostor foi executado antes do final daquele ano. Um expurgo seguiu-se, amplificado pela paranóia de Tibério.

Nos anos finais do reinado de Tibério, foram eliminados vários traidores, fossem eles culpados ou não. Tibério nunca mais pisaria em Roma nos últimos 23 anos de regência e muitos de seus atos seriam descritos depois por historiadores como pífios. Ultimamente, Tibério tem sido resgatado como um regente satisfatório que deu prosseguimento aos desígnios de Augustus, entre eles a não-expansão e a continuidade da Pax Romana. Ele deixou clara sua vontade de que o Império fosse regido em conjunto por seu sobrinho Calígula e seu neto Gemellus.  

 

CALÍGULA (37-41)

Caligula, o depravado

Calígula, o depravado

Nascido em 31 de agosto de 12, Gaius Julius Caesar Germanicus, ou Calígula, representou o ápice do desleixo com o Império Romano. Enquanto para Augustus era importante manter uma ilusão de que a República ainda tinha certo poder, Tíbério, ao deixar Sejanus subir tanto, foi obrigado a mostrar que seu posto era absoluto para abafar as conspirações.

Outro ponto negativo de Tibério, que despontou explicitamente em Calígula, foi a falta de preparo dos sucessores. O principado, cuidadosamente elaborado por Augustus, preparando os próximos soberanos de Roma, foi relegado ao segundo plano na regência de Tibério, trazendo péssimas conseqüências futuras. A falta de habilidade para governar ficou evidente já nos primeiros anos de Calígula como regente. Ainda garoto, era chamado de “botinhas” pelos legionários acampados na Germânia, que o tinham como mascote. O apelido vinha de seu costume de andar fantasiado de legionário desde criança. Calígula, em latim, significa “pequenas botas do soldado”.

Os curtos quatro anos de Calígula no poder foram documentados e mostram, principalmente, caprichos e sandices que o fizeram conhecido como um completo déspota. Cruel e indigno de confiança, colocou Roma em um período de promiscuidade e desmando, mantendo casos amorosos com suas próprias irmãs e deixando as legiões romanas em maus lençóis. Em uma invasão à Bretanha, mudou de idéia na última hora e ordenou que seus legionários “atacassem o mar” e colhessem conchas nas praias da França. As conchas foram levadas para Roma como saques de guerra.

Após a morte de Tibério, Calígula começou a praticar cada vez mais loucuras. Um de seus primeiros atos foi ordenar a morte do primo Tibério Gemellus, seu co-regente. Aos olhos do público, Calígula era um bom imperador, cancelando os exílios e processos de traição instaurados por seu avô, ajudando endividados pelas taxas e sendo um sucessor direto de Augustus e Julius Caesar, filho do bem-amado Germanicus.

As fontes históricas divergem sobre os motivos da loucura de Calígula, colocando em pauta um sem-número de incongruências autocráticas promovidas por ele. A mais conhecida talvez seja a idéia de fazer seu cavalo um membro do Senado e, depois, cônsul. Assim como Tibério, as fontes históricas são escassas, e todas são unânimes em evidenciar a inteligência ímpar do jovem imperador. Para historiadores modernos, Calígula pode não ter enlouquecido, mas perdido o controle sobre seus atos de forma sarcástica. Como um jovem com todo o poder disponível em suas mãos. Talvez tenha deixado seu bom humor reger, clamando para que as classes abaixo dele percebessem a insensatez de depositar tanto poder em apenas uma pessoa.

Os atos incontroláveis dele revelaram a verdade que ainda estava escondida sob o reinado de Tibério: Augusto havia instaurado uma monarquia autocrática, em que o soberano do Império tinha plenos poderes. Para a aristocracia, esse tipo de atitude era imperdoável e extremamente perigosa. A única forma de parar os abusos de um imperador romano seria seu assassinato, coisa que se tornaria praxe depois de Calígula. A vida pregressa de Calígula pode tê-lo ensinado a ver além dos padrões normais, e não foi por acaso que ele foi o único da linhagem a sobreviver. Por isso, sua visão para conspirações era um misto de paranóia e esperteza. O comandante das legiões na Germânia, Gnaeus Lentulus Gaetilicus foi descoberto quando ainda esboçava um motim das legiões contra o imperador. Até então, ninguém sabia ao certo porque o governante fez questão de se deslocar pessoalmente para o norte.

Calígula morreu aos 28 anos, assassinado por Cassius Chaerea, um antigo oficial que servira Germanicus. As razões são obscuras, mas parecem puramente pessoais. A esposa Caesonia e a filha Julia Drusilla também foram assassinadas. Ainda há suspeitas de que Cláudio, o sucessor, tenha desempenhado algum papel na morte do sobrinho. Fato é que Chaerea era oficial da Guarda Pretoriana e que Claudius foi nomeado imperador pela própria Guarda.  

 

CLÁUDIO (41-54)

Cláudio, o "deformado"

Cláudio, o deformado

Nascido Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, Cláudio mudou seu nome para Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus quando assumiu o posto de quarto imperador de Roma. Era um figura ímpar. Gago e coxo desde a infância, a família tentava ao máximo deixá-lo à margem da vida pública. Mas ele foi alçado ao posto de cônsul por Calígula em 37, talvez em mais um sinal de deboche ao Império.

A reclusão favoreceu o lado intelectual de Cláudio, que se tornou um grande historiador. Escreveu 43 livros sobre o Império Romano, 20 sobre o Império Etrusco e outros 8 sobre os cartagineses. O valor real desse esforço nunca poderá ser medido, pois as obras foram perdidas. A falta de sucessores e o torvelinho em que se encontrava a nobreza romana à época levaram Cláudio ao poder. Com a morte de Calígula, assassinado por um membro da Guarda Pretoriana, o Senado ficou de mãos atadas quando a própria Guarda proclamou Cláudio imperador. Essa entrada, por assim dizer, forcada, fez com que o novo imperador não fosse visto com bons olhos por todos.

Esperava-se uma performance pífia e bondosa de Cláudio, mas sua passagem pelo poder teve grandes vitórias. A mais expressiva foi a tomada final da Bretanha em 47, após décadas de combate, domínio romano na ilha duraria mais 350 anos. Cláudio foi o primeiro imperador romano a receber o título de Caesar. Como o título “Imperador” é uma invenção prática de tempos mais contemporâneos, até a ocasião o soberano de Roma era chamado pelo nome ou por um de seus títulos (Pater Patríae, por exemplo). César transformou-se em um título pelo qual os mais altos comandantes da nação romana passaram a ser chamados desde então. Cláudio morreu naturalmente aos 64 anos.  

 

NERO (54-69)

Nero, o louco

Nero, o louco

Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu em 15 de dezembro de 37, filho de Agrippina, a Jovem, irmã de Calígula, e Gnaeus Domitius Ahenobarbus. Agrippina casaria-se depois com seu tio Cláudio. Adotando o nome de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus e mais conhecido como Nero, foi o último membro da dinastia Júlio-claudiana. Sua subida ao poder foi uma sucessão de desencontros e mortes prematuras. Quando nasceu, seu tio Calígula regia o Império aos 25 anos e não se esperava que o jovem regente morresse tão cedo, uma vez que seus antecessores haviam chegado perto dos 80 anos.

Segundo historiadores, como Suetonius e Tacitus, as relações íntimas entre Calígula e suas irmãs Drusilla, Agrippina e Julia Livilla, assegurariam a sucessão de seus próprios filhos. Os outros concorrentes ao posto de Augusto eram seus tios por parte de mãe. Com Calígula morrendo sem deixar filhos e expurgando suas irmãs traidoras e outros próximos ao trono, o caminho para Lucius estava aberto. Cláudio trouxe Agrippina e Livilla de volta do exílio, casou-se com a primeira e adotou Lucius sob o nome de Nero Claudius Caesar Drusus.

Aos 17 anos, com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o mais jovem imperador de Roma. Os primeiros anos de regência foram expressivos, com o rapaz tendo ao seu lado a mãe e os dois tutores, Sêneca e Burrus. Mas problemas pessoais acabaram por influenciar nos negócios de Estado. Sexo, violência e conspirações seguiram-se. Britannicus foi envenenado, Agrippina foi assassinada, Poppaea tornou-se uma amante influente e Tigellinus voltou do exílio para ser o braço direito de Nero. Sem herdeiros, Nero teve de armar uma fraude para divorciar-se de Octavía e assumir o filho de Poppaea. Em julho de 64, com sua reputação em frangalhos, Nero foi acusado pelo incêndio que consumiu Roma em uma semana.

No ano seguinte, uma conspiração armada por velhos amigos, entre eles o próprio Sêneca, foi descoberta e os envolvidos obrigados a cometer suicídio. Outras execuções sumárias seguiram-se, contribuindo para o dissabor do povo, dos militares e dos senadores. A cada ano, a situação de Nero tornava-se menos sustentável, até que revoltas e motins em territórios, como o Egito, levaram o Senado a depor Nero, que cometeu suicídio em 9 de junho de 68. A balbúrdia iniciada por Nero e a falta de sucessores levaram Roma a outra guerra civil, quando em um período de menos de um ano sucederam-se quatro imperadores.

 

CRISE: QUATRO IMPERADORES EM UM ANO!

 

O novo sistema de governo romano já demonstrava sinais de fragilidade desde a subida de Tibério ao poder. A negligência com o Principado e outros preparativos para a sucessão apenas aceleraram o fim da dinastia Júlio-claudiana e, em 68, com o suicídio de Nero, seguiu-se uma guerra civil. A transição da dinastia anterior para a Flaviana foi confusa e teve 3 imperadores nesse hiato, até a posse de Vespasiano. Entre junho de 68 e dezembro de 69, Roma viu três imperadores ambiciosos subirem ao poder para serem depostos ou assassinados logo em seguida. Galba, Otho e Vitellius tentaram assumir o posto máximo, mas o futuro estava nas mãos dos bondosos imperadores flavianos. 

Galba, um imperador breve e instável

Galba, um imperador breve e instável

Os reais problemas começaram enquanto Nero ainda estava vivo. Suas atitudes favoreceram a ambição de Caius Julius Vindex a liderar uma rebelião para colocar o governador da Hispânia Tarraconensis, Servius Sulpicius Galba, no lugar de Nero. Embora tropas fiéis a Nero na Germânia tenham enfrentado, vencido e matado Vindex, o destino do imperador déspota já estava selado pelo Senado. Caiba foi aclamado imperador. O revés colocou em cheque os comandos dos territórios germânicos que, de uma hora para outra, tornaram-se traidores. Rufus, o comandante da legião germânica, foi retirado do cargo. A situação na Germânia tornou-se insustentável em pouco tempo e mesmo o novo governador Aulus Vitellius, aliado de Galba, não pôde conter a rebelião na Batávia.

Vitélio, derrotado por uma conspiração

Vitélio, autoritarismo derrotado

Em Roma, Galba provou sertão instável emocionalmente quanto Nero. Seus primeiros atos como soberano foram contra várias benfeitorias anteriores. Promessas não-cumpridas e extorsões rapidamente fizeram de Caiba um imperador malvisto. A rebelião das legiões germânicas culminou na aclamação de Vitellius como imperador. Quando os rumores chegaram a Roma, Galba saiu em desespero pelas ruas convocando a população para ficar a seu lado. O erro foi ter iniciado precipitadamente sua linha sucessória nomeando Lucius Calpu Piso Licianus. Com isso, Marcus Salvius Otho aliou-se à Guarda Pretoriana. Galba foi assassinado no Fórum e, no mesmo dia Otho foi proclamado imperador pelos senadores.

Otho, um reinado curto até o suicidio

Otho, um reinado curto até o suicídio

Pouco mais de três meses depois, Otho cometeu suicídio. Seu reinado foi curto porque Vitellius e as legiões da Germânia se dirigiam para Roma. Não eram apenas legiões romanas, mas as melhores e mais respeitadas de todas, com bastante poder político desde os tempos de Tibério. O máximo que Otho pôde fazer foi oferecer-se como pai adotivo de Vitellius. Otho não teve escolha a não ser acabar com a própria vida e deixar o caminho livre p novo imperador.

Em pouquíssimo tempo, Vitellius mostrou-se um completo déspota. Esbanjando as riquezas de Roma com banquetes e comemorações em sua própria homenagem, passou a perseguir qualquer um que cobrasse as despesas e, com as finanças em crise e o juízo claramente afetado, ordenou a morte de credores, de rivais potenciais ao trono e até mesmo de pessoas que haviam colocado o nome do imperador em seus testamentos.

Com tanto desmando em um tempo de delicado equilíbrio político, não demorou para que revoltas se consumassem, principalmente na Judéia, onde Vespasiano foi declarado imperador pelas legiões do Oriente Médio. As legiões do Danúbio tomaram o partido de Vespasiano e marcharam em direção à Itália, cercando a cidade. Vespasiano tomou a Síria e trouxe o Egito para o seu lado. Vitellius foi assassinado e Vespasiano nomeado imperador pelo Senado no dia seguinte, 21 de dezembro de 69.

A Revolução Russa

outubro 2, 2008 1 comentário

 

O czar Nicolau II

O czar Nicolau II

A Rússia consolidou-se como Estado no final do século XVI, com Ivan IV, o Terrível, que adotou o título de czar. Com ele teve início o absolutismo e a expansão territorial do país. Essa expansão se prolongou até o final do século XIX, quando a Rússia se transformou em uma das maiores nações do planeta, com mais de 22 milhões de quilômetros quadrados. Por volta de 1914, sua população chegava a 174 milhões de pessoas. Apesar desses números, até o começo do século XX a economia russa continuava predominantemente rural. Enquanto a Inglaterra e outros países europeus contavam com sólidos parques industriais e encontravam-se em plena Segunda Revolução Industrial, a Rússia dispunha de poucos centros fabris. Ali, os operários trabalhavam em ambientes insalubres, com salários extremamente baixos e enfrentavam jornadas de até catorze horas diárias. No campo, a situação era ainda pior: 85% da população total do país era constituída por camponeses pobres. A maioria deles vivia sob o regime feudal de servidão. A abolição do regime servil, em 1861, não contribuiu para melhorar sua situação, pois eles continuaram a viver sob o jugo dos grandes proprietários rurais.

Politicamente vigorava no país uma espécie de monarquia absolutista – o czarismo -, que reprimia qualquer manifestação contrária ao governo. Ai forças que davam sustentação política ao czar eram formadas pelos donos de terras (nobreza), pelos militares e pela Igreja ortodoxa. A repressão e o autoritarismo provocaram o surgimento de grupos clandestinos de oposição, defensores de mudanças econômicas, sociais e políticas. Entre esses grupos destacavam-se os anarquistas, os narodniks (populistas) e os socialistas. Tanto os anarquistas quanto um setor dos populistas preconizavam o emprego de ações terroristas contra membros do governo. Em uma dessas ações, foi morto o czar Alexandre II (1818-1881).

Atrasada em relação à Europa ocidental, a Rússia só começou a se industrializar no final do século XIX. Dois fatores foram decisivos nesse processo: a ação do governo, que investiu sobretudo na construção de ferrovias; e a intervenção do capital estrangeiro, por meio de empréstimos e investimentos diretos. Além desses fatores, a produção industrial foi favorecida pelo baixo custo da mão-de-obra, formada por trabalhadores de origem rural, recém-chegados às grandes cidades. Outra característica da industrialização russa foi sua concentração em três pontos do território: Moscou, a capital São Petersburgo e a região do rio Don. Nesses lugares formaram-se grandes unidades industriais – como a usina siderúrgica Putilov, em São Petersburgo, por exemplo -, que reuniam milhares de operários. Assim, no começo do século XX a Rússia era um país camponês com algumas ilhas de alta concentração industrial.

Lênin

Lênin

O crescimento industrial refletiu no desenvolvimento das cidades: entre a década de 1860 e 1914, a população urbana passou de 6 milhões para quase 19 milhões de pessoas. Pressionados pelas péssimas condições de vida e de trabalho, os operários russos começaram a se organizar em associações. Em 1898, intelectuais e ativistas da classe trabalhadora formaram o Partido Operário Social-Democrata Russo, POSDR, grupo clandestino de orientação marxista. Em 1903 o POSDR se dividiu em duas tendências. Uma delas era a dos bolcheviques. Liderada por Lenin (pseudônimo de Vladimir Ilitch Ulianov), essa facção propunha a formação de uma aliança operário-camponesa para lutar pelo poder, como primeiro passo para se chegar ao socialismo, o que, segundo Lenin, só seria possível por meio de uma revolução. A outra tendência era a dos mencheviques. Mais moderados do que os bolcheviques, eles argumentavam que era preciso apoiar a burguesia, pois esta deveria liderar a luta contra o czarismo em uma revolução democrática. Só então se poderia organizar a classe operária para a revolução socialista. 

Trotsky

Trotsky

Em 1905 a Rússia foi derrotada na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) pela posse da Manchúria e da Coréia. A derrota contribuiu para aumentar a insatisfação que se tornava cada vez maior em todo o país. Em janeiro de 1905, ainda durante o conflito, cerca de 200 mil pessoas, lideradas pelo padre Georg Gapon, saíram às ruas de São Petersburgo, capital do país, em manifestação pacífica por uma Assembléia Constituinte e por melhores condições de vida e de salário. Forças do governo dispararam contra a multidão, matando cerca de mil pessoas. Conhecido como domingo sangrento, o massacre repercutiu em toda a Rússia, levando à radicalização dos protestos. Greves, saques e manifestações eclodiram por toda parte. No mar Negro, os marinheiros do encouraçado Potenkim se sublevaram. Em outubro, uma greve geral paralisou o país. Nas grandes cidades foram criados sovietes, conselhos formados por representantes dos trabalhadores para tomar decisões políticas na luta contra o czarismo. O soviete mais importante era o da capital São Petersburgo, presidido por Lev Davidovich Bronstein, conhecido como Leon Trotski. Encurralado pela revolução, o czar Nicolau II cedeu a algumas das exigências dos revolucionários. Assim, legalizou os partidos políticos e concedeu poderes legislativos à Duma, uma espécie de Parlamento. Ao mesmo tempo, no entanto, reprimiu duramente os sovietes e o movimento grevista. Trotski e outros líderes foram presos.

Manifestação na cidade de Petrogrado

Manifestação na cidade de Petrogrado

O governo russo entrou na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com um exército numeroso (mobilizou cerca de 15 milhões de soldados durante o conflito), mas despreparado: muitas vezes, seus combatentes iam para a frente de batalha desprovidos de botas e fuzis. Milhares de soldados morreram ou desertaram. A guerra desorganizou completamente a economia do país: houve fome, desemprego, inflação. No dia 27 de fevereiro de 1917 (12 de março no calendário ocidental) a população de São Petersburgo e de outras cidades se revoltou. O czar foi obrigado a abdicar e o poder passou para as mãos de um governo provisório eleito pela Duma e composto de liberais e mencheviques. Ao mesmo tempo, operários, camponeses, soldados e marinheiros organizaram sovietes por todo o país. Os novos governantes aboliram a censura à imprensa, legalizaram os partidos e libertaram os presos políticos. Os exilados puderam retornar, enquanto o czar e sua família eram presos. Mas o país continuou envolvido na guerra, e a principal reivindicação dos camponeses – a reforma agrária – não foi atendida.

Em abril de 1917, depois de voltar da Suíça, onde se encontrava exilado, Lenin lançou violentos ataques contra o governo provisório, proclamando os lemas “Paz, pão e terra” e “Todo o poder aos sovietes!”. Enquanto isso, Trotski, que também havia retornado do exterior, era eleito presidente do soviete de Petrogrado (novo nome da capital, a antiga São Petersburgo), o mais importante da Rússia, e aderia ao Partido Bolchevique. Com sua política de “Paz, pão e terra”, os bolcheviques conquistaram rapidamente a liderança da maioria dos sovietes e, na noite de 24 para 25 de outubro de 1917 (6 para 7 de novembro no calendário ocidental), derrubaram o governo provisório por meio de uma insurreição organizada e dirigida por Trotski.

Ato politico de rua durante a Revolução

Ato político de rua durante a Revolução

Com a Revolução de Outubro, a Presidência do pais foi entregue a Lenin, que proclamou a formação da República Soviética Russa. O novo governo estatizou fábricas, estradas de ferro e bancos e confiscou os bens da Igreja. As grandes propriedades foram expropriadas e distribuídas aos camponeses. No plano externo, russos e alemães assinaram um acordo de paz em separado, o Tratado de Brest-Litovsky (1918). Em seguida, porém, o país mergulhou em uma sangrenta guerra civil que colocou em confronto o Exército Vermelho, organizado e comandado por Trotski, e o Exército Branco, mobilizado pelas antigas classes dominantes (senhores de terras, grandes empresários, generais do exército czarista) e apoiado pelas potências ocidentais. Durante a guerra civil, que seria vencida pelo Exército Vermelho, Lenin adotou medidas de centralização do poder em torno do Partido Bolchevique, agora chamado de Partido Comunista. Assim, foi implantada uma rígida disciplina nas fábricas, cujos cargos principais foram ocupados por burocratas do governo; a imprensa passou a ser controlada, os partidos políticos foram postos na ilegalidade e a própria liberdade de discussão no interior do Partido Comunista foi restringida. Muitos opositores do novo regime foram presos. 

Stalin

Stalin

O czar Nicolau II e sua família foram executados. Conforme o Partido Comunista, único autorizado a funcionar, passava a controlar todas as esferas da sociedade, os sovietes deixaram de ser um espaço para a discussão democrática e transformaram-se em meros executores das ordens do Partido. Em 1922 Lenin sofreu um ataque cardíaco e afastou-se pouco a pouco do poder, até morrer, em 1924. O secretário-geral do Partido Comunista, Josef Stalin, passou a disputar com Leon Trotski a liderança da União Soviética. Os dois tinham opiniões antagônicas a respeito dos caminhos da revolução. Para Trotski, a revolução socialista deveria ser difundida para outros países como forma de garantir a sobrevivência do socialismo na União Soviética. Já Stalin acreditava que a revolução deveria ser consolidada primeiro no próprio país (teoria do Socialismo em um só país). Trotski também criticava a burocratização do Estado, a extinção da vida democrática no interior dos sovietes e o excesso de poder concentrado nas mãos de Stalin. Stalin tinha a seu serviço a burocracia do Estado e do Partido.

Vencedor da disputa com Trotski, passou a dominar o país com mão-de-ferro, levando ao extremo as tendências autoritárias já reveladas na época de Lenin. Seu governo deu grande impulso à industrialização por meio de planos quinqüenais. Ao mesmo tempo, estabeleceu um regime totalitário e passou a eliminar todos os seus adversários, que eram presos ou executados.

Bandeira comunista soviética

Trotski foi expulso da União Soviética em 1929 e obrigado a exilar-se no México, onde morreu assassinado a mando de Stalin em 1940. Todos os outros líderes da Revolução de Outubro, à exceção de Lenin e de Sverdlov, que morreram de morte natural, foram presos e executados em processos sumários. Sob o governo de Stalin, a União Soviética isolou-se do resto do mundo e se transformou em uma potência mundial. No entanto, o projeto da formação de uma sociedade igualitária, um dos ideais dos primeiros marxistas, foi abortado. Em lugar do socialismo, surgiu uma sociedade burocratizada, controlada por uma elite de funcionários privilegiados – a burocracia soviética -, enquanto a massa da população vivia em condições precárias e se via excluída dos órgãos de decisão. No topo dessa sociedade estava o Partido Comunista, que controlava integralmente todos os órgãos do Estado. O chefe desse partido, Stalin, era considerado infalível e seus opositores invariavelmente reprimidos.

A Primeira Guerra Mundial

Europa antes da guerra

Europa antes da guerra

 

A guerra travada entre a França e a Prússia em 1870 foi o último grande conflito verificado na Europa no século XIX. A partir de então, o continente europeu atravessou um período de quase meio século de relativa paz. Nesse período, a partilha da Ásia e da África e o acelerado processo de industrialização das nações européias estabeleceram um novo equilíbrio de forças na Europa. Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, Império Austro-Húngaro e Itália projetaram-se como as grandes potências do continente, ao passo que o outrora poderoso Império Turco-Otomano entrava em declínio. Para garantir o equilíbrio e assegurar-se de que nenhuma nação rival ameaçaria seus domínios, as potências começaram a modernizar e fortalecer seus exércitos: investiram em armas cada vez mais sofisticadas, adotaram o serviço militar obrigatório e fortificaram suas fronteiras. Fortemente armadas, essas nações evitavam guerrear entre si, preferindo resolver suas disputas por meio de acordos diplomáticos e alianças. Em 1882, por exemplo, os governos da Alemanha, do Império Austro-Húngaro e da Itália formaram a Tríplice Aliança. Em resposta, em 1907 os governos da Inglaterra, da França e da Rússia criaram a Tríplice Entente.

Guilherme II, monarca alemão

Guilherme II, monarca alemão

Embora evitassem o confronto direto, o clima de tensão entre as potências européias era muito grande. Na verdade, vigorava entre elas uma paz tensa e instável. Por isso esse período ficou conhecido como o da paz armada. O forte nacionalismo dos povos europeus – outra importante característica do período – acentuava antigos ressentimentos e instigava a rivalidade entre as nações. Os franceses, por exemplo, não se conformavam com o fato de terem perdido a Alsácia e a Lorena para os alemães no fim da Guerra Franco-Prussiana (1870) e nutriam desejo de vingança. Os alemães, por sua vez, alimentavam o desejo de ampliar seu império colonial. Por terem chegado tarde à corrida imperialista – já que a unificação do país só ocorrera em 1871 -, eles se sentiam insatisfeitos com o que lhes coubera na partilha da África e da Ásia. Tão ressentidos quanto eles encontravam-se os italianos, cujo país também se unificara tardiamente e que pouco havia obtido na divisão imperialista do mundo.

Francisco Ferdinando, arquiduque austro-húngaro

Francisco Ferdinando, arquiduque austro-húngaro

Nos Bálcãs viviam povos de diversas etnias e culturas, como gregos, eslavos, sérvios, croatas, turcos, búlgaros, etc. Esses povos estavam sob o domínio do Império Turco-Otomano desde tempos remotos. Animados por fortes sentimentos nacionalistas, no século XIX eles passaram a se mobilizar contra o jugo turco-otomano. Os primeiros a se emancipar foram os gregos, cuja independência foi conquistada em 1821; em 1878, contando com o apoio dos russos, que buscavam aumentar sua influência nos Bálcãs, Sérvia, Montenegro e Romênia também obtiveram a autonomia, enquanto a Bósnia-Herzegovina era colocada sob a tutela do Império Austro-Húngaro. Em 1908 a Bósnia-Herzegovina foi formalmente anexada ao Império Austro-Húngaro. A medida reacendeu o nacionalismo dos povos da península. Os sérvios -interessados no território – foram os principais opositores da anexação. As rivalidades explodiram no dia 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, em visita à cidade de Sarajevo, na Bósnia, foram assassinados por um estudante bósnio simpatizante da Sérvia. 

George V, monarca britânico

George V, monarca britânico

O atentado seria o estopim da Primeira Guerra Mundial. No dia 28 de julho o governo do Império Austro-Húngaro, contando com o apoio do governo alemão, seu parceiro na Tríplice Aliança, declarou guerra à Sérvia, acusando suas autoridades de conivência com o assassino do arquiduque. Os russos, aliados dos sérvios, colocaram suas tropas de sobreaviso. Fiéis à sua aliança com o governo da Áustria, os alemães declararam guerra aos russos e franceses, que integravam a Tríplice Entente juntamente com os ingleses. No dia 4 de agosto, o governo da Inglaterra juntou-se a seus parceiros da Entente e entrou no conflito contra austro-húngaros e alemães. Em pouco tempo, outros povos, como os japoneses, interessados nas possessões alemãs do Pacífico, e os turco-otomanos, adversários dos russos, também entraram no conflito: os primeiros ao lado da Tríplice Entente; os segundos, em a poio às potências centrais (isto é, Alemanha e Áustria). O governo italiano, cujo país fazia parte da Tríplice Aliança, preferiu manter neutralidade até 1915, quando entrou na guerra ao lado da França, Inglaterra e Rússia. 

Georges Clemenceau, presidente da França

Georges Clemenceau, presidente da França

Inicialmente, os líderes europeus acreditavam que a guerra não duraria muito tempo. O conflito, porém, revelou-se muito mais difícil e demorado do que eles imaginavam: durou quatro anos, envolveu muitas nações e foi de uma brutalidade sem precedentes. Todos os avanços tecnológicos da indústria bélica foram utilizados no conflito. Outros equipamentos sofisticados foram desenvolvidos no próprio curso da guerra. Pela primeira vez na História, utilizaram-se armas químicas, submarinos e lança-chamas, além de armamentos mais antigos, como morteiros, granadas, canhões e metralhadoras. Até mesmo aviões foram empregados para bombardear tropas em terra. As rivalidades entre as nações foram acirradas pelas campanhas publicitárias, muitas delas enganosas, criadas nos dois lados do front. Cartazes e pôsteres procuravam retratar o inimigo como “selvagem” ou “bárbaro” e estimular o nacionalismo da população. Nos primeiros meses, o conflito caracterizou-se pela chamada guerra de movimento: as tropas procuravam se mobilizar rapidamente em campo aberto, com o propósito de conquistar territórios. A tática, porém, revelou-se infrutífera: os avanços territoriais eram pequenos e o número de baixas, muito grande.

vitima de gás tóxico

Arma química: vítima de gás tóxico

Woodrow Wilson, Presidente dos EUA

Woodrow Wilson, Presidente dos EUA

Diante do equilíbrio de forças, os chefes militares passaram a adotar uma nova tática: a guerra deposições ou de trincheiras. Nessa forma de combate, utilizada durante quase todo o conflito, eram abertas no terreno valas estreitas, profundas e de grande extensão, protegidas por rolos de arame farpado – as trincheiras. Ali, os combatentes mantinham fogo permanente contra o inimigo e se defrontavam com novas adversidades: lama, frio, ratos, doenças. No período final da guerra, dois fatos cruciais mudaram o rumo dos combates. Um deles foi a entrada dos norte-americanos no conflito, em abril de 1917, ao lado dos países da Entente, chamados genericamente de aliados. O outro ocorreu em março de 1918, quando o governo da Rússia decidiu sair da guerra. Pouco depois da entrada norte-americana, os beligerantes retomaram a guerra de movimento. Dessa vez, graças principalmente ao grande número de soldados enviados pelo governo dos Estados Unidos, os aliados tiveram êxito, obrigando seus adversários a recuar. Em 30 de outubro de 1918, o governo turco-otomano se rendeu, pouco depois, em 3 de novembro, foi a vez de o governo austro-húngaro firmar sua rendição; no dia 11 de novembro, finalmente, os alemães também se renderam, reconhecendo a derrota. 

Combatentes em uma trincheira

Combatentes em uma trincheira

A Primeira Guerra Mundial chegou ao fim depois de ter provocado a morte, segundo estimativas, de 8 milhões de pessoas e ter deixado 20 milhões de inválidos e milhões de órfãos, desempregados e desabrigados. Além disso, milhares de jovens combatentes voltaram para casa com neurose de guerra, distúrbio psíquico que provoca alucinações e pode levar à loucura. Terminados os combates, tiveram início os acordos diplomáticos para definir o novo mapa europeu e os termos da paz mundial. O mais conhecido dentre esses acordos foi o Tratado de Versalhes, firmado em junho de 1919.

uma nova máquina de guerra

Avião: uma nova máquina de guerra

Considerados em seu conjunto, os acordos de paz alteraram substancialmente a configuração geopolítica da Europa:

  •  O Império Austro-Húngaro desintegrou-se, originando três países – Áustria, Hungria e Tchecoslováquia; 
  • O Império Turco-Otomano também desapareceu, dando origem à Turquia. Seu território foi desmembrado e boa parte dele passou para o controle de franceses e ingleses; 
  • A Alemanha foi o país que mais sofreu sanções. Seu governo foi obrigado a devolver a Alsácia e a Lorena à França, suas colônias passaram a pertencer aos vencedores e suas forças armadas sofreram importantes restrições: não poderiam ultrapassar mais de 100 mil homens nem ter armamentos estratégicos, como canhões e submarinos. Além disso, o governo alemão teve de pagar uma indenização de 132 milhões de marcos; 
  • Por proposta do presidente norte-americano Woodrow Wilson, em 1920 foi criada a Liga das Nações, associação de países com sede em Genebra, na Suíça, destinada a garantir a paz e a segurança mundial; 
  • A guerra de 1914-1918 deixou a economia alemã arrasada. Já para os norte-americanos, ela trouxe vantagens econômicas importantes. Durante o período em que se mantiveram neutros, eles obtiveram lucros enormes com a venda de armas e alimentos aos governos beligerantes. Ao mesmo tempo, fizeram vultosos empréstimos aos governos da França e da Inglaterra. Dessa forma, ao terminar o conflito os Estados Unidos haviam se transformado na maior potência econômica do mundo, passando a ocupar o posto que até então pertencera à Inglaterra.
O Brasil na Primeira Guerra Mundial 
A partir de outubro de 1917, pouco mais de um ano antes do fim da guerra, o Brasil entrou no conflito, ao lado da França, da Inglaterra, dos Estados Unidos e de outras nações aliadas. Foi modesta a participação do Brasil na guerra: o patrulhamento do Atlântico Sul e o envio de um corpo médico à Europa foram as maiores contribuições brasileiras.
Europa após a guerra

Europa após a guerra

Imperialismo e Neocolonialismo no século XIX

Na segunda metade do século XIX, países europeus como a Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e Itália, eram considerados grandes potências industriais. Na América, eram os Estados Unidos quem apresentavam um grande desenvolvimento no campo industrial. Todos estes países exerceram atitudes imperialistas, pois estavam interessados em formar grandes impérios econômicos, levando suas áreas de influência para outros continentes. Com o objetivo de aumentarem sua margem de lucro e também de conseguirem um custo consideravelmente baixo, estes países se dirigiram à África, Ásia e Oceania, dominando e explorando estes povos. Não muito diferente do colonialismo dos séculos XV e XVI, que utilizou como desculpa a divulgação do cristianismo; o neocolonialismo do século XIX usou o argumento de levar o progresso da ciência e da tecnologia ao mundo. 

Na verdade, o que estes países realmente queriam era o reconhecimento industrial internacional, e, para isso, foram em busca de locais onde pudessem encontrar matérias-primas e fontes de energia. Os países escolhidos foram colonizados e seus povos desrespeitados. Um exemplo deste desrespeito foi o ponto culminante da dominação neocolonialista, quando países europeus dividiram entre si os territórios africano e asiático, sem sequer levar em conta as diferenças éticas e culturais destes povos. Devido ao fato de possuírem os mesmo interesses, os colonizadores lutavam entre si para se sobressaírem comercialmente. O governo dos Estados Unidos, que já colonizava a América Latina, ao perceber a importância de Cuba no mercado mundial, invadiu o território, que, até então, era dominado pela Espanha. Após este confronto, as tropas espanholas tiveram que ceder lugar às tropas norte-americanas. Em 1898, as tropas espanholas foram novamente vencidas pelas norte-americanas, e, desta vez, a Espanha teve que ceder as Filipinas aos Estados Unidos. Um outro ponto importante a se estudar sobre o neocolonialismo, é à entrada dos ingleses na China, ocorrida após a derrota dos chineses durante a Guerra do Ópio (1840-1842). Esta guerra foi iniciada pelos ingleses após as autoridades chinesas, que já sabiam do mal causado por esta substância, terem queimado uma embarcação inglesa repleta de ópio. Depois de ser derrotada pelas tropas britânicas, a China, foi obrigada a assinar o Tratado de Nanquim, que favorecia os ingleses em todas as clausulas. A dominação britânica foi marcante por sua crueldade e só teve fim no ano de 1949, ano da revolução comunista na China. 

Como conclusão, pode-se afirmar que os colonialistas do século XIX, só se interessavam pelo lucro que eles obtinham através do trabalho que os habitantes das colônias prestavam para eles. Eles não se importavam com as condições de trabalho e tampouco se os nativos iriam ou não sobreviver a esta forma de exploração desumana e capitalista. Foi somente no século XX que as colônias conseguiram suas independências, porém herdaram dos europeus uma série de conflitos e países marcados pela exploração, subdesenvolvimento e dificuldades políticas.

Liberalismoinspirado em alguns princípios do Iluminismo e da Revolução Francesa, era a ideologia dominante entre a burguesia industrial; opunha-se ao absolutismo monárquico e à intervenção do Estado na vida econômica; e seus seguidores lutavam pela adoção de uma Constituição que estabelecesse limites para a ação dos governantes, garantisse os direitos civis e políticos e assegurasse o respeito às liberdades individuais, juntamente com a liberdade de mercado.

Nacionalismo – forte entre os povos de mesma origem e cultura mas ainda não unificados ou sob dominação estrangeira; seus adeptos lutavam pela afirmação da idéia de nação, pela unidade política e pela independência nacional.

Ideologias operárias no século XIX

 O contraste entre a miséria em que viviam os trabalhadores e a riqueza proporcionada pela produção industrial despertava revolta entre escritores, políticos e pensadores de origem burguesa. Indignados com o que viam, alguns deles propunham reformas que instaurassem a justiça social e abrissem caminho para a formação de uma sociedade mais humana e igualitária. As doutrinas e os princípios defendidos por esses reformadores constituíram uma ideologia que se tornou conhecida como socialismo. Seu ponto de partida era a crítica às desigualdades sociais criadas ou acentuadas pelo sistema capitalista. Entretanto, havia entre os socialistas muitas diferenças de opinião, o que originou vários grupos e diversas ideologias. Alguns socialistas argumentavam que só a luta político-eleitoral e parlamentar das classes trabalhadoras poderia conduzir a uma reforma da sociedade capitalista e à instauração do socialismo. Outra corrente de pensadores socialistas preocupava-se mais em idealizar um novo tipo de sociedade do que propor uma forma concreta para os trabalhadores conquistarem o poder.  Esses pensadores ficaram conhecidos depois como socialistas utópicos, expressão derivada de Utopia, título de um livro famoso que o inglês Thomas Morus escreveu no século XVI.

Charles Fourier defendia a criação dos Falantérios, comunidades autônomas que seriam também unidades produtoras administradas pelos próprios operários.

Charles Fourier defendia a criação dos Falantérios, comunidades autônomas que seriam também unidades produtoras administradas pelos próprios operários.

Claude Saint-Simon argumentava que as camadas sociais integradas pelos altos membros da burguesia eram parasitárias.

Claude Saint-Simon argumentava que as camadas sociais integradas pelos altos membros da burguesia eram parasitárias.

Os socialistas utópicos de maior destaque foram o inglês Robert Owen e os franceses Charles Fourier e Claude Saint-Simon. Owen, por exemplo, acreditava na “revolução pela razão”: para transformar o ser humano, melhorar seu destino e curar seus vícios, era necessário primeiro questionar os valores impostos pela sociedade nas áreas religiosa, econômica, moral, familiar etc. Num segundo momento, porém, defendia uma ação transformadora mais efetiva. Ele mesmo serviu de exemplo para comprovar sua teoria. Aprendiz de um fabricante de tecidos e diretor de indústria têxtil, aos 28 anos Owen comprou quatro fiações de algodão que ficavam na usina de New Lanark, perto de Glasgow Inglaterra. As fábricas empregavam 1800 operários, dos quais 450 eram crianças. O socialista, patrão esclarecido, pôs em. prática suas idéias: racionalizou a produção, aumentou os salários e a produtividade, ampliou os alojamentos dos trabalhadores e combateu, entre eles, o alcoolismo e o roubo, dedicando especial atenção à regeneração moral. Além disso, construiu escolas para os filhos dos operários e proibiu o trabalho das crianças de pouca idade nas fiações. Sua experiência foi uma das mais bem-sucedidas da época.  

Robert Owen - Filantropia e oferecimento de boas condições para operários.

Robert Owen - Filantropia e oferecimento de boas condições para operários.

As idéias socialistas, contudo, tomariam novo rumo com dois pensadores de origem germânica, que procederiam a uma crítica radical do capitalismo, procurando criar uma doutrina que fosse, ao mesmo tempo, científica e revolucionária. Esses pensadores eram Karl Marx e Friedrich Engels. Eles fundaram uma corrente de pensamento à qual deram o nome de socialismo científico ou comunismo. Em 1848, lançaram o Manifesto do Partido Comunista, que teve profundas e duradouras repercussões no movimento operário e socialista internacional. Para Marx e Engels, o capitalismo estava condenado à extinção, assim como haviam desaparecido também o feudalismo e o escravismo, e o agente dessa extinção seria o proletariado. classe oposta à burguesia. Para a vitória do proletariado, era necessário organizar os trabalhadores e promover uma insurreição armada que levasse o partido comunista ao poder e criasse um Estado que destruísse a principal estrutura da sociedade burguesa: a propriedade privada dos meios de produção. No seu lugar, seria instituída a propriedade coletiva de todos os meios de produção. Esse Estado dos trabalhadores seria o primeiro estágio sara a formação de uma sociedade sem classes e sem governo, a sociedade comunista.      

Friedrich Engels e Karl Marx - Referências do Socialismo Cientifico e autores do "Manifesto Comunista".

Friedrich Engels e Karl Marx - Referências do Socialismo Científico e autores do

anarquismo radical e ações violentas

Bakunin: anarquismo radical e ações violentas

Outra corrente ideológica importante entre os operários do século XIX foi o anarquismo, que lutava por um tipo de sociedade sem Estado e sem propriedade privada. Os mais importantes teóricos anarquistas foram os russos Mikhail Bakunin e Peter Kropotkin. Bakunin era partidário da violência revolucionária e aconselhava seus adeptos a recorrerem até aos atentados individuais contra a vida dos governantes, enquanto Kropotkin recomendava a utilização de métodos mais pacíficos. Tanto os anarquistas quanto os marxistas lutavam por uma sociedade sem classes e sem Estado. Mas havia profundas divergências entre eles. Os partidários de Marx sustentam que para se chegar ao comunismo era necessário criar primeiro um Estado que esmagasse as resistências burguesas instaurasse a igualdade entre as classes.

russo de origem nobre, era defensor do anarquismo e da classe operária

Kropotkin: russo de origem nobre, era defensor do anarquismo e da classe operária

A forma de governo desse Estado seria a ditadura do proletariado. Já os anarquistas, conhecidos também como libertários, opunham-se a todo tipo de governo, inclusive à ditadura do proletariado, preconizando a liberdade geral e a supressão imediata do Estado. Uma variante expressiva do anarquismo foi o anarco-sindicalismo, que defendia a união entre as idéias libertárias e o movimento sindical. Essa tendência foi particularmente forte na Espanha. No Brasil, o movimento operário do começo do século XX seria liderado majoritariamente por adeptos do anarco-sindicalismo.

Os Hebreus

Segundo alguns pensadores, as religiões seriam uma tentativa de se encontrarem respostas para certas indagações que a razão humana não conseguia explicar. Assim, os deuses teriam sido criados pela imaginação humana para explicar fenômenos como o nascer do Sol, o aparecimento de uma estrela cadente, a queda de um raio, as doenças, o nascimento e a morte, etc. Com o tempo, uma divindade teria se destacado entre as outras e passado a ser considerada uma espécie de rei dos deuses, criador de todas as coisas. Esse processo teria levado a humanidade em direção ao monoteísmo. No Egito, por exemplo, no século XIV a.C., o faraó Amenófis IV tentou implantar o culto a um único deus, Aton, mas fracassou. Após sua morte, os egípcios retornaram ao politeísmo. Seja como for, a crença em um Deus único e universal só se concretizou de fato entre os hebreus, povo nômade que, há milhares de anos, disputava com outras tribos do deserto poços de água e terras de pastagem no Oriente Médio.

Os hebreus são um grupo que tem sua origem lingüística na Mesopotâmia. O hebraico falado por eles era uma língua semita, assim como as línguas de outros povos mesopotâmicos. Sua história é narrada sem precisão científica no Velho Testamento, um dos livros que compõem a Bíblia. O primeiro registro não bíblico de sua existência foi encontrado no Egito e é datado de cerca de 1220 a.C. Tra¬ta-se de um relato sobre a relação de dominação exercida sobre eles pelo faraó Mineptah. Documentos históricos e descobertas arqueológicas comprovam a presença dos hebreus na Palestina somente a partir de 1230 a.C. Essa data contraria as informações da Bíblia, segundo a qual eles já estariam estabelecidos em solo palestino dois séculos antes. Quando os hebreus se estabeleceram na Palestina, sua organização social baseava-se em um sistema comunitário, sem forma definida de governo. Os líderes surgiam apenas em momentos de maior necessidade, como durante as guerras. Na falta de uma centralização política e administrativa, cabia a um conselho de anciães, liderado por um juiz, orientar e aconselhar a população em questões es¬pecíficas. Os juízes eram chefes militares com autoridade religiosa. Na tentativa de unificar as tribos hebraicas, eles passaram a difundir entre a população a idéia de que os hebreus eram um povo único, escolhido por Deus em meio a tantos outros. Para criar esse sentimento de identidade, os juízes afirmavam que os hebreus eram descendentes diretos do patriarca Abraão – aquele que, segundo a Bíblia, teria conduzido os hebreus de Ur, na Mesopotâmia, à Terra prometida, na Palestina. Eles também exortavam a população a abandonar seus antigos hábitos politeístas. Tudo isso contribuiu para o nascimento do judaísmo, religião monoteísta que se tornaria a base de outras crenças monoteístas surgidas mais tarde, como o cristianismo e o islamismo. 

Por volta de 1010 a.C. os hebreus unificaram suas tribos e formaram o reino de Israel, do qual o primeiro rei foi Saul. Coube a seu sucessor, Davi (1006-966 a.C.), a tarefa de expulsar da Palestina um dos povos rivais: os filisteus. Após escolher Jerusalém – cidade que já existia – para capital do reino, Davi dividiu Israel em doze províncias ou tribos. 3om Salomão (966-926 a.C.), filho de Davi, o reino de Israel conheceu sua fase de esplendor e de centralização religiosa. É dessa época a construção do Templo de Jerusalém. Com a morte de Salomão, o reino entrou em convulsão e dividiu-se entre o reino de Israel (reunindo as dez tribos do norte) e o reino de Judá (formado pelas duas tribos do sul). Em 722 a.C. o reino de Israel foi dominado pelos assírios, que levaram muitos hebreus como escravos para seu território. Em 587 a.C. Nabucodonosor, rei dos babilônicos, conquistou Judá, destruiu o Templo de Jerusalém e escravizou muitos de seus habitantes, levando-os para a Babilônia. Em 539 a.C. Ciro I, o Grande, rei da Pérsia, conquistou a Mesopotâmia e permitiu que os hebreus retornassem à Palestina, onde viveriam em liberdade desde que lhe pagassem tributos. Posteriormente, a região da Palestina foi dominada pelos gregos e depois pelos romanos. Em razão da violência imposta por estes últimos, os hebreus dispersaram-se por vários lugares do mundo na chamada Diáspora. Essa dispersão duraria cerca de 2 mil anos. Mesmo vivendo separados uns dos outros, sem governo e sem território próprios até 1948, quando a ONU criou o Estado de Israel, os judeus mantiveram vivo o sentimento de identidade nacional e religiosa. Esse sentimento de pertencer a uma única nação só foi possível em razão de sua forte crença religiosa e do fato de acreditarem que a Palestina estava destinada a eles por vontade divina.

Os Persas

 

As origens da antiga Pérsia remontam a 2000 a.C., guando tribos nômades originárias da Ásia central e da Rússia atual instalaram-se no planalto iraniano. Entre estas tribos estavam os medos e os persas.Os medos se estabeleceram no oeste e no noroeste do planalto, nas proximidades da atual cidade de Teerã, capital do Irã. Já as tribos persas se fixaram no sudoeste do planalto. Por volta do século VII a.C. os medos foram unificados por Déjoces, que se tornou rei. Coube a seu neto Caixares a tarefa de consolidar o Império Medo. Graças a um exército composto de soldados disciplinados desde a infância, Ciaxares dominou os persas e outros povos, que passaram a lhe pagar tributos. Com a morte de Ciaxares, o trono dos medos passou a ser ocupado por seu filho Astíages. Este, por sua vez, promoveu o casamento de uma de suas filhas com o principal líder persa. Dessa união nasceu Ciro. Em 559 a.C. Ciro assumiu o lugar de seu pai e unificou as várias tribos persas. Temeroso de perder o poder, em 550 a.C. Astíages lançou seu exército contra Ciro na região conhecida como Pasárgada, mas foi der rotado. Com a vitória, Ciro incorporou o reino dos medos ao território persa, dando início à dinastia dos Aquemênidas – nome do clã de seu pai. Grande estrategista militar, Ciro ampliou o território persa após a submissão dos medos e o transformou em um grande império. Por causa dessas conquistas, Ciro ficou conhecido como o Grande.

Após a morte de Ciro e algumas disputas internas, um líder chamado Dario assumiu o poder em 522 a.C. Além de recuperar domínios perdidos, Dario expandiu o Império Persa, no qual passaram a viver cerca de 10 milhões de pessoas de idiomas, costumes e religiões diferentes. Para controlar toda essa população, Dario estabeleceu um sistema unificado de impostos, um código de leis, um sistema monetário único e uma excelente rede de estradas e correios que interligavam as várias regiões do império. Mas Dario também conheceu derrotas, principalmente a partir de 514 a.C., época em que resolveu direcionar suas conquistas para a Europa. Nessa empreitada, os persas foram vencidos pelas cidades-Estado gregas nas Guerras Médicas, ou Greco-Pérsicas. Com a derrota persa, as cidades gregas tornaram-se a principais força do Mediterrâneo oriental. Em 331 a.C. o rei da Macedônia, Alexandre, o Grande, que já dominava a Grécia, derrotou Dario III e conquistou Império Persa, pondo fim à dinastia Aquemênida. Em 642 a Pérsia foi conquistada pelos árabes e quase toda a sua população se converteu ao islamismo. No século XI a região foi invadida pelos turcos e, no século XIII pelos mongóis. Posteriormente, voltou a ser governada por dinastias de origem persa. Em 1935 o país passou a se chamar Irã.

O rei Dario I

Os persas deixaram um grande legado aos diversos povos e religiões posteriores a eles. As idéias relacionadas ao juízo final, ao paraíso e à oposição entre o Bem e o Mal presentes no cristianismo, por exemplo, têm como origem o zoroastrismo, a religião persa. Os fundamentos dessa religião estão registrados no Zend-Avesta,obra escrita por Zoroastro (628-551 a.C.),também conhecido como Zaratustra. Oficialmente, apenas o grande deus Ahura-Mazdâ -simbolizado pela luz e pela pureza do fogo era adorado. A população, porém, cultuava divindades que personificavam as forças do Bem em permanente luta contra as trevas e os demônios. Acreditava que quem combatesse as forças do Mal alcançaria a felicidade e a vida eterna.

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